domingo, 19 de julho de 2020

Alpiarça, 17/07/2020



Auréola ou coroa, sob o peso lascivo da escuridão, o garrote do ocaso estrangula a veia túmida do horizonte. Por baixo, a água ferve de insectos que copulam sobre o limo. Ouvem-se coaxar as rãs por entre as sirenes dos grilos e o crocitar dos corvos. O ar queima, extinta labareda que rasteja. Mais além, nas vinhas ressequidas, um arrastar de asas sanguinolentas insinua uma vertigem consumada. Moscas enxameiam o veludo dos dejectos, debruado por uma espuma que se volatiliza. Unhas raspam o fundo do rio, vago marulhar que se pressente. Cruzam o céu, entre a cintura incandescente e a noite perpétua, três patos transviados que se imolam na fornalha, augúrio que não decifro. Viro costas a esta evidência, e um único arquejo ainda me retém. Na minha língua, bifurcam-se dois caminhos, duas verdades derradeiras. Sumptuosa asfixia.

1 comentário:

João-Maria disse...

Que bonito. Leria livros inteiros neste estilo hiperestésico. Fico com parestesias nas pontas dos meus dedos internos, quase. É imperfectível. Embora não seja da Charneca do Ribatejo, sou da média-extremadura, um saloio. Há um frémito bruxuleante qualquer aqui na zona. Uma luz insofismável e autotélica. Eu tinha por costume esconder-me nas paliçadas das canas à espera dum casal de galinhas-d'água que lá havia aninhado. Recordo-me, ainda, de torcer canas para pescar as madeixas de limo, que vinham sempre cheias de pequenos girinos.

Crescer solitário nestes sítios vem sempre com uma melodia de extinção irreproduzível. Os silêncios, quase sempre longos, quase sempre chumbados, são feitos de materiais paracósmicos. Mundos que vão morrendo dentro de nós; coisas metíficas. Acho que só agora, a meio dos vinte, é que vou catalogando as carcassas, descobrindo dores e sítios novos onde as colocar.

Gosto muito dos teus livros, João. E fico contente por existir, agora, este outro sítio onde gostar de ti. Espero um dia poder estudar-te com uma arquitectura interna mais limpa, e espero não ter imiscuído.