domingo, 17 de maio de 2020

Alpiarça, 17/05/2020



A trepadeira subiu ao telhado e floriu nas alturas. Um lilás carregado, tingido de mágoa, abrupto na folhagem. Goelas que sorvem um sol inexpressivo e torpe, pingos de solda que Deus carpiu, ecos graves de uma gruta em chamas, tétricos clarões sob um céu lavado como não se via há muito: a orla das nuvens iluminada como grandes alforrecas num oceano sem fundo, um azul progressivo, indesmentível, aureolar. Sob a ameaça de uma insídia, uma empena cedeu. Vergão que supurou. Acocoradas sob as telhas, as sombras preparam uma emboscada. Quem pende de que viga? Quem salmodia na escuridão? Que algidez acoita quantos vermes? Que túmulo em que talhão? Subiu ao telhado e floriu nas alturas. Hossanas, clama a minha indiferença para o canto de uma ave primípara.


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