segunda-feira, 4 de abril de 2011

Declaração de amor a Emily Dickinson


A reclusão – talhe dilecto da imortalidade. Entre o jardim discreto e o quarto exíguo, uma passadeira branca. Uma vida é um caminho ínvio. Passe a expressão. E passe também o amor, embora nunca chegue a entrar.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Emily Dickinson (versão) (II)

After great pain, a formal feeling comes –
The Nerves sit ceremonious, like Tombs –
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And yesterday, or Centuries before?

The Feet, mechanical, go round –
Of Ground, or Air, or Ought –
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone –

This is the Hour of Lead –
Remembered, if outlived,
As Freezing persons, recollect the Snow –
First – Chill – then Stupor – then the letting go –


*

À grande dor sucede a lassidão –
Os Nervos assentam cerimoniosos, como Jazigos –
O rígido Coração pergunta: Suportei?,
E foi Ontem, ou há Séculos?

Os Pés, maquinais, giram em torno –
Do Chão, do Ar, ou do Nada –
Um caminho de Madeira
Posto ao acaso,
Uma satisfação de Quartzo, uma pedra –

Esta é a Hora de Chumbo –
Para a recordar, sobreviver-lhe,
Como Quem ao resfriar evoca a Neve –
Primeiro – o Frio – a seguir o Torpor – a Renúncia depois.


Emily Dickinson
- trad. minha

terça-feira, 29 de março de 2011

Emily Dickinson (versão)

A Death blow is a Life blow to Some
Who till they died, did not alive become -
Who had they lived, had died but when
They died, Vitality begun.

*

Um sopro de Morte é um sopro de Vida para Aqueles
Que até morrerem não haviam nascido -
Aqueles que, tendo vivido, morreram, mas que
Ao morrerem desposaram a Vitalidade.


Emily Dickinson
- trad. minha

sábado, 19 de março de 2011

Resumo - A poesia em 2010, com poema de Miasmas

Na edição deste ano vem um poema de Miasmas, escolhido por José Tolentino Mendonça.

XXXI

Em nome de nada.
Do êxtase recolho a nova moral.
De tudo fujo.
Forjo os pólos da minha dissensão.
Em nome de nada.
Escrevo para a gaguez de Deus.
Oculto-me, desvelo-me:
sou uma assombração.
Estes são os liames da agressividade.
Neles me penduro para a inflexão do canto.
Fujo.
Deus não receberia o meu amor em holocausto.
Vivo para as vésperas
e juro:
Deus não saberia alentar o meu esquecimento.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O conceito de Poesia enquanto linguagem em estado de nascimento em Tatuagem & Palimpsesto (Assírio & Alvim, 2010), de Manuel Gusmão

Uma questão que perpassa o livro de Manuel Gusmão que colige os ensaios que o poeta escreveu ao longo de várias décadas de investigação sobre o fenómeno poético, e que este ano foi dado à estampa sob o título Palimpsesto & Tatuagem, é a da posição da poesia no quadro alargado das potencialidades da linguagem humana. O autor recusa veementemente a ideia de que a poesia efectuaria um desvio às formulações da linguagem convencional, apresentando uma língua segunda dentro da língua primeira, em cujo reduto se alicerçaria a essência da poesia. Esta ideia tem a sua génese nas investigações linguísticas levadas a cabo pelos formalistas russos no início do séc. XX, com particular incidência no conceito de Jakobson da função poética da linguagem, que se oporia às funções referencial, emotiva, conativa, fática e metalinguística. No âmbito do acto comunicativo, a função poética da linguagem ocorreria quando a tónica do discurso incidisse na mensagem, isto é, na capacidade dos vocábulos de gerarem referentes que deles dependessem imediatamente e para eles remetessem, por oposição à enunciação com a tónica em cada um dos pólos emissores e receptores do discurso. A linguagem poética seria aquela que se eximisse à quotidianidade dos actos de discurso que se firmam e são suporte de acções para os quais são convocados mas que lhes são extrínsecos, estando por isso ao dispor dos mecanismos de alienação social cristalizados em formas de recorrência discursiva.
No seu conjunto, os ensaios de Manuel Gusmão rejeitam esta ideia de essencialidade da linguagem poética, apresentando em alternativa o conceito de «Poesia enquanto linguagem em estado de nascimento». Não é porque a linguagem poética funda uma zona contígua à da linguagem comum que ela se pode libertar de toda a carga ideológica ou significativa, afirmação difícil de compreender, uma vez que um desvio implica uma mudança de sentido mas não a transformação radical do que se é, mas antes porque a linguagem poética repete o movimento do nascimento da linguagem, apresentando-a livre da carga que o uso lhe traz.

Para ajudar a esclarecer este conceito de linguagem em estado de nascimento, Manuel Gusmão salienta o carácter utópico da linguagem. A u-topia da linguagem deriva da faculdade que esta tem de «fazer um uso infinito de recursos finitos» (p. 170), isto é, da imprevisibilidade do acontecer linguístico que remete cada acto de linguagem, ou pelo menos o acto de linguagem com intenção literária, para um não-lugar que devém lugar quando concretizado em discurso. Não se trata de um regresso à origem da linguagem, esse momento mítico em que o homem conquistou o mundo para si de uma vez para sempre ao atribuir nomes aos objectos, mas do reconhecimento de uma «origem perpétua» da linguagem, que nunca pára de nascer e de «refazer as imagens do mundo pela alteração da sua topologia, de reinventar o amor, de mudar a vida, ou mesmo de produzir as várias vidas que são devidas a um mortal» (p. 183). Vemos, assim, a ligação perene entre poesia e intuição do mundo pelos homens, sempre condicionada pelas possibilidades experimentadas da linguagem. A poesia permite novas intuições e, logo, novos mundos, novas realidades e, sobretudo, novas liberdades; ela é, portanto, a «ilusão necessária do [nosso] auto-engendramento» (idem). Nesta medida, a poesia afirma-se como «construção antropológica», em que o devir outro do poeta (o nosso autor segue neste passo Rimbaud) permite criar novas formas de vida humana, colocando-nos num plano exotópico à nossa percepção de tempo, espaço e cultura, plano que, segundo Bakthine, é o único que possibilita a compreensão de uma totalidade (p. 186-7).
Ao inscrever uma singularidade no «comum», valorizando a «possibilidade de singularização” (p. 16) contida nos recursos infinitos da linguagem, ao arrancar uma forma assinada a uma forma neutra preexistente, o poeta «põe a língua a funcionar» (p. 15), operando uma génese continuada da linguagem. Isto é, o mesmo vocábulo terá tantos nascimentos quantas actualizações lhe forem concedidas pelo fazer poético.
Desenraizada da concepção de uma suposta essencialidade, nem por isso podemos afirmar, como se torna corriqueiro, que tudo pode ser poesia. Os detractores daquilo a que eles próprios gostam de chamar «poesia pura» não podem escamotear que, sendo a poesia a concretização de uma possibilidade da linguagem, não deixa também de estar dependente de uma disposição particular para fazer funcionar a língua, trazendo à colação o espanto pelo mundo que agora, escrito no poema, se diz pela primeira vez. A recusa em confiar na linguagem acarreta a «impossibilidade de conhecer e de se (re)conhecer; a impossibilidade de viver e de amar (…), a impossibilidade de aceitar o corpo próprio, assim como o pavor da morte, em suma, a dificuldade em aceitar a vida que é dada viver» (p. 254). É o estranhamento, mais do que o lamento pela falência da Verdade, o melhor indicador de estarmos na presença de uma língua que nasce para cantar o mundo e engendrar o amor.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Antonio Gamoneda (VI)

Mãe: quero esquecer
esta crença sem descanso. Ninguém
viu um coração habitado.
Porquê este pensamento irreparável,
esta crença sem descanso?

Estar desesperado,
estar quimicamente desesperado,
não é um destino nem uma verdade.
É horrível e simples
e mais do que a morte. Mãe:
dá-me as tuas mãos, lava
o meu coração, faz alguma coisa.

Antonio Gamoneda, Exentos I, 1959-60 e 2003.
- tradução minha -

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Antonio Gamoneda (V)

A beleza
não proporciona sonhos doces; derrama-se
na insónia azul do gelo
e na matéria do relâmpago.

Em cal viva, em
lâminas queimadas,
gira sem descanso; a sua
perfeição é a vertigem.

A beleza não é
um lugar aonde os
cobardes vão parar.

Viva em sua luz
o meu pensamento. Quero
morrer em liberdade.
Antonio Gamoneda, Sublevación inmóvil, 1953-59 e 2003.
- tradução minha -

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Crítica de H. G. Cancela a "Miasmas"

o ritualismo
de forma persistente, e contrariando o prosaísmo contemporâneo, mantém-se em alguns autores a reivindicação da poesia como território ritualista e profanamente sacralizado. é uma postura que entende a poesia como alguma coisa anterior à escrita, alguma coisa que não cabe na própria língua e que só a custo se corporiza enquanto texto. é uma poesia que voluntariamente se instala naquilo que entende como a margem dos valores ou das expectativas.
o livro miasmas 1, de João Moita, é um bom exemplo de uma poesia de temática metafísica: vive da ideia do sagrado, mesmo quando supõe ou opera pela transgressão do religioso. a figura do poeta maldito, capaz de congregar num mesmo movimento a luz e a sombra, o horror e a beleza, surge como sujeito privilegiado desta escrita:

«Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão. (…)»
2

o ritualismo do imaginário e do léxico suporta aqui uma intensidade semântica e um investimento subjectivo que não é muito comum. ao longo do livro vamos reencontrando uma poesia que tematica e semanticamente se situa no interior deste imaginário e vocabulário sobrecarregados. e no entanto, talvez os melhores momentos do livro sejam aqueles em que o autor opta por formulações que assumem a secura como retórica poética:

«XXXII

Confio-me às minhas transgressões.
Sempre que me afasto dos seus desígnios
a situação fica oh tão frágil.»
3

é uma poesia rigorosa, mas que ganharia em se libertar de algum imagismo e da sobrecarga retórica que a torna reconhecível. tem o mérito de afirmar a diferença face ao prosaísmo contemporâneo, mas não o de se afirmar como verdadeira alternativa.

1. João Moita, miasmas,
Cosmorama Edições, 2010.
2.
idem, 18.
3. idem, 40.

Texto pulicado no blogue Contra Mundum de H. G. Cancela.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Antonio Gamoneda (IV)

Prometeu na fronteira

I

Talvez passemos pelo mesmo tormento.
Um deus caído na dor vale tanto
quanto dor se esta supera o pranto
e se levanta contra o firmamento.

Um deus imóvel é um deus sedento
e a mim cobrem-me com o mesmo manto.
Eu tenho sede e o que levanto
é a impotência de levantamento.

Oh que dura, feroz é a fronteira
da beleza e da dor; nem um Deus
pode cruzá-la com seu corpo puro.

Ambos estamos de igual maneira
a ferro e sede da solidão; os dois
acorrentados ao mesmo muro.

II

E este dom de morrer, esta potência
degoladora da dor, de onde
nos vem? Em que deus se esconde
esta forma sinistra de clemência?

Uma única divina descendência
a esta zona de sombra corresponde.
Se falas a um deus, quando responde,
vem a morte por correspondência.

Se não fosse cobarde, se, mais forte,
num raio pudesse pela boca
expulsar este medo da morte,

como este imortal acorrentado
seria puro na dor. Oh, rocha,
meu mundo de sede, mundo olvidado!


Antonio Gamoneda, Sublevación inmóvil, 1953-59 e 2003.
- tradução minha -

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Toulouse-Lautrec, Lassitude, 1896.
A noite cai onde ponho a mão: dentro é uma lua que gela. Então procuro o ponto exacto onde conceber a mácula e amar a culpa. Cinco são as luas do meu regresso. Uma a uma, circularmente. O ácido que por vezes levo à boca é a minha sabedoria. Se então me escorre pelos lábios, saberei que delírio me toma? Que ciência descubro? Que inaudita beleza irrompe de mim? Eu sou a minha própria conclusão, a minha destinação. Se me rasgo, desvelo os astros que me espiam. E tantas vezes tropeço numa álgida alegria.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Duas notas estenografadas sobre poesia

§ A poesia é uma construção antropológica*, a actualização pela linguagem de mundos em potência ainda não concretizados. A poesia propõe assim um mundo-outro, construído pelo homem à imagem de Deus, inscrevendo na vida realizações que antes apenas se intuíam no ilimitado dos enunciados da linguagem humana. O ilimitado é de Deus, a inscrição é do homem.

§ A inscrição de novos mundos de linguagem no mundo não visa tanto corrigir o que existe, como violentá-lo. A poesia enquanto construção antropológica não pode aspirar, da mesma forma que a ciência não o pode fazer, à rectificação das regras que subsumem o mundo. Quando muito, a ciência pode descobrir por aproximação as leis mais ou menos imutáveis e aprender humildemente a manipulá-las, nunca a corrigi-las. A violência que a poesia exerceria no devir do mundo seria, portanto, da ordem da ofensa e não da transformação. Seria a lucidez possível de um juízo permanente cuja tensão se não deixasse afrouxar. Cuspir na cara do mundo não o muda, mas castiga-o. É essa talvez a única forma de nos mantermos frente a frente com ele. Pouca coisa, já se sabe, mas mais do que isso não se pode, e menos não vale a pena.
*fui buscar esta noção, bem como o dínamo para estas reflexões a Manuel Gusmão (cf. Tatuagem e Palimpsesto, Assírio & Alvim, 2010.)

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Vincent Van Gogh, De hut, 1885.

Todos os dias, a esta hora, saio de casa para caçar. Dizem-me que não é a melhor altura do dia e que em breve a noite esconderá muitos perigos. Não sei do que falam. Todos os dias, a esta hora, saio de casa para caçar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Antonio Gamoneda (II)


O grande vento da noite
entra, lento, nos trigais.

Deixa a tua mão na minha
que são os nossos esponsais.

Tomo-te porque a minha pena
tem a cor dos teus olhos;

porque o meu pão é moreno
como a tua carne.

Antonio Gamoneda, La tierra e los labios, 1947-53.
- tradução minha -

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Edouard Manet, Gare St-Lazare, 1872.

Sento-me com este livro das horas na gare de St. Lazare e espero que a manhã digira a sua luz. A minha filha escuta os seus demónios enquanto os transeuntes passam indiferentes à sua querela louca. Sei que vou encontrar a oração deste dia e que com ela estarei mais próxima da salvação. Quando a agitação nas ruas for de natureza menos equívoca, preparar-me-ei para regressar. Espera-me o fim da tarde e algum ardor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Antonio Gamoneda (I)


Ninguém me ensinou uma lágrima;
não senti pulsar na minha garganta
o rouxinol sangrento da luz.

Uma vez disse: «Vem, Deus, vem aos meus lábios,
vem aos meus olhos e à minha sede.» E Deus
só era verdade no silêncio.

Antonio Gamoneda, La tierra e los labios, 1947-53.
- tradução minha -