terça-feira, 24 de novembro de 2020

Alpiarça, Novembro de 2020


O galeirão, junto à margem, regurgita a manhã — uma luz insípida e volátil que lhe sobe das entranhas e se dispersa no ar, enredando-se nas ervas, marchetando o nevoeiro, mal aflorando a água, e se evola no céu, onde uma cova profunda a engolfa e engole. Insones, os patos concentram-se numa extremidade, sob o olhar submisso das galinhas d’água e o voo catatónico das libélulas. Uma carpa sobrealimentada rasga a película negra da superfície, asfixiando no éter. Dejectos a toda a roda. Torrões que se esboroam sob o bafo pestilento dos lagartos. Talos untados de visco para os pardais. A chama verde das azinheiras, tocada pelo vento. Ouço a agónica melodia da terra, sorvo o fétido alento dos pântanos. E uma alegria repulsiva revolve-me o ventre. Também eu conheço o vómito criador, ácida transparência que me sobe à garganta, refluxo em que sufoco.