domingo, 19 de julho de 2020

Alpiarça, 17/07/2020



Auréola ou coroa, sob o peso lascivo da escuridão, o garrote do ocaso estrangula a veia túmida do horizonte. Por baixo, a água ferve de insectos que copulam sobre o limo. Ouvem-se coaxar as rãs por entre as sirenes dos grilos e o crocitar dos corvos. O ar queima, extinta labareda que rasteja. Mais além, nas vinhas ressequidas, um arrastar de asas sanguinolentas insinua uma vertigem consumada. Moscas enxameiam o veludo dos dejectos, debruado por uma espuma que se volatiliza. Unhas raspam o fundo do rio, vago marulhar que se pressente. Cruzam o céu, entre a cintura incandescente e a noite perpétua, três patos transviados que se imolam na fornalha, augúrio que não decifro. Viro costas a esta evidência, e um único arquejo ainda me retém. Na minha língua, bifurcam-se dois caminhos, duas verdades derradeiras. Sumptuosa asfixia.

terça-feira, 14 de julho de 2020



O sol crepita no zinco do barracão.
Os cães espumam encarniçados.
Um vespeiro zumbe na sombra.
Uma foice pende de um prego –

o cabo está rachado,
e a lâmina, romba,
funde-se sob o verdete.
Ulcerado também o prego.

Os ratos urinam pelos cantos.
As batatas apodrecem nas sacas.
O bafio emana das arcas.
Os morcegos oscilam nas vigas.

Decénios de pó acumulado
no chão de terra batida.
Aranhas que disputam as moscas
às osgas e aos morcegos.

Uma brisa salobra desliza
pela frincha do portão,
riçando bolores que foram frutos:
nêsperas, ameixas, pêras, limões.

Ao fundo, no alguidar reluzente,
boia afogada uma ninhada de gatos.
A mãe, ainda jovem, enrodilhada
nos pés da dona, mia, esfaimada.