domingo, 5 de abril de 2026

A caminho de casa


O sol espalha ainda as suas brasas pelos campos, que a brisa do entardecer arrepia. O espaço debaixo das árvores e das pontes — o recreio dos suicidas — está por fim iluminado: as suas sombras parecem querer-lhes fugir, alongando-se por dezenas de metros, coladas por um fio aos troncos e aos pilares. O gado ainda não recolheu e as rãs começam a coaxar nos charcos. Corre um súbito apaziguamento pelo mundo, um sopro que me antecede, pedindo discrição à minha passagem. As fábricas estão paradas e, sobre os cabos eléctricos, pousam por instantes aves indecisas do seu rumo. Agora que as garças debandaram, os vermes emergem para a cópula. Ao longe, avista-se uma ou outra povoação atravessada por nuvens que desmobilizam e onde a esta hora se preparam refeições para aqueles que hão-de chegar. E eu, estupidamente feliz, hesito à porta da minha casa iluminada.