quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Não tarda a noite sobre o vale. As montanhas aconchegam-se já à sombra ténue. As veredas afadigam-se no sem destino de ligarem parte alguma a lugar nenhum. Cedo, toda a extensão se cobrirá de neve. Uma superfície para a desolação. Depois, virá o fogo. Em baixo, a ribeira canta exangue, amando a tristeza do seu curso lento. Um novo dia depois.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Todas as manhãs, o eremita ia à ermida com o seu machado. Mal o sol se erguia, abandonava a esteira, contava o rebanho e punha-se a caminho. O trilho seguia pela margem da ribeira, que ele subia a custo, dobrado ao peso do machado. Quando chegava, nunca se benzia. Ao bater na pedra, a estrutura abanava. No alto, a cruz quase cedia. Não gemia ao sentir as lascas que se desprendiam do trabalho cravarem-se-lhe na pele. Rezava. Depois descia, levava o rebanho a pastar.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dar a exacta medida do que se perde.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Diálogo do Isolamento

Jesus - «Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei uma Igreja para mim e as portas do Inferno nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» (S. Mateus 16, 18-19.)


Pedro - Sobre a pedra me sentarei, com as chaves me selarei.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As Filhas de Lot

Hendrick Goltzius, Lot e as suas filhas, 1616.



O que nos excita é o que nos definha.

sábado, 31 de outubro de 2009

Corpo sacrificial

Caravaggio, O sacrifício de Issac, 1603.


O comovente neste quadro é o olhar suplicante do cordeiro. Ele vai morrer pela vez do Outro, para que o objecto amado, o Outro, não morra. É uma solidão absoluta, sem remédio. Abraão ama Isaac, e Deus ama Abraão. Ninguém ama o cordeiro. O cordeiro é mero objecto que existe em função de uma acção na qual é mero pretexto. O pai da fé instaura-a através um acto volitivo, através da demonstração de uma intenção, através de um salto disjuntivo da consciência (Kierkegaard). O sacrificado, o supliciado o crucificado, em suma – está ausente desse processo, desta prova de amor incondicional, constituindo-se como elemento externo ao circuito. Ele existe como encadeamento final substitutivo. A sua identidade é irrelevante no quadro da sua função, na medida em que ele é um elemento exterior à necessidade da prova de amor, a sua existência é posterior e está subjugada a essa necessidade: o importante é que realize, enquanto elemento operativo, a acção na qual não participa. É da ordem dos utensílios. 

Cristo-cordeiro, que se situa fora do sistema de desideratos dominante, da trídade deus-pai-filho, tem o potencial para instaurar uma nova ordem que já não se reveja na obediência ou desobediência a um Pai normativo, mas que tenha o seu nexo na paixão do ser enjeitado pelo seu próprio corpo sacrificial. Colocar esse corpo sacrificial ao serviço de uma sensibilidade exaltada que dele se apodere em delírios antropogáficos é, talvez, a derradeira experiência estética.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O vento soprado como sangue (II)

XVI

De cada vez que um de nós morre
há uma faca apontada às jugulares:
o silêncio como mantimento.

A morte equilibra-se em nossos corações
com o deslumbramento.

Há-de haver um corpo que transite de alma em alma
e em cujos olhos se alumie a força brutal da mesma vida.
Há-de haver uma voz desvairada que se derrame como napalm
sobre a noite que nos envolve.

Por agora não sei como tocar a distância de onde nos falam.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O vento soprado como sangue

X

Não é como se a mão hesitasse no gesto fundador.
O movimento espera que um astro se incendeie
em todos os tendões
para que nenhuma palavra seja o frio nexo da loucura
ou o vento soprado como sangue.
Uma pedra sobre a boca pode ser o único sustento
para essa fome.
Mas a mão que escreve avança como faca
arrancando à garganta o seu êxtase carbonizado.
A violência é a religião de Deus.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ensaio sobre Idealismo e Realismo em Mário de Sá-Carneiro



Não esquecemos que exaltaste outrora todas as nossas idades. Temos
fé no veneno. Sabemos da nossa vida inteira todos os dias. Eis o tempo dos ASSASSINOS.

Rimbaud


até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza


Herberto Helder


Tanto mais és Deus

Quanto homem te reconheces.

Plutarco



O drama de Mário de Sá-Carneiro está intimamente ligado ao período em que viveu. Efectivamente, o início do séc. XX, marcado pela profunda depressão du fin de siècle, anuncia uma grave crise ontológica, preparando o caminho para as últimas e mais destrutivas ideologias, tentativas vãs de abreviar a crise. A cisão que se processa entre o eu e o mundo – cuja origem radica na consciencialização da falência da noção do progresso enquanto emancipação do homem em relação ao meio físico e suas contingências, consciencialização que deu lugar à desilusão manifesta na crescente instrumentalização do homem pela máquina e sua consequente alienação – provoca em espíritos exacerbados como o de Sá-Carneiro um conflito que se materializa no jogo do tudo ou nada, onde a arte se confunde com a vida na tentativa de a segunda se subsumir na primeira e ser por ela resgatada.
Neste jogo de tudo ou nada, a vida por inteiro ou a morte, existe apenas um resultado possível: aquele que é dado pela súmula das premissas separadas pela disjuntiva: a vida e a morte. A vida por inteiro conquista-se a um único preço, o da dissipação. Sabemo-lo por exemplo da expressão francesa para orgasmo: la petite mort. Esta ideia de morte como preço a pagar pela plenitude foge já à estética do modernismo e da época em que floresceu, para se inscrever no âmbito do pensamento mitológico. Prometeu, Ícaro e Adão são exemplos desse desafio aos deuses (hybris) que acaba sempre gorado; aí estão, cumprindo a sua função de mitos, para iluminar a viagem que Sá-Carneiro encetou dentro de si para se encontrar com a máxima expressão da beleza divina – o homem diante de si mesmo reconhecendo-se em plena integridade –, viagem à qual não sobreviveu: o homem que quer chegar a ser Deus tem de abdicar da sua humanidade. Montaigne, o antípoda de Sá-Carneiro, viu o perigo e, muito lucidamente, decidiu conformar-se. Por isso anota nos seus Ensaios: “Querem sair de si mesmos e escapar ao homem. É loucura: em vez de se tornarem anjos, tornam-se brutos, em vez de se elevarem, rebaixam-se. Estes humores transcendentes apavoram-me, como os lugares altos e inacessíveis”[1].
Este excerto podia muito bem ser, não fosse o diferendo cronológico, uma resposta ao poeta de que nos ocupamos: “As grandes Horas! – vivê-las / A preço mesmo de um crime!”[2]. Viver as grandes Horas: eis tudo. Não viver todas as horas, mas as Grandes Horas.
O preço foi pago. Carlos Ceia mostra como “a poesia de Mário de Sá-Carneiro [se] assemelha a um campo de batalha onde só ficaram destroços. De todos os beligerantes, apenas o Poeta ficou ferido de morte, disperso em pedaços de espírito. (…) Tanto mais amarga se tornará a derrota quanto mais o sujeito progredir para a consciência de si e perceber, no fim, que afinal o outro-inimigo estava dentro de si”[3]. Este outro-inimigo não é mais do que a inesperada segunda premissa da dialéctica que o eu estabelece consigo mesmo sempre que o indivíduo procura dentro de si a sua unidade, o lugar uno que ocupa, a sua impossível síntese. Querer encontrar-se implica o movimento para fora de si, cindindo-se o sujeito em dois ou em vários e tornando ainda mais agónica a procura: “Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, /E hoje, quando me sinto, / É com saudades de mim”[4].

Esta é a viagem de Mário de Sá-Carneiro, uma viagem interior, ontológica, que pode encontrar paralelo numa outra viagem, esta empírica, protagonizada mais de quatro séculos antes do poeta por Vasco da Gama e imortalizada por Camões.
Também Vasco da Gama desafia os deuses em nome de uma realização que nivelasse os homens e os deuses nos seus feitos. E também ele se defronta com a impossibilidade de alguma vez o alcançar em vida, com a diferença de que Gama consegue mesmo esse nivelamento, através de uma força de vontade irredutível, que, sob a pena de Camões, se torna superior à dos deuses. Tal facto deve-se sobretudo à circunstância de o Renascimento, época em que foi escrito o grande poema épico, marcar o início da esperança nas capacidades humanas em moldar o seu destino, ao passo que o início do séc. XX, época de Sá-Carneiro, representa o final da crença nessas aspirações[5]. Mas, tanto num caso como noutro a vontade desmedida são um traço comum:


(…) Quem te trouxe a estroutro mundo,
Tão longe da tua Pátria lusitana?

- «Abrindo – lhe responde – o mar profundo,
Por onde nunca veio gente humana,
 

Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Por onde a lei divina se acrescente.»


Camões, Lusíadas, VII-25

E Sá-Carneiro:
E numa extrema-unção de alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.[6]


Pessoa, que ao contrário de Mário de Sá-Carneiro soube equilibrar a sua busca labiríntica dentro de si, encarnando os diferentes “eus” de forma não concomitante – o que o salvou da dispersão – cunhou a expressão que subsume esta aspiração sobre-humana dos tempos modernos, que pretende sentir tudo de todas as maneiras.
Tal como Montaigne será, no nosso exemplo, o duplo antagónico de Mário de Sá-Carneiro, também Vasco da Gama tem o seu demónio socrático. O Velho do Restelo é, no poema de Camões, o anti-herói que chama à razão os marinheiros embarcados para a Índia, tentando dissuadi-los da viagem através da condenação dos sentimentos que Nietzsche consideraria, por sua vez, elevados, contrariamente à moral cristã, dado que se projectariam para além do bem e do mal. A vaidade, a ambição, a fama, a glória, em suma, a soberba humana – eis os sentimentos grandiloquentes que só algumas almas estão dispostas a perseguir, já que através deles “Que mortes, que perigos, que tormentas, / Que crueldade neles experimentas!” (Lusíadas, IV-95).

Trata-se da velha oposição entre realismo e idealismo, entre Sancho Pança e Dom Quixote. Sá-Carneiro escolheu para modelo D. Quixote e Vasco da Gama, muito embora também ele tenha vacilado por um momento perante a argumentação do Velho do Restelo:
Afronta-me um desejo de fugir

Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz

Não há muitos que a saibam reflectir.[7]


O poeta reconhece a sua excepcionalidade, a sua predeterminação para um destino maior só a poucos concedido. O drama de Sá-Carneiro é ainda mais acutilante do que o de Vasco da Gama, cujo destino se integra numa ambição que não é dele, mas de todo um povo. O peso de um reino que tem sobre as costas alivia-o da sua própria carga: de outro modo estaria condenado a ser livre (Sartre). A identificação do nosso destino com o de uma entidade que nela nos dissolve reduz-nos a responsabilidade perante os nossos próprios actos e as nossas próprias escolhas. Ao contrário, Mário de Sá-Carneiro assume-se integralmente nas suas escolhas, é ele que se joga e não um país que encontrará noutros os substitutos dos que caem. Porém, no autor de "Dispersão", o jogo consigo mesmo processa-se unicamente no plano estético: acontece que em Sá-Carneiro a arte confunde-se com a vida, tal como preconizava Oscar Wilde, autor que Sá-Carneiro tanto admirava, para dessa identificação ascender a um plano ético.

A obsessão do Absoluto, movimento que identifica a vida com a sua manifestação estética, a Arte, levou Mário de Sá-Carneiro numa espiral para dentro de si, obrigando-o a uma viagem sem retorno. Curiosa e simultaneamente, essa viagem até ao centro de si, essa obsessão de se conhecer, tem o mesmo destino da vida empírica: é uma viagem com um único sentido. É neste contexto que Sá-Carneiro nos dá a exacta medida do absurdo da experiência humana. A morte confere irredutivelmente um sentido trágico à vida, por mais comezinha que esta tenha sido. Aqui encontramos o grande mérito e o grande contributo de Mário de Sá-Carneiro e do seu drama pessoal para o reconhecimento do drama universal da espécie humana.
Herberto Helder remete o drama da origem da dupla condição do homem (humana-divina) para o plano mitológico: “Quando começou a navegação aérea – isto é: nas alturas de Ícaro, apesar da biografia desastrosa –, começou-se logo também com o crepúsculo dos ídolos”[8]. Ícaro quis voar para estar mais próximo de Deus, e foi por isso que caiu. Os homens quiseram construir uma torre que os aproximasse do céu, e foi por isso que esta desabou. Adão comeu a maçã proibida porque dessa forma acederia ao conhecimento divino, e foi por isso que foi expulso do paraíso. Prometeu quis roubar o fogo aos deuses, e foi por isso agrilhoado para a eternidade. Todos estes homens foram castigados pelos seus actos revolucionários; de todas estas transgressões resultaram acrescentos para a humanidade.
O Velho do Restelo terá as suas razões para ficar em casa. Quem parte, joga tudo e tudo perde. Acontece simplesmente que dessa derrota singular todos ganhamos.
Mário de Sá-Carneiro decidiu partir, mas a sua época não era para idealismos (como o resultado dos idealismos em que foi pródiga demonstrou). Por isso foi mais lúcido que os seus antecessores, e, nessa medida, mais trágico. Sá-Carneiro não é um idealista puro, ele reserva-se ainda algum grau de realismo: sabe que tudo é ilusão, principalmente a aspiração à grandeza:

A última ilusão foi partir os espelhos –
E nas salas ducais, os frisos das esculturas
Desfizeram-se em pó… Todas as bordaduras
Caíram de repente aos reposteiros velhos.[9]


Na longa introdução ao volume das poesias reunidas de Sá-Carneiro, Maria Ema Tarracha Ferreira mostra, a propósito do poema “A um suicida”, que este “constitui a confissão do fracasso da existência e da falência das ilusões, expressa pelo eu-poético e condensada na imagem-símbolo «asas-partidas»[10]”. Esta imagem-símbolo dá-nos imediatamente conta da mistura de realismo e idealismo na concepção poética (e, como já vimos, da própria vida) do nosso autor. A viagem é abortada logo à partida devido ao reconhecimento da impossibilidade da sua realização, permanecendo apenas enquanto aspiração inatingível: “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…”[11].
A assunção da beleza do erro quando motivado por um propósito grande não pode ser vista como compensação por uma derrota. É, na verdade, uma derrota total, sem rodeios. A estricnina dos últimos minutos é o assumir final de uma derrota. Tão-só de uma derrota de alguém que recusou a mediocridade, a ponderabilidade e a contenção de uma vida trivial, a vida do nascer e ir morrendo, seguindo, ainda que já sabendo que não conseguiria, o exemplo enorme de Vasco da Gama. Assim, Mário de Sá-Carneiro viveu o drama total do ser humano, o drama do homem que fica preso entre o extremo que lhe calhou e o outro que busca, entre o real e o ideal, entre “mim” e o “outro”:

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.[12]


O título do livro póstumo de Mário de Sá-Carneiro, Indícios de Oiro, resume toda a sua biografia. Na arena da batalha de que falava Carlos Ceia, o poeta ergue-se derrotado e sacode as suas roupas. A poeira que se levanta não é lama, mas oiro.

Notas:

[1] Apud. Bloom, p. 125.
[2] Sá-Carneiro, p. 99.
[3] Ceia, p. 236.
[4] Sá-Carneiro, p. 33.
[5] cf. Saraiva e Lopes, p. 335.
[6] Sá-Carneiro, p. 25.
[7] Ibid.
[8] Helder, p. 58.
[9] Sá-Carneiro, p. 82.
[10] Tarracha, p. 25.
[11] Sá-Carneiro, p. 91.
[12] Sá-Carneiro, p. 73.

Bibliografia
Bloom, Harold, Onde está a sabedoria?, Lisboa, Relógio D’Água, 2008.

Ceia, Carlos, De Punho Cerrado – ensaios de hermenêutica dialéctica da literatura portuguesa contemporânea, Lisboa, Edições Cosmos, 1997.

Ferreira, Maria Ema Tarracha, "Introdução", In: Sá-Carneiro, Mário de, Poesias, Lisboa, Editorial Verbo, 2005.

Helder, Herberto, Photomaton & Vox (4.ª ed.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.

Mourão-Ferreira, David, Hospital das Letras (1ª ed.), Lisboa, Guimarães Editores, 1966.

Sá-Carneiro, Mário de Sá, Poemas Completos (3ª ed.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2005.

Saraiva, António José e Lopes, Óscar, História da Literatura Portuguesa (17. ed.), Porto Editora, 2005.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Poema. Dádiva ou roubo? Não se entra pelo próprio pé nos domínios divinos. Dir-se-ia que Deus compensa o crime com a dádiva, e que a ausência de crime impossibilita a dádiva de Deus.