quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Emily Dickinson V



Poema 1100


A Noite que a levou
Era uma Noite Comum
Tirando a Morte — isso mudou
O Mundo à Nossa volta

Visíveis as mais ínfimas
Coisas antes ocultas
Pela luz sobre as nossas Mentes
Como direi — grifadas.

Numa roda viva entre
O Seu último Quarto
E os Daqueles que estarão vivos
Amanhã, o Remorso

Por Outros existirem
E Ela ter de partir
Uma Inveja quase infinita
Ela em nós despertou —

A agonia aguardámos —
Foi um piscar de olhos —
Oclusos não dissemos nada —
Logo veio a notícia.

O que disse, olvidou —
E, leve como um Junco
À flor do Lago, sem dar luta —
À morte se entregou —

Alisado o Cabelo — 
O Ar lhe compusemos —
Então terrível ócio foi
A fé recalibrar — 

(1866)


*

The last Night that She lived
It was a Common Night
Except the Dying — this to Us
Made Nature different

We noticed smallest things —
Things overlooked before
By this great light upon our Minds
Italicized — as 'twere.

As We went out and in
Between Her final Room
And Rooms where Those to be alive
Tomorrow were, a Blame

That Others could exist
While She must finish quite
A Jealousy for Her arose
So nearly Infinite —

We waited while She passed —
It was a narrow time —
Too jostled were Our Souls to Speak —
At length the notice came.

She mentioned, and forgot —
Then lightly as a Reed
Bent to the Water, struggled scarce —
Consented, and was dead —

And We — We placed the Hair —
And drew the Head erect —
And then an awful leisure was
Belief to regulate —

sábado, 5 de dezembro de 2020

Conselhos a um jovem poeta

Escreve-te. Não com sangue — pobre louco efeminado, que exaltava a saúde para se compensar de a não ter (não se tivesse tornado exangue!) —, mas no sangue. Faz-te. Molda à martelada o formato do teu crânio, remove com a picareta as nuvens dos teus sonhos, extrai com o estilete a necrose dos sentimentos, sufoca na garganta o gorgolejo do teu canto. E, sobretudo, não esperes a revelação — o outro descobriu-se poeta, mas — hélas — não passava de uma criança!

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Alpiarça, Novembro de 2020


O galeirão, junto à margem, regurgita a manhã — uma luz insípida e volátil que lhe sobe das entranhas e se dispersa no ar, enredando-se nas ervas, marchetando o nevoeiro, mal aflorando a água, e se evola no céu, onde uma cova profunda a engolfa e engole. Insones, os patos concentram-se numa extremidade, sob o olhar submisso das galinhas d’água e o voo catatónico das libélulas. Uma carpa sobrealimentada rasga a película negra da superfície, asfixiando no éter. Dejectos a toda a roda. Torrões que se esboroam sob o bafo pestilento dos lagartos. Talos untados de visco para os pardais. A chama verde das azinheiras, tocada pelo vento. Ouço a agónica melodia da terra, sorvo o fétido alento dos pântanos. E uma alegria repulsiva revolve-me o ventre. Também eu conheço o vómito criador, ácida transparência que me sobe à garganta, refluxo em que sufoco.

domingo, 19 de julho de 2020

Alpiarça, 17/07/2020



Auréola ou coroa, sob o peso lascivo da escuridão, o garrote do ocaso estrangula a veia túmida do horizonte. Por baixo, a água ferve de insectos que copulam sobre o limo. Ouvem-se coaxar as rãs por entre as sirenes dos grilos e o crocitar dos corvos. O ar queima, extinta labareda que rasteja. Mais além, nas vinhas ressequidas, um arrastar de asas sanguinolentas insinua uma vertigem consumada. Moscas enxameiam o veludo dos dejectos, debruado por uma espuma que se volatiliza. Unhas raspam o fundo do rio, vago marulhar que se pressente. Cruzam o céu, entre a cintura incandescente e a noite perpétua, três patos transviados que se imolam na fornalha, augúrio que não decifro. Viro costas a esta evidência, e um único arquejo ainda me retém. Na minha língua, bifurcam-se dois caminhos, duas verdades derradeiras. Sumptuosa asfixia.

terça-feira, 14 de julho de 2020



O sol crepita no zinco do barracão.
Os cães espumam encarniçados.
Um vespeiro zumbe na sombra.
Uma foice pende de um prego –

o cabo está rachado,
e a lâmina, romba,
funde-se sob o verdete.
Ulcerado também o prego.

Os ratos urinam pelos cantos.
As batatas apodrecem nas sacas.
O bafio emana das arcas.
Os morcegos oscilam nas vigas.

Decénios de pó acumulado
no chão de terra batida.
Aranhas que disputam as moscas
às osgas e aos morcegos.

Uma brisa salobra desliza
pela frincha do portão,
riçando bolores que foram frutos:
nêsperas, ameixas, pêras, limões.

Ao fundo, no alguidar reluzente,
boia afogada uma ninhada de gatos.
A mãe, ainda jovem, enrodilhada
nos pés da dona, mia, esfaimada.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

As Flores do Mal


Disponível em: https://relogiodagua.pt/produto/as-flores-do-mal-2/ e a chegar às livrarias: As Flores do Mal, de Charles Baudelaire (trad. de João Moita)

«A edição que agora se apresenta contém todos os poemas da segunda edição de As Flores do Mal, de 1861, seguida dos 6 poemas condenados e dos 24 acrescentos à terceira edição, excluindo a tradução de Longfellow. É, por isso, a mais completa edição em Portugal da obra poética de Charles Baudelaire, depois do esforço sumamente meritório de Fernando Pinto de Amaral (que incluía apenas a segunda edição e os poemas condenados) e das inspiradas derivas de Maria Gabriela Llansol (que incluía a segunda edição, os poemas condenados e apenas os poemas acrescentados à terceira edição que não constavam de Épaves). Há também registo de uma edição parcial da obra, publicada em 1909 e traduzida por Delfim Guimarães, que não pude consultar.
Acrescentou-se ainda em Apêndice, a título de curiosidade, os projetos de prefácios que Baudelaire redigiu para a segunda e uma eventual terceira edição da obra, e que nunca chegou a publicar, bem como as notas que grafou para o seu advogado aquando do processo judicial que levou à condenação do livro.
Caberia aqui, como é apanágio nestas ocasiões, socorrer-me do clássico recurso retórico de captatio benevolentiæ, no qual o tradutor chama a atenção do benevolente leitor para as necessárias fragilidades que um exercício desta natureza sempre comporta, ao mesmo tempo que expõe o método que em teoria terá usado, mas que na prática não conseguiu aplicar mais do que uma ou duas vezes, as necessárias para dele poder extrair um ou dois exemplos. Eximo-me a esse esforço, deixando ao leitor, que se espera implacável e ferino, a tarefa de escrutinar os méritos que a tradução possa ter ou de lhe apontar os defeitos. Deixo apenas a ressalva de que se respeitou escrupulosamente a métrica baudelairiana, salvo não mais do que um punhado disperso de exceções. As notas quiseram-se tão escassas quanto possível.
Quanto ao mais, a beleza que há no mal torna-se seguramente mais incisiva se não a embotarmos com explicações redundantes.

João Moita»

[Da Nota do Tradutor]

 

terça-feira, 26 de maio de 2020

A Pandemia que Abalou o Mundo



Disponível em: https://relogiodagua.pt e a chegar às livrarias: «A Pandemia Que Abalou o Mundo», de Slavoj Žižek (trad. de João Moita)

«Nenhum coronavírus nos pode tirar isto. Há, pois, esperança de que o distanciamento físico venha inclusivamente a reforçar a intensidade do elo que nos liga aos outros. Só agora, que tenho de evitar muitos daqueles que me são próximos, é que sinto plenamente a sua presença, a importância que têm para mim.
Aqui chegados, já estou a ouvir uma gargalhada cínica: está bem, talvez experienciemos esses momentos de proximidade espiritual, mas como é que isso nos vai ajudar a lidar com a catástrofe atual? Tiraremos daí alguma lição?»

[Da Introdução]

domingo, 17 de maio de 2020

Alpiarça, 17/05/2020



A trepadeira subiu ao telhado e floriu nas alturas. Um lilás carregado, tingido de mágoa, abrupto na folhagem. Goelas que sorvem um sol inexpressivo e torpe, pingos de solda que Deus carpiu, ecos graves de uma gruta em chamas, tétricos clarões sob um céu lavado como não se via há muito: a orla das nuvens iluminada como grandes alforrecas num oceano sem fundo, um azul progressivo, indesmentível, aureolar. Sob a ameaça de uma insídia, uma empena cedeu. Vergão que supurou. Acocoradas sob as telhas, as sombras preparam uma emboscada. Quem pende de que viga? Quem salmodia na escuridão? Que algidez acoita quantos vermes? Que túmulo em que talhão? Subiu ao telhado e floriu nas alturas. Hossanas, clama a minha indiferença para o canto de uma ave primípara.


terça-feira, 12 de maio de 2020

São João dos Montes, 12/11/2013

Brincava fantasiando brinquedos. Era uma criança feliz, entregue à efabulação de parricídios e ao incesto da imaginação. Creio que era uma criança feliz. Dentro da casa, vigiávamos impávidos a hora silenciosa. Era então a paz como uma sagração.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Alpiarça, 17/03/2020


Um meio-dia translúcido e sem peso na quietude ondulada da lezíria. Um silêncio povoado, um frenesim imperceptível, a incessante azáfama da vida na imobilidade da hora. Também eu participo do silêncio, deixo alastrar o veneno.

domingo, 5 de abril de 2020

Santarém-Lisboa, 12/03/2020


O verde a toda a volta é benigno como um patíbulo. Os canaviais sobrepujam a altura dos caminheiros. Nas estremas dos terrenos, as alfais reluzem de suor. Os regos entre as parcelas jorram como corações esfaqueados. Há estacas espetadas na terra, delimitando zonas de pastoreio. Cabos de alta tensão ondulam e crepitam, transbordantes, contra um céu lúgubre e espumoso. Ratos espavoridos atravessam os campos virentes, acossados pelo voo planado de um falcão. Ao fundo, o indecoroso silêncio de uma aldeia espectral.