O sol
espalha ainda as suas brasas pelos campos, que a brisa do entardecer arrepia. O
espaço debaixo das árvores e das pontes — o recreio dos suicidas — está por fim
iluminado: as suas sombras parecem querer-lhes fugir, alongando-se por dezenas
de metros, coladas por um fio aos troncos e aos pilares. O gado ainda não
recolheu e as rãs começam a coaxar nos charcos. Corre um súbito apaziguamento
pelo mundo, um sopro que me antecede, pedindo discrição à minha passagem. As
fábricas estão paradas e, sobre os cabos eléctricos, pousam por instantes aves
indecisas do seu rumo. Agora que as garças debandaram, os vermes emergem para a
cópula. Ao longe, avista-se uma ou outra povoação atravessada por nuvens que
desmobilizam e onde a esta hora se preparam refeições para aqueles que hão-de
chegar. E eu, estupidamente feliz, hesito à porta da minha casa iluminada.
