segunda-feira, 13 de maio de 2013

Death Cycle (parts I, II & III)

Death Cycle (parts I, II & III) - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
 

Lived once
Allow me to finally be alone
Failed once

Drag me to the river’s steam
Pull me into the hiss
Face upon a reckless mirror

And I’m gone
Gone

Whisper silence
Living ended up being bitter
The taste of wholeness
Face upon this
And calm I’m getting home

Under the bridge
Where travelers meet
You and I shared a glimpse of nothing
The content of our passions
And you just turned away                                   

And now you make a smile
And ask for me to throw
Away the sordid hope
And you said that love won’t do for me
Cause love
Is the ability of God                                                                                  
Living is better but death solves all

Resurrection / Your tongue on me
Attraction / Cradle of thirst
Heat / Come back to me
All right

I’m coming back to life
I come for bliss
I come for what you left
And I’m not poor

You reach what is out of hand
I reach your heart
Follow my lead now
My life is full of regrets

quinta-feira, 9 de maio de 2013

«Oração Fria», Antonio Gamoneda


«A primeira antologia publicada em Portugal de um dos grandes poetas espanhóis da atualidade.
Esta antologia, preparada e traduzida por João Moita e acompanhada por Antonio Gamoneda, segue a ordenação e a fixação dos textos de «Esta Luz – Poesía Reunida (1947-2004)», livro publicado em Espanha em 2004 pela Galaxia Gutenberg, com organização do próprio poeta. Foram ainda incluídos cinco poemas do seu último livro, «Canción Errónea», publicado em 2012 pela editora Tusquets.
Anos após a publicação de «Livro do Frio» na Assírio & Alvim, esta antologia apresenta ao leitor português uma visão panorâmica da obra de um dos maiores poetas espanhóis da atualidade.»

Amor

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes também pesa no meu coração.

Antonio Gamoneda, Blues Castelhano

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Claudio Rodríguez (III)

Noche abierta

Bienvenida la noche para quien va seguro
y con los ojos claros mira sereno el campo,
y con la vida limpia mira con paz el cielo,
su ciudad y su casa, su familia y su obra.

Pero a quien anda a tientas y ve sombra, ve el duro
ceño del cielo y vive la condena de su tierra
y la malevolencia de sus seres queridos,
enemiga es la noche y su piedad acoso.

Y aún más en este páramo de la alta Rioja
donde se abre con tanta claridad que deslumbra,
palpita tan cerca que sobrecoge, y muy
en el alma se entra, y la remueve a fondo.

Porque la noche siempre, como el fuego, revela,
refina, pule el tiempo, la oración y el sollozo,
da tersura al pecado, limpidez al recuerdo,
castigando y salvando toda una vida entera.

Bienvenida la noche con su peligro hermoso.


§

Noite aberta

Bem-vinda a noite para quem vai confiante
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa contempla em paz o céu,

a sua cidade e a sua casa, a sua família e a sua obra.

Mas para quem anda às apalpadelas e vê sombra, vê o duro
cenho do céu e vive a condenação da sua terra
e a maldade dos seus entes queridos,
inimiga é a noite, e a sua piedade, assédio.

E mais ainda este páramo da alta Rioja
onde se abre com tanta claridade que deslumbra,
palpita tão próxima que impressiona, e muito
na alma se adentra, e a revolve a fundo.

Porque a noite, como o fogo, sempre revela,
refina, pule o tempo, a oração e o soluço,
dá lisura ao pecado, limpidez à recordação,
castigando e salvando uma vida inteira.

Bem-vinda a noite com o seu belo perigo.


Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha

domingo, 31 de março de 2013

Claudio Rodríguez (II)

Ajeno

Largo se le hace el día a quien no ama
y él lo sabe. Y él oye ese tañido
corto y duro del cuerpo, su cascada
canción, siempre sonando a lejanía.
Cierra su puerta y queda bien cerrada;
sale y, por un momento, sus rodillas
se le van hacia el suelo. Pero el alba,
con peligrosa generosidad,
le refresca y le yergue. Está muy clara
su calle, y la pasea con pie oscuro,
y cojea en seguida porque anda
sólo con su fatiga. Y dice aire:
palabras muertas con su boca viva.
Prisionero por no querer, abraza
su propia soledad. Y está seguro,
más seguro que nadie porque nada
poseerá; y él bien sabe que nunca
vivirá aquí, en la tierra. A quien no ama,
¿cómo podemos conocer o cómo
perdonar? Día largo y aún más larga
la noche. Mentirá al sacar la llave.
Entrará. Y nunca habitará su casa.


§

Alheado

Longo se faz o dia a quem não ama
e o sabe. E ele escuta o tanger
curto e duro do corpo, a sua decrépita
canção, soando sempre a distância.
Fecha a porta e deixa-a bem fechada;
sai e, por um momento, cai de joelhos
ao chão. Mas a madrugada,
com perigosa generosidade,
o refresca e o ergue. Está muito clara
a sua rua, e palmilha-a com pé escuro,
e coxeia em seguida porque anda
apenas com a sua fadiga. E diz ar:
palavras mortas com a sua boca viva.
Prisioneiro por não querer, abraça
a sua própria solidão. E está seguro,
mais seguro do que ninguém porque nada
possuirá; e ele bem sabe que nunca
viverá aqui, na terra. A quem não ama,
como o podemos conhecer ou como
perdoá-lo? Dia longo e ainda mais longa
a noite. Mentirá ao tirar a chave.
Entrará. E nunca habitará a sua própria casa.


Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha

domingo, 23 de dezembro de 2012

Gustave Achille Guillaumet, Dans le désert, 1867.


Quando cheguei ao deserto, vi que tinha regressado.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Charles-François Daubigny, La neige, 1873

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pormenor da Catedral Notre Dame de Paris

Para me salvar,

esperei até petrificar o coração.
Sacré-Coeur

À saída, o mendigo
pedia com a mão de Deus.

domingo, 21 de outubro de 2012

Antonio Gamoneda, nova série, II

Había
vértigo y luz en las arterias del relámpago,
fuego, semillas y una germinación desesperada.

Yo desgarraba la imposibilidad,
oía silbar a la máquina del llanto y me perdía en la espesura vaginal. También
entraba en urnas policiales. Así
olvidaba los ojos de mi madre.
                                        Vivía
Parece ser.
                Vivía.

Ahora mismo atiendo distraído a mi estertor. No hay en mí memoria ni olvido; única y simplemente lucidez.

Han desaparecido los significados y nada estorba ya a la indiferencia.

                                                                                                                           Definitivamente, me he sentado

a esperar a la muerte
como quien espera noticias ya sabidas.

*

Havia
vertigem e luz nas artérias do relâmpago,
fogo, sementes e uma germinação desesperada.

Eu rasgava a impossibilidade,
ouvia assobiar a máquina do pranto e perdia-me na espessura vaginal. Entrava
também nas urnas policiais. Esquecia
assim os olhos da minha mãe.
                                       Vivia.
Acho que sim.
                  Vivia.

Agora mesmo observo distraído o meu estertor. Não há em mim memória nem esquecimento: unica e simplesmente lucidez.

Desapareceram os significados e nada estorva já a indiferença.

                                                                                                                      Definitivamente, sentei-me
à espera da morte
como quem espera notícias já sabidas.


Antonio Gamoneda,
poema de Canción Errónea, 2012.
 - trad. minha

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Antonio Gamoneda, nova série, I

Huyes de ti para alcanzar verdades que no existieron nunca.

Hablas de un ave que atravesó tus sueños. Te engañas: tú, aun no siendo, eres su única realidad.

“La rosa es bella, ¿y para qué?”
                                         Así son las preguntas prendidas de tus labios; las grandes, las inútiles preguntas.

“Ignorar para ver”, dices también.
                                             Pero ¿qué ver? Tan sólo lograrás que la luz arda en tus ojos. Compréndelo:
no existe más que una palabra verdadera:                                                        

                                                         no.

*

Foges de ti para alcançar verdades que nunca existiram.

Falas de uma ave que atravessou os teus sonhos. Enganas-te: tu, ainda que não sendo, és a sua única realidade.

“A rosa é bela, e para quê?”
                                     Assim são as perguntas suspensas dos teus lábios; as grandes, as inúteis perguntas.

“Ignorar para ver”, dizes também.
                                              Mas, ver o quê? Conseguirás apenas que a luz arda nos teus olhos. 

        Compreende:
Só existe uma palavra verdadeira:                                              

                                              não.


Antonio Gamoneda,
de Canción Errónea, 2012.
 - trad. minha

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Crítica na Rock n'Heavy ao EP de estreia dos Daughters of Lot

Foi escrita por Rui Carneiro e pode ser lida aqui:

"The Daughters Of Lot, banda que junta cinco músicos de Alpiarça, e que conta já com três anos nestas lides, apresenta, depois de um interregno devido à saída do baixista, o EP de estreia: “Sulfur Rain Pours Onto Our Souls”.

De um cardápio que, possivelmente, não para de crescer, os músicos selecionaram três temas para este EP. As honras de abertura cabem a “The Suffering”, composição que, partindo de uma toada de melopeia saturniana, rapidamente evolui para uma sistematização cada vez mais presente e insinuante da paleta instrumental burilada por Miguel Fernandes, o “artifex” da banda. Não há barreiras na tessitura musical dos TDOL, até porque aquilo que flui do jogo de sedução entre voz e instrumentos é o desejo libidinoso pela desconstrução e eterna reformulação das linhas rítmicas e melódicas que radicam, evoluem e fenecem ao longo das pulsões e circunvalações de uma catarse feita de silêncios, interlúdios e irrupções, fulcro e ocaso de uma imagética em que “o prazer é uma deformação da dor”

A próxima, “The Edge Of a Lie”, confirma desígnios musicais que a banda classifica como “progressivos”, uma vez que é notória a preocupação em complexificar cada um destes “episódios”, construindo algo que se assemelha a uma filigrana musical, tal é o rigor no processo criativo, lapidando cada instante com a minúcia que o ourives dedica a uma jóia requintada.

“Sanctuary” encerra este tríptico musical, descarregando um manifesto de rock corrosivo. Miguel Fernandes puxa o som da bateria para a frente, violentando peles e tímpanos. As guitarras, que anteriormente deambulavam por paisagens etéreas e atmosféricas, ganham agora contornos ásperos e virulentos, semeando ondas de distorção em arrojos fulgurantes, voluptuosos e tonitruantes.

Assim sendo, a música dos TDOL parece comungar da conotação genesíaca que preside ao episódio bíblico que dá nome à banda. Profundamente humana, e por isso fatalmente marcada pelo desejo de transgressão, de consumação exacerbada da nossa volúpia ôntica: “As filhas de Lot fundam o seu território no enclave do desejo com o estímulo. O ébrio é para elas apurador de pulsões: transmissão e transfusão. As filhas de Lot privilegiam a obscuridade e mergulham o seu afecto nas próprias transgressões. Elas preparam a iridescência do que devém, são da ordem do fantasmático.” Na fração nebulosa, abismal e nefelibata, entre a perceção e a sensação, no limbo etéreo entre o sensível e o onírico evolui esta fantasmagoria musical: “Depois do incesto, enquanto o seu pai dorme, as filhas de Lot, nuas, sentam-se junto ao fogo e olham-se. A troca de olhares resulta em música.” Processo transfigurativo, o corpo do outro, maculado pela corrupção do desejo carnal, resolve-se sinestesicamente através da visão oblíqua do “eu” no “outro”, processo demiúrgico e dionisíaco que cria a arte.

Recordamos, a propósito, e para finalizar, as palavras do poema de Fernando Pessoa:

«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é»"

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

The Daughters of Lot - Sulfur Rain Pours Onto Our Souls (EP)


Na palma das suas mãos
os sulcos da vida são fundos como uma vingança:
definitivas são as suas carícias.



1. The Suffering
2. The edge of a lie
3. Sanctuary

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alejandra Pizarnik (I)

16

construíste a tua casa
emplumaste os teus pássaros
golpeaste o vento

terminaste sozinha
o que ninguém começou
 
Alejandra Pizarnik
- trad. minha

sábado, 4 de agosto de 2012

Wistawa Szymborska (II)

A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás por curiosidade.
Mas podem ter sido outras as razões.
Olhei para trás lamentando a perda do meu vaso de prata.
Descuidada, enquanto atava as sandálias.
Para que parasse de contemplar a nuca virtuosa
do meu marido, o pescoço de Lot.
Por causa da súbita convicção de que se eu caísse morta
ele nem sequer vacilaria.
Por causa da desobediência dos humildes.
Para certificar que não estávamos a ser seguidos.
Abalada pelo silêncio, acreditando que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas já tinham desaparecido atrás da colina.
Senti a idade dentro de mim. Distância.
A futilidade da peregrinação. Torpor.
Olhei para trás pousando o alforje.
Olhei para trás por não saber onde pôr os pés.
Serpentes apareceram no caminho,
aranhas, ratos do campo, abutres.
Não eram nem bons nem maus – cada ser vivo
arrastava-se simplesmente ou esperava com a mole em pânico.
Olhei para trás em desolação.
Com a vergonha de termos roubado.
Querendo chorar, ir para casa.
Ou apenas porque uma rajada de vento
despenteou-me o cabelo e levantou-me vestido.
Parecia que nos estavam a observar dos muros de Sodoma
rebentando em estrondosas gargalhadas uma e outra vez.
Olhei para trás em fúria.
Para saborear o seu terrível destino.
Olhei para trás por todas estas razões.
Olhei para trás involuntariamente.
Apenas porque uma pedra resvalou-me debaixo dos pés, rosnando para mim.
Por causa de uma súbita quebra no trilho.
Um roedor cambaleou nas suas patas dianteiras sobre o precipício.
Foi então que ambos olhámos para trás.
Não, não. Eu corri,
eu rastejei, eu levitei
até que a escuridão caiu dos céus
e com ela granizo abrasador e pássaros mortos.
Não conseguia respirar e girava e girava.
Quem quer que me visse pensaria que estava a dançar.
Não é inconcebível que os meus olhos estivessem abertos.
É possível que tenha caído encarando a cidade.




Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh

Wistawa Szymborska (I)

Nota de agradecimento

Devo tanto
àqueles que não amo.

O alívio com que reconheço
que eles são mais importantes para outros.

A felicidade de não ser
o lobo para as suas ovelhas.

A paz que sinto ao pé deles,
a liberdade –
isso o amor não mo pode dar
nem tirar.

Não fico à espera deles,
angustiada à janela.
Quase tão paciente
quanto um relógio de sol.
Compreendo
o que o amor não compreende,
e perdoo
o que o amor nunca perdoaria.

De um encontro até à chegada de uma carta
são só alguns dias ou semanas,
não uma eternidade.

As viagens com eles são sempre tranquilas,
concertos são ouvidos,
catedrais visitadas,
paisagens contempladas.

E quando sete colinas e sete rios
nos separam,
essas colinas e esses rios
podem ser encontrados em qualquer mapa.

Fico-lhes reconhecida
por viver a três dimensões,
num espaço sem lirismo e sem teorias
com um horizonte genuíno e inconstante.

Eles próprios não se apercebem
de quanto guardam nas suas mãos vazias.

“Não lhes devo nada”,
seria a resposta do amor
a esta pergunta aberta.


Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh