terça-feira, 4 de março de 2014

Saint-John Perse (VI)


«Mas erguemos ainda os braços em honra do Mar. Na axila açafroada toda a especiaria e o sal da terra! – alto relevo da carne, modelado como uma virilha, e ainda essa oferenda da argila humana de onde irrompe a face inacabada de deus.
«No hemiciclo da Cidade, onde o mar é o palco, o arco tenso da multidão ainda nos sustém na sua corda. E tu que danças a dança da multidão, elevada fala dos nossos pais, ó Mar tribal na tua charneca, serás tu para nós mar sem resposta e sonho mais longínquo que o sonho da Sarmácia?
«A roda do drama gira na mó das Águas, esmagando a violeta negra e o heléboro nos sulcos ensanguentados da tarde. Cada vaga ergue para nós a sua máscara de acólito. E nós, erguendo os nossos braços ilustres, e voltando-nos ainda para o Mar, na nossa axila alimentando os focinhos ensanguentados da tarde,
«Por entre a multidão, em direcção ao Mar, nós nos movemos em multidão, com esse amplo movimento que emprestam à ondulação as nossas amplas ancas de camponesas – ah! mais telúricas que a plebe e que o trigo dos Reis!
«E também os nossos tornozelos estão pintados de açafrão, de múrice as nossas mãos em honra do Mar!»

Saint-John Perse, Amers, Estrofe-III-2
Tradução: João Moita

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Poesia e solidão



A poesia não se faz de correntes nem de contra-correntes[1]: a poesia faz-se de solidão. É em solidão que a escrevemos e em solidão que a habitamos. Ou melhor, investirmo-nos da sensibilidade poética é investirmo-nos da nossa solidão, inundarmos a mudez do mundo com o halo de uma autenticidade que nos pertence e que a ele reclamamos, por vezes, quando o que é excessivo em nós não encontra eco no silêncio fechado do que nos rodeia.
É comum, e talvez não despicienda, a noção de que a origem da poesia está historicamente associada ao aparecimento do culto religioso, esse elemento unificador das sociedades, mas também de confronto com as forças incoercíveis da natureza e com a inelutabilidade da vida. Creio, sobretudo, que o dado consumado de que morremos não é alheio à intrínseca necessidade que o ser humano experimenta de fazer a sua vida confluir para situações em que o sentimento estético actua como elemento redefinidor da existência, dando-lhe consciência da exiguidade e incomunicabilidade dos seus domínios, que no entanto se distendem e proporcionam algo semelhante a um alívio nessa distensão. Como disse a propósito da poesia de Antonio Gamoneda, a poesia dá-nos consciência da dimensão daquilo que entregamos à morte, ou seja, o nosso eu, opondo-o ao que sabemos que o extravasa porque, inacessível e inabitável, ainda assim se nos apresenta, mesmo que o não consigamos representar. Falo de Deus, o mais verdadeiro e mais vago dos conceitos.
A função litúrgica terá sido, pois, a função primordial da poesia, e se se pode dizer, embora seja discutível, que há poesia sem liturgia, o mesmo já não podemos dizer da afirmação inversa. Daí que, talvez, os melhores textos poéticos sejam aqueles que num dado momento histórico estiveram ligados ao culto ou – os meus preferidos – aqueles que na Antiguidade serviram para fazer a comunidade cultual comungar do sentido trágico da vida, o lugar privilegiado da experiência do absurdo que Camus define como «o desesperado confronto entre a interrogação humana e o silêncio do mundo».
A poesia é a linguagem que utilizamos para falar aos deuses, não aquela com que eles nos respondem. A poesia não comunica o incomunicável, mas comunica-se com o incomunicável. Ela não actua sobre o homem, ele é que actua através dela, libertando-se do seu excesso, fazendo-se enfrentar com o que o transcende e o que, por o transcender, lhe escapa. Falo do inominável. Todos nós temos perguntas que não sabemos formular, nenhum de nós está seguro de si ao ponto de não se interrogar acerca da sua contingência. Senão, porque escreveríamos ainda? Que a poesia o faça através de uma técnica e de uma tradição pouco acrescenta, a meu ver, ao problema, a não ser, talvez, pelo facto de a tornar susceptível de contrafacção. A história da literatura bem pode traçar o esquema evolutivo do fenómeno poético e identificar os elos de ligação entre cada uma das unidades de significação, conjugando-as em períodos, correntes e contra-correntes mais ou menos homogéneas, mais ou menos estáveis, mais ou menos emancipadas em relação às outras, mas jamais poderá manejar uma dessas correntes sem que os elos se rompam num processo virulento de auto-exclusão. Não há autenticidade sem exclusividade. Parece ser isso que Adorno tenta indiciar quando afirma que «as normas estéticas (….) ficam atrás da vida concreta das obras de arte», esse mais que encontramos nas grandes obras e que não lhes advém da sua arquitectura nem da ideologia nem das tendências a que dão expressão.
Mas a poesia não se substitui àquilo que, por estar ausente, é a causa da privação. Não é a poesia que é divina, ela dirige-se ao divino sem ter alguma vez a presunção de se identificar com ele. Ou antes, segundo Paul Celan, a poesia é algo que «testemunha a presença do humano»; não a do divino, portanto. Ou ainda estes versos da Sophia: «És um deus que nunca tem um rosto // Por muito que eu te chame e te persiga.» A poesia não redime, mas ela manifesta inequivocamente a necessidade de redenção, e eu não conheço dignidade para o ser humano que não passe pela consciência insatisfeita da sua incompletude, pela reivindicação da sua liberdade, pela insatisfação que não se compraz consigo mesma. A poesia não redime, mas estamos muito mais perto de redenção quando a redenção se torna em nós uma exigência iniludível. A fome: eis todo o consolo para as nossas vidas, eis a nossa grande ligação ao mundo. Porque, no fundo, o que poderia eu desejar se eu me chegasse? «O poema é solitário. É solitário e vai a caminho», diz-nos ainda o poeta apátrida de língua alemã.
Raros, porém, mesmo quando lemos poesia, são os momentos em que experimentamos este aprofundamento da vida, esta autenticidade que toma posse e faz emblema da privação. Lembra Cioran que «muitos só se tornam líricos nos momentos decisivos da sua existência; para outros, tal só acontece nos instantes de agonia, quando todo o passado se actualiza e se desdobra sobre eles como uma torrente. Mas, na maioria dos casos, a explosão lírica surge na sequência de experiências essenciais, quando a agitação do fundo do ser atinge o seu paroxismo». A poesia propicia, pois, a eclosão destas experiências extremas em que o desespero e a perda se harmonizam com a consciência do desespero e da perda e nos devolvem à vida mais pacificados, por um lado, e mais inconformados, por outro. A vida, como a poesia, é feita destes paradoxos, mais do que de correntes.
É a estas situações-limite que a poesia dá forma, embora a ela não estejam limitadas. Este conceito, cunhado por Karl Jaspers, foi entre nós redefinido por Vergílio Ferreira como «aquelas [situações] que nada têm a marginá-las, as que se determinam por um impacto que nos suspende a respiração, as que sobem do real e nos instalam no imóvel espanto, no silêncio que nos estala todo o ser, na evidência da morte, na evidência da beleza, no aviso oblíquo da irrealidade». Régis Jolivet, num estudo sobre Jaspers, vai ainda mais longe, ao afirmar que «o pensamento passa das situações no mundo às situações-limite, da consciência empírica à consciência absoluta, da acção relativa e condicional à acção incondicionada». Creio que o lugar da poesia é bem este lugar da «acção incondicionada», do exercício da plena subjectividade, desta força que rompe correntes e que não se compraz na identificação com os fenómenos de contra-corrente. Convenhamos, tanto umas como as outras, mas mais as segundas, porque as contra-correntes são fenómenos essencialmente sincrónicos, relevam do espírito gregário tão avesso à poesia. Só na expectativa do contacto com esta tensão «sem nada a marginá-la» é que a poesia faz sentido, caso contrário, ela seria mero jogo para comprazimento das nossas habilidades linguísticas.
Mas a solidão de que falo nada tem a ver com a reclusão, pelo contrário. Vergílio Ferreira distinguia solidão do isolamento. Para ele, uma e outra não eram a mesma coisa. «Porque o isolamento», diz ele, «implica um corte com os outros; [mas] a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.» O isolamento veda-nos o outro, a solidão, a substância em que os poemas medram, leva-nos ao encontro do irremediavelmente Outro, esse outro de nós que é a sombra à nossa frente para a qual caminhamos.
Quero terminar citando o conselho que Rilke dá ao jovem poeta – eu, afinal, sou um jovem poeta – e que me parece resumir aquilo que estou a tentar dizer. Diz ele: «temos de aceitar a nossa existência, por mais longe que ela chegue; tudo nela tem de ser possível, mesmo o inaudito. É no fundo esta a única forma de coragem que nos é exigida: que encaremos ousadamente o mais estranho, o mais fabuloso e o mais inexplicável.»


[1] Texto lido na 15ª edição das Correntes d’Escritas, Póvoa de Varzim, a 21 de Fevereiro de 2014, numa mesa redonda subordinada ao tema De correntes e cont[r]a-correntes se faz a poesia.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Anne Carson (I)

Ensaio sobre aquilo em que mais penso

Erro.
E as suas emoções.
À beira do erro está a condição do medo.
No meio do erro está um espírito de loucura e de derrota.
A descoberta do erro é acompanhada de vergonha e remorso.
Ou não?

Vejamos.
Muitas pessoas incluindo Aristóteles pensam que o erro
é um evento mental interessante e útil.
Na discussão sobre a metáfora na sua Retórica
Aristóteles afirma existirem três tipos de palavras.
Estranhas, vulgares e metafóricas.

“Palavras estranhas confundem-nos;
palavras vulgares exprimem o que já sabemos;
é através da metáfora que alcançamos alguma coisa nova e revigorante”
(Retórica, 1410b10-13.)
Em que consiste a novidade da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora torna a mente consciente de si mesma

no momento de cometer um erro.
Ele imagina a mente a mover-se através de uma superfície lisa
de linguagem vulgar
quando de repente
a superfície quebra-se e complica-se.
Surge o inesperado.

De início parece esquisito, contraditório ou errado.
Depois começa a fazer sentido.
E nessa altura, de acordo com Aristóteles,
a mente vira-se para si mesma e diz:
“Tão acertado, e ainda assim eu confundi-o!”
Dos verdadeiros equívocos da metáfora pode-se aprender uma lição.

Não apenas que as coisas são diferentes do que parecem,
e portanto as confundimos,
mas que tais equívocos são úteis.
Atentemos, diz Aristóteles,
há aqui muito que ver e que sentir.
A metáfora ensina a mente

a gozar o erro
e a aprender
a justaposição daquilo que é e daquilo que não é assim.
Há um provérbio chinês que diz,
O pincel não pode desenhar dois caracteres na mesma pincelada.
E ainda assim

isso é exactamente o que um bom erro faz.
Por exemplo.
Há um fragmento de um antigo poema grego
que tem um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2 + 2 = 4.

Fragmento 20 de Alcman:
    [?] fez três estações, verão
    e inverno e outono em terceiro
    e em quarto a primavera quando
    há floração mas para comer o suficiente
    não há.


Alcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Esparta era um país pobre
e é pouco provável
que Alcman tivesse vivido uma vida saudável e nutrida.
Este facto está na origem das suas observações
que vão desembocar na fome.

A fome dá sempre a sensação
de ser um erro.
Alcman faz-nos sentir esse erro
com ele
através do recurso a um efectivo erro de cálculo.
Para um miserável poeta espartano sem alimentos

na despensa
no final do inverno –
chega a primavera
como uma reconsideração da economia natural,
quarta na série de três,
desequilibrando a sua aritmética

e elevando o verso.
O poema de Alcman irrompe a meio caminho pela métrica jâmbica
sem explicar
de onde veio a primavera
ou porque é que os números não nos ajudam
a controlar melhor a realidade.

Há três coisas de que gosto no poema de Alcman.
Em primeiro lugar o facto de ser pequeno,
leve
e mais do que perfeitamente económico.
Em segundo lugar por sugerir cores como verde-claro
sem as nomear.

Em terceiro lugar porque traz para primeiro plano
algumas questões metafísicas importantes
(como Quem fez o mundo)
sem análise manifesta.
Reparem que o verbo “fez” no primeiro verso
não tem sujeito: [?]

É muito invulgar no grego
um verbo sem sujeito, na verdade
é um erro gramatical.
Os filólogos dir-nos-ão
que este erro é só um acidente de transmissão,
que o poema tal como o recebemos

é seguramente um fragmento retirado
de um texto maior
e que Alcman certamente
nomeou o agente de criação
no versos que precedem os que aqui temos.
Bem, pode ser.

Mas como sabem, o objectivo principal da filologia
é reduzir todo o encantamento textual
a um acidente histórico.
E eu não sou favorável a qualquer reivindicação de se conhecer
exactamente o que o poeta quis dizer.
Por isso deixemos o ponto de interrogação

no início do poema
e admiremos a coragem de Alcman
por confrontar-se com o que está entre parêntesis.
A quarta coisa de que gosto
no poema de Alcman
é a impressão que ele dá

de expressar a verdade sem ela disso se aperceber.
Muitos poetas aspiram
a este tom de lucidez inadvertida
mas em poucos ele é tão genuíno como em Alcman.
É óbvio que a sua simplicidade é falsa.
Alcman não é simples de todo,

ele é um mestre do enredo –
ou o que Aristóteles chamaria um “imitador”
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o termo de Aristóteles para os verdadeiros erros da poesia.
O que eu gosto neste termo

é a facilidade com que ele aceita
que o que nos fascina quando fazemos poesia é um erro,
a consciente invenção do erro,
o deliberado ímpeto e complexificação dos erros
dos quais pode sobrevir
o imprevisível.

Assim um poeta como Alcman
esquiva-se ao medo, à ansiedade, à vergonha e ao remorso
e a todas as outras emoções patetas associadas ao acto de cometer erros
de maneira a atingir
a verdade dos factos.
A verdade dos factos para os humanos é a imperfeição.

Alcman quebra as regras da aritmética
e ameaça a gramática
e joga com a forma gramatical do seu verso
de maneira a revelar-nos esse facto.
No final do poema o facto permanece
e Alcman não está menos esfomeado.

No entanto alguma coisa mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois enganando-as,
Alcman aperfeiçoou alguma coisa.
De facto ele fez mais
do que aperfeiçoá-la.
Dando apenas uma pincelada.

Anne Carson, Men in the Off Hours
Tradução: João Moita

Antonio Gamoneda (XII)


O leite entra nas profundidades côncavas, o leite urdido nos rosados úberes de grandes vacas silenciosas. São torpes as vacas silenciosas. Fazem, porém, doação muito branca
à paixão enferma
de viver.

Viver: avançar cegamente
para o grande sono branco.

Suportado por mãos inocentes, sempre
o leite desce do cântaro habitado por sombras
até à fraternidade do pão no seu leito de vimes
e na sua descida traz uma assistência que convém ao cansaço
do nosso corpo transitivo.

                                                Jan Vermeer
pôs nas mãos de uma antiga rapariga
estas suaves matérias que nos perdoam e
nos permitem repousar vertebrados, desconhecer, mentir,
envelhecer,
ignorar por algum tempo a afiada pureza
dos limites.



Antonio Gamoneda, Canción Errónea
Tradução: João Moita

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Vicente Huidobro (I)

Prefácio

Nasci aos trinta e três anos, no dia da morte de Cristo; nasci no Equinócio, debaixo das hortênsias e dos aviões do calor.
Tinha um profundo olhar de borracho, de túnel e de automóvel sentimental. Lançava suspiros de acrobata.
O meu pai era cego e as suas mãos eram mais admiráveis do que a noite.
Amo a noite, chapéu de todos os dias.
A noite, a noite do dia, do dia ao dia seguinte.
A minha mãe falava como a alvorada e como dirigíveis a despenharem-se. Tinha cabelos cor de bandeira e olhos cheios de navios distantes.
Uma tarde peguei no meu pára-quedas e disse: «Entre uma estrela e duas andorinhas». Eis a morte que se aproxima como a terra se aproxima do balão que cai.
A minha mãe bordava lágrimas desertas nos primeiros arco-íris.
E agora o meu pára-quedas cai de sonho em sonho pelos espaços da morte.
Ao primeiro dia encontrei um pássaro desconhecido que me disse: «Se eu fosse dromedário não teria sede. Que horas são?» Bebeu as gotas de orvalho do meu cabelo, lançou-me três olhares e meio e afastou-se dizendo: «Adeus», com o seu lenço soberbo.
Por volta das duas, naquele dia, encontrei um avião precioso, cheio de escamas e caracóis. Procurava um recanto do céu onde resguardar-se da chuva.
Ao longe, todos os barcos ancorados nas tintas da alvorada. De repente, começaram a desprender-se, um a um, arrastando-se como estandarte em farrapos de incontestável alvorada.
Com a retirada dos últimos, a alvorada desapareceu por trás de algumas ondas desmesuradamente infladas.
Então, ouvi falar o Criador, sem nome, que é um simples buraco no vazio, belo como um umbigo:
«Fiz um grande ruído e esse ruído formou o oceano e as ondas do oceano.
«Esse ruído estará sempre colado às ondas do mar e as ondas do mar estarão sempre coladas a ele, como os selos aos bilhetes-postais.
«Depois teci um longo barbante de raios luminosos para coser os dias um a um; os dias que têm um oriente legítimo ou reconstituído, porém indiscutível.
«Depois tracei a geografia da terra e as linhas da mão.
«Depois bebi um pouco de conhaque (por causa da hidrografia).
«Depois criei a boca e os lábios da boca, para aprisionar os sorrisos equívocos, os dentes da boca, para vigiar os disparates que nos vêm à boca.
«Criei a língua da boca que os homens desviaram do seu papel, fazendo-a aprender a falar…, a ela, ela, a bela nadadora, desviada para sempre do seu papel aquático e puramente acariciador.»
O meu pára-quedas começou a cair vertiginosamente. Tal é a força de atracção da morte e do sepulcro aberto.
Podeis crê-lo, o túmulo tem mais poder do que os olhos da amada. O túmulo aberto com todos os seus ímanes. E isto to digo a ti, a ti que quando sorris fazes pensar no princípio do mundo.
O meu pára-quedas enredou-se numa estrela apagada que seguia a sua órbita conscienciosamente, como se ignorasse a inutilidade dos seus esforços.
E aproveitando este repouso bem merecido, comecei a encher com profundos pensamentos as casas do meu tabuleiro:
«Os verdadeiros poemas são incêndios. A poesia propaga-se por todo o lado, iluminando as suas consumações com estremecimentos de prazer ou de agonia.
«Deve-se escrever numa língua que não seja materna.
«Os quatro pontos cardeais são três: o sul e o norte.
«Um poema é uma coisa que será.
«Um poema é uma coisa que nunca foi, que nunca poderá ser.
«Foge do sublime externo se não queres morrer esmagado pelo vento.
«Se eu não fizesse pelo menos uma loucura por ano, daria em doido.»
Pego no meu pára-quedas, e da ponta da minha estrela em marcha lanço-me à atmosfera do último suspiro.
Rolo interminavelmente sobre as rochas dos sonhos, rolo entre as nuvens da morte.
Encontro a Virgem sentada numa rosa, e diz-me:
«Observa as minhas mãos: são transparentes como as lâmpadas eléctricas. Vês os filamentos de onde escorre o sangue da minha luz intacta?
«Observa a minha auréola. Tem algumas lascas, o que prova a minha ancianidade.
«Sou a Virgem, a Virgem sem mancha de tinta humana, a única que não o é pela metade, e sou a capitã das outras onze mil que estavam na verdade demasiado restauradas.
«Falo uma língua que enche os corações segundo a lei das nuvens comunicantes.
«Digo sempre adeus, e fico.
«Ama-me, meu filho, pois adoro a tua poesia e ensinar-te-ei proezas aéreas.
«Tenho tanta necessidade de ternura, beija-me os cabelos, lavei-os esta manhã nas nuvens da alba e agora quero dormir sobre o colchão da neblina intermitente.
«As minhas lágrimas são um arame no horizonte para o descanso das andorinhas.
«Ama-me.»
Pus-me de joelhos no espaço circular e a Virgem ergueu-se e veio sentar-se no meu pára-quedas.
Adormeci e recitei então os meus poemas mais belos.
As chamas da minha poesia secaram os cabelos da Virgem, que me agradeceu e se afastou, sentada sobre a sua rosa tenra.
E eis-me aqui, só, como o pequeno órfão dos naufrágios anónimos.
Ah, que bonito…, que bonito.
Vejo as montanhas, os rios, as selvas, o mar, os barcos, as flores e os caracóis.
Vejo a noite e o dia e o eixo em que se juntam.
Ah, ah, sou Altazor, o grande poeta, sem cavalo que coma alpista, nem que aqueça a sua garganta com o brilho da lua, mas com o meu pequeno pára-quedas como um guarda-sol sobre os planetas.
De cada gota de suor da minha testa fiz nascer astros, os quais vos deixo para que os baptizem como a garrafas de vinho.
Estou a perceber tudo, tenho o meu cérebro forjado em línguas de profeta.
A montanha é o suspiro de Deus, subindo em termómetro inflado até tocar os pés da amada.
Aquele que tudo viu, que conhece todos os segredos sem ser Walt Whitman, pois jamais teve uma barba branca como as belas enfermeiras e os riachos gelados.
Aquele que ouve durante a noite os martelos dos moedeiros falsos, que são unicamente astrónomos activos.
Aquele que bebe o copo quente da sabedoria depois do dilúvio obedecendo às pombas e que conhece a rota da fadiga, o sulco fervente que deixam os barcos.
Aquele que conhece os armazéns de recordações e de belas estações esquecidas.
O pastor, o pastor de aviões, o condutor das noites extraviadas e dos poentes amestrados até aos pólos únicos.
A sua queixa é semelhante a uma rede pestanejante de aerólitos sem testemunha.
O dia levanta-se no seu coração e ele desce as pálpebras para fazer a noite do repouso agrícola.
Lava as suas mãos no olhar de Deus, e penteia os seus cabelos como a luz e a colheita dessas frágeis espigas da chuva satisfeita.
Os gritos afastam-se como um rebanho sobre as colinas quando as estrelas dormem depois de uma noite de trabalho contínuo.
O belo caçador diante do bebedouro celeste para os pássaros sem coração.
Sê triste tal qual as gazelas ante o infinito e os meteoros, tal qual os desertos sem miragens.
Até à chegada de uma boca inflada de beijos para a vindima do deserto.
Sê triste, pois ela te espera num recanto deste ano que passa.
Está, talvez, no extremo da tua canção próxima e será bela como cascata em liberdade e rica como a linha equatorial.
Sê triste, mais triste do que a rosa, a bela jaula dos nossos olhares e das abelhas sem experiência.
A vida é uma viagem em pára-quedas e não o que queres crer.
Vamos a cair, a cair do nosso zénite ao nosso nadir, e deixamos o ar machado de sangue para que se envenenem os que vierem amanhã respirá-lo.
Para dentro de ti mesmo, para fora de ti mesmo, cairás do zénite ao nadir porque esse é o teu destino, o teu miserável destino. E de quanto mais alto caíres, mais alto será o ressalto, mais longa a tua duração na memória da pedra.
Saltámos do ventre da nossa mãe ou da ponta de uma estrela e vamos a cair.
Ah meu pára-quedas, a única rosa perfumada da atmosfera, a rosa da morte, despenhada entre os astros da morte.
Ouviste? Esse é o ruído sinistro dos peitos fechados.
Abre a porta da tua alma e sai para respirar do lado de fora. Podes abrir com um suspiro a porta que o furacão tiver fechado.
Homem, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como a vertigem.
Poeta, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como o íman do abismo.
Mago, aqui está o teu pára-quedas que uma palavra tua pode converter num pára-subidas maravilhoso como o relâmpago que quis cegar o criador.
De que estás à espera?
Mas eis o segredo do Tenebroso que se esqueceu de sorrir.
E o pára-quedas aguarda amarrado à porta como o cavalo da fuga interminável.

Vicente Huidobro, Altazor
Tradução: João Moita

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Antonio Gamoneda (XI)

Reconheço-te ainda que te escondas sob a pele do ébano.
Finges amor até criares um verdadeiro amor
e estás a amar em mim. Reconheço-te.

Gemes como um cão ferido. Lembras-te
de quando te deitavas sobre o meu coração? Agora,
insone na morte, vieste
para comprar os meus olhos. Assim
é a tua causa, a tua astúcia curdistã.

Procuras os teus documentos incestuosos, as tuas profecias na virtude da epilepsia
e aquela sabedoria que permite
ser feliz no fogo.

Cunhavas moedas unicamente válidas
nos mercados de frutos e de trevas,
mas não adquiririas outros frutos a não ser os que ardem no corpo das tuas irmãs
e também e tão somente trevas maternais.

Ah os frutos e as trevas nas tuas mãos,
mercantilmente triste ou acidentalmente vivo
em Nova York ou Nasría.

                                    És belo e horrível.
Tu induzes-me ao adultério com corpos esfolados
e à fornicação sobre a púrpura.

Não posso abandonar-te, no entanto, à tua própria inclemência:
estás a sonhar os meus sonhos
e amas em mim o que não é teu.

Bebeste em mananciais cegos e ergueste-te
na demência. Em rigor, não preciso de ti: há extravio suficiente em mim.

Mas tu és o meu sacramento negro, a última
substância das minhas veias.


Antonio Gamoneda, Canción Errónea
Tradução: João Moita

domingo, 10 de novembro de 2013

César Vallejo (I)

XIII

Pienso en tu sexo.
Simplificado el corazón, pienso en tu sexo,
ante el hijar maduro del día.
Palpo el botón de dicha, está en sazón.
Y muere un sentimiento antiguo
degenerado en seso.

Pienso en tu sexo, surco más prolífico
y armonioso que el vientre de la sombra,
aunque la muerte concibe y pare
de Dios mismo.
Oh Conciencia,
pienso, si, en el bruto libre
que goza donde quiere, donde puede.

Oh escándalo de miel de los crepúsculos.
Oh estruendo mudo.

¡Odumodneurtse!


XIII

Penso no teu sexo.
Simplificado o coração, penso no teu sexo,
ante a madura virilha do dia.
Apalpo o rebento da dita, está no ponto.
E morre um sentimento antigo
de degenerado siso.

Penso no teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso que o ventre da sombra,
ainda que a morte conceba e germine
do próprio Deus.
Oh consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza onde quer, onde pode.

Oh escândalo de mel dos crepúsculos.
Oh estrondo mudo.

Odumodnortse!


César Vallejo, Trilce, 1922.
Tradução: João Moita

domingo, 3 de novembro de 2013

Guillaume de Machaut [séc. XIV]

[...]

Après ce, vint une merdaille
Fausse, traïtre et renoïe:
Ce fu Judée la honnie,
La mauvaise, la desloyal,
Qui bien het et aimme tout mal.
Qui tant donna d’or et d’argent

Et promist a crestienne gent,
Que puis, rivieres et fonteinnes
Qui estoient cleres et seinnes
En pluseurs lieus empoisonnerent,
Dont pluseurs leurs vies finerent;
Car trestuit cil qui en usoient
Assez soudeinnement moroient.
Dont, certes, par dis fois cent mille
En morurent, qu’a champ, qu’a ville,
Einsois que fust aperceüe
Ceste mortel descouvenue.

Mais cils qui haut siet et loing voit,
Qui tout gouverne et tout pourvoit,
Ceste traïson plus celer
Ne volt, eins la fist reveler
Et si generaument savoir
Qu’il perdirent corps et avoir.
Car tuit Juïf furent destruit,
Li uns pendus, li autres cuit,
L’autre noié, l’autre ot copée
La teste de hache ou d’espée.
Et meint crestien ensement
En morurent honteusement.

 

*

[...]

Posto o que, veio uma escumalha
Falsa, traidora e infame:
A Judiaria maldita,
A perversa, a desleal,
Que muito odeia e que ama o mal,
Que tanta prata e ouro deu
E promessas fez aos cristãos,
Para depois rios e fontes
Que límpidos corriam e sãos
Em vários lugares envenenarem,
Para muitos suas vidas perderem;
Que logo que alguém os buscava
Logo a morte súbita os tomava.
Pois que dez vezes cem mil vidas
Neles pereceram, no campo e na vila.
E assim foi sofrido
Este funesto infortúnio.

Mas o de alto assento e larga vista,
Que tudo governa e a tudo providencia,
A essa traição ocultar mais
Não quer, pois a fez revelar
E tão comummente saber
Que eles perderam corpo e fortuna.
Pois todo o Judeu foi destruído,
Enforcados uns, queimados outros,
A este afogaram, àquele deceparam
A cabeça com o machado ou com a espada.
E desta forma morreram também
Muitos cristãos dignos de desdém.

Guillaume de Machaut, Jugement du Roy de Navarre, 1349.
Tradução: João Moita

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Claudio Rodríguez (V)

Siempre será mi amigo

Siempre será mi amigo será mi amigo no aquel que en primavera
sale al campo y se olvida entre el azul festejo
de los hombres que ama, y no ve el cuero viejo
tras el nuevo pelaje, sino tú, verdadera

amistad, peatón celeste, tú, que en el invierno
a las claras del alba dejas tu casa y te echas
a andar, y en nuestro frío hallas abrigo eterno
y en nuestra honda sequía la voz de las cosechas

*

Sempre será meu amigo


Sempre será meu amigo não aquele que na primavera
sai para o campo e se distrai por entre o azul festivo
dos homens que ama, e não vê a couraça velha
por baixo do novo pelame, mas tu, verdadeira

amizade, peão celeste, tu, que no inverno
sob a claridade da alba deixas a tua casa e te pões
a andar, e no nosso frio descobres abrigo eterno
e na nossa seca profunda a voz das colheitas.


Claudio Rodríguez, Conjuros
- trad. minha

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Gamoneda (X)

A tua solidão é ávida. A tua palidez brota de ti e divide-se em longas medulas. À tua volta não vês mais do que a ti mesmo.

Como o animal que mastigou a sua placenta e como as galinhas que o rodeiam com olhos giratórios, de ambas as formas estás sujo em ti e ao teu redor.

Porque cospes dentro da tua alma? Mentes no depoimento. Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Se o teu coração pesasse nas suas insígnias, se a tua riqueza fosse o teu cansaço, aceitarias respirar, descansarias de ti mesmo.

Eu, nos manjares que antecedem a morte, encontro a minha lucidez. Não são mais lascivos que as tuas lágrimas.

Sinto a minha qualidade nua no seu interior. É líquida e hei-de fechar os olhos.

A aversão vagueia como um cão amarelo mas a minha nudez trabalha na piedade

e sobrevém como leite fervido.

Tu expandes fluxo de outra forma: cheiras a tua enfermidade noutros corpos. Ninguém virá com uma luz sobre as tuas chagas.

As tuas unhas são azuis sobre a mesma madeira que outros – os mais cansados – pulem cada crepúsculo, quando se lavam mortos nos pátios e se recebe a serenidade.

A minha nudez é líquida até reflectir os rostos dos suicidas e os mendigos dormem longos sonos com os seus ouvidos postos no meu ventre e porventura escutam a ira das suas mães mas dormem.

Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Antonio Gamoneda, Descripción de la mentira
- trad. minha

sábado, 12 de outubro de 2013

Traições (Georg Trakl, Antonio Gamoneda, João Moita)

GESANG DES ABGESCHIEDENEN

An Karl Borromäus Heinrich

Voll Harmonien ist der Flug der Vögel. Es haben die grünen Wälder
Am Abend sich zu stilleren Hütten versammelt;
Die kristallenen Weiden des Rehs.
Dunkles besänftigt des Plätschern des Bachs, die feuchten Schatten

Und die Blumen des Sommers, die schön in Winde läuten.
Schon dämmert die Stirne dem sinnenden Menschen.  

Und es leuchtet ein Lämpchen, das Gute, in seinem Herzen
Und der Frieden des Mahls; denn geheiligt ist Brot und Wein
Von Gottes Händen, und es schaut aus nächtigen Augen
Stille dich der Bruder an, daß er ruhe von dorniger Wanderschaft.
O das Wohnen in der beseelten Bläue der Nacht.

Liebend auch umfängt das Schweigen im Zimmer die Schatten der Alten,
Die purpurnen Martern, Klage eines großen Geschlechts,
Das fromm nun hingeht im einsamen Enkel.

Denn strahlender immer erwacht aus schwarzen Minuten des Wahnsinns
Der Duldende an versteinerter Schwelle
Und es umfängt ihn gewaltig die kühle Bläue und die leuchtende Neige des Herbstes,

Das stille Haus und die Sagen des Waldes,
Maß und Gesetz und die mondenen Pfade der Abgeschiedenen.



Georg Trakl

*

Canción del solitario

Cargado de armonía está el vuelo de los pájaros. En las praderas cristalinas de los ciervos, los verdes bosques se reúnen al atardecer en torno a cabañas silenciosas.

La oscuridad hace más tenue el murmullo de las aguas. Vienen húmedas sombras

y, melodiosas en el viento, vienen también las flores del verano.

Ya anochece en la frente de hombre pensativo y una llama de bondad arde en su corazón.

Es la paz de la cena: el pan y el vino están benditos por las manos de Dios

y, en silencio, con sus ojos nocturnos, tu hermano te mira y descansa de los caminos espinosos.

Ah vivir en el azul y en el espíritu de la noche.

En las habitaciones, el silencio rodea con amor las sombras de los antepasados,

los martirios purpúreos, el lamento de una estirpe

que, piadosa, se extingue en el descendiente solitario.

En el umbral de piedra el enfermo despierta de los negros instantes de la locura

y le rodean la frescura azul, el luminoso final del otoño,

el sosiego de la casa y las leyendas del bosque.

Ésta es la medida y la costumbre, así son los caminos lunares

de quienes se retiran a las cercanías de la muerte.



Antonio Gamoneda

*

Canção do solitário

Oculto na harmonia é o voo das aves. Ao crepúsculo, em cristalinos prados violados pela corça, sobem glaucos bosques às cabanas silenciosas.

Débil na escuridão é o rumor das águas. E as sombras húmidas

e as flores do verão são tangidas pelo vento.

Esplende na noite a cabeça do homem pensativo e a chama ténue do decoro arde no seu coração.

Serenidade da ceia; porque o pão e o vinho estão sobre a mesa às mãos de Deus

e o teu irmão contempla-te do silêncio nocturno dos seus olhos, descansando das aflições do caminho.

Oh, era uma morada celeste na medula da noite.

Nos quartos, engolidos pelo silêncio em haustos de ternura, a sombra dos antepassados, os martírios fulvos,

o lamento piedoso de uma estirpe que se extingue com o seu último descendente.

Das negras horas da loucura, em umbrais de pedra, desperta mais radioso aquele que sofre,
e é cercado com força pelo azul do orvalho, pelo resplandecente declinar do outono,

pelo sossego da casa e pelas lendas do bosque.

Eis a medida e o preceito, assim se ocultam os caminhos

daqueles que se afastam na desmesurada paixão da morte.


João Moita
- traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl

domingo, 8 de setembro de 2013

Charles Francois Daubigny, Les Sablières près de Valmondois, 1872.

Primavera: indomável florescência dentro dos frágeis canais da sede, violência interior da seiva, explosão latente da flora sob a acção centrífuga do sol, carnificina autofágica da terra. Corolas banhadas a ouro e sangue sob a embriaguez dos insectos de lenta combustão, corolas pudicas com as quais a terra se deita abraçando raízes lúbricas, corolas que enegrecem as mãos. Cisternas da noite onde apodrece o orvalho denso da corrupção.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Entra o rio pela janela, e a noite húmida de horizontes enche a casa de aluimentos. Entra o rumor do mundo e o halo tenso dos astros. Tenho a casa suspensa do apagamento, os pés indecisos no umbral. Espero até que a exaustão ganhe raiz.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Uma nuvem tardia pende sobre as nossas cabeças. No cimo da encosta, retraem-se as árvores completamente vestidas: vergarão hoje nos seus fatos de gala, haverá lama entre as folhas, e ramos entupidos de seiva flutuarão no rio. Também eu celebrarei hoje o centro da tempestade com as minhas mãos imprevistas pressionando o vento.