domingo, 27 de setembro de 2026

A Deus, à Poesia


A Deus, à Poesia move-se entre o aforismo filosófico, a meditação em prosa e o diário de ideias. Organiza-o o problema do silêncio: de Deus, dos astros, do poeta e dos ecos surdos que respondem às invectivas do Homem.
Nas suas quatro secções, o livro traça um percurso que passa pela inquirição ao tempo, a Deus, à poesia e ao erotismo como formas de transcendência deslocadas para a imanência. Este conjunto de fragmentos habita o espaço entre o endereçamento e a despedida – entre falar a Deus sabendo que não há resposta e dizer adeus a uma poesia que não redime e não comparece quando é convocada.
O livro é negro, mas não pessimista: não espera alcançar a luz nem se conforma com as trevas. Nessa aporia, vive.

domingo, 5 de abril de 2026

A caminho de casa


O sol espalha ainda as suas brasas pelos campos, que a brisa do entardecer arrepia. O espaço debaixo das árvores e das pontes — o recreio dos suicidas — está por fim iluminado: as suas sombras parecem querer-lhes fugir, alongando-se por dezenas de metros, coladas por um fio aos troncos e aos pilares. O gado ainda não recolheu e as rãs começam a coaxar nos charcos. Corre um súbito apaziguamento pelo mundo, um sopro que me antecede, pedindo discrição à minha passagem. As fábricas estão paradas e, sobre os cabos eléctricos, pousam por instantes aves indecisas do seu rumo. Agora que as garças debandaram, os vermes emergem para a cópula. Ao longe, avista-se uma ou outra povoação atravessada por nuvens que desmobilizam e onde a esta hora se preparam refeições para aqueles que hão-de chegar. E eu, estupidamente feliz, hesito à porta da minha casa iluminada.