segunda-feira, 30 de março de 2020

Alpiarça, 29/03/2020



Ainda o sol não se pôs e já a escuridão cerra fileiras a oriente, o cutelo nos dentes. Fecharam as asas e lançaram-se num ataque extemporâneo, enredando-se nos ramos pesados de acidez do limoeiro. São nuvens sopradas pelos brônquios pestilentos dos deuses. Terão passado antes de desabarem noutras paragens, onde o exército das cegonhas em revoada se reuniu e as espera para uma refrega sem tréguas: cairá neve sobre o campo de batalha. Será então altura de apanhar os limões caídos com que desdenharei a noite. Recolho-me, libo a peçonha da indiferença: sugar os gomos, cuspir as sementes.

domingo, 29 de março de 2020

John Keats (I)



Quando me assalta o medo de morrer
   Antes de a mente em escrita verter,
E de deixar, redonda, em cartapácios,
   Como em silos, a madura semente;
Quando no rosto da noite diviso
   Turvos símbolos de um nobre romance,
Sem que para as suas sombras traçar,
   Num rasgo de sorte, a vida me sobre;
E quando sinto, ser belo e fugaz,
   Que admirar-te não mais me será dado,
Nem me comprazer no excelso poder
   Do incauto amor! – Então, do vasto mundo
Me afastando, ponho-me a meditar
Até Fama e Amor no nada afundar.


John Keats, 1818. 


*

When I have fears that I may cease to be
   Before my pen has gleaned my teeming brain,
Before high-pilèd books, in charactery,
   Hold like rich garners the full ripened grain;
When I behold, upon the night’s starred face,
   Huge cloudy symbols of a high romance,
And think that I may never live to trace
   Their shadows with the magic hand of chance;
And when I feel, fair creature of an hour,
   That I shall never look upon thee more,
Never have relish in the faery power
   Of unreflecting love—then on the shore
Of the wide world I stand alone, and think
Till love and fame to nothingness do sink.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Alpiarça, 22/03/2020



Altaneira no seu ninho, a cegonha vigia o silêncio da vila amadornada, entrecortado pelo rumor das andorinhas e pelo arrulho dos pombos. Ao longe, cães ladram, alarmados pelos cacarejos de galinhas pressentidas. Uma mota obsoleta estrondeia nas ruas desertas, e os raros automóveis passam na estrada principal como vagas de um mar represado por uma baía. Dentro das casas, vidas suspensas presas às suas iras domésticas. Erguendo-se acima de tudo, as duas torres da igreja decrépita, também ela colonizada pelas ímpias cegonhas. A luz de um zénite imponderável derrama-se como uma epidemia. Nos pátios, nos barracões, traves conjuram cordas para enforcamentos. A um canto, na sombra, amadurece o veneno, debaixo de um vespeiro. Tocam os sinos. Meio-dia. Uma paz que sufoca.


*


O mesmo coral de pássaros na luz que declina. Presságio de asas no limoeiro e o lamento tangível dos pombos. Alguém tira água de um poço. O caldo das profundezas, subitamente iluminado, incendeia-se. Uma aragem fresca raspa ao de leve nas telhas, quebrando-se nas goteiras. Quietude vertiginosa, bulício da espera, opressão do entreacto.