domingo, 16 de janeiro de 2011

Caravaggio, O sacrifício de Isaac, 1596.


Senhor, bem vejo que favoreces o teu servo; a tua benevolência é o sinal da tua inesgotável misericórdia. Por esta exoneração, a minha boca abrir-se-á em teu louvor até ao fim dos tempos, e sempre meu coração arderá no fogo sagrado da gratidão. Mas não penses que retrocedo. Esse carneiro não é digno de ti, nem eu sou tão torpe que aceite de bom grado a troca injusta que me propões. Este animal não dá a justa medida do amor que tenho por ti. Que Isaac me perdoe.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Claude Monet, Poppies Blooming, 1873.
Ontem colhi papoilas. Escolhi dentre as mais vermelhas aquelas que menos gemiam ao vento da tarde e arranquei-as pelo caule. Coloquei-as numa jarra junto à janela onde o sol bate de manhã. Deixei os estores abertos e uma vela apagada. As papoilas eram o silêncio da casa quando eu cantava, e tantas vezes me dobraram sobre a página para que me desfolhasse. Às vezes penso que me vou erguer, mas é só o sangue eriçado. Toda a gente pensa que me distraio. As papoilas estão no vértice da casa à espera de Junho. Eu sou o mês do clamor. Toda a gente pensa que me baralho. A casa engole as papoilas com o sangue quando danço e nem os cepos baloiçam. Minha mãe tem um chapéu e uma sombrinha azul e anda por entre as papoilas a indagar as borboletas. Às vezes penso que me vou erguer, mas é só o seu olhar absorto em mim. Bebo água até não ter mais sede. As páginas tingem-se e nem eu amo a minha saliva doce. Toda a gente pensa que me arrepio quando me estendo na erva e o vento da tarde resfria a terra. Minha mãe não sabe que fico transido e que me ergo sob o sangue que me despenha. Ontem colhi papoilas. Hoje penso que vou morrer.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Miasmas (III)

XIX

A minha veia poética é alimentada a seringas
do alto da contrição.
Excita-me o que me definha.
O meu coração encolhe se usado como símbolo:
esta é a parábola da compensação.
O sujeito lírico afila-se em sua índole jazente,
verte uma veia,
aguarda do alto o alimento,
ergue-se nas patas –
estamos no domínio da moralidade.
Eu pronuncio-me apenas sobre o que é do domínio da agressão,
da beleza escorchada,
do bafo intravenoso.
Venho para anunciar que tudo contribui
para a hipóstase do recomeço.


João Moita, Miasmas, Cosmorama, 2010.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Revista Ítaca n.º 2




Como um antiquíssimo astro
o seu rosto pende crepuscularmente
mostrando os sinais evidentes
da volúpia e da morosidade.

Um dia, ao passar por ali,
encontrei-o segurando nas mãos
o seu coração gelado.

Vi que era um anjo muito puro e lento,
o seu olhar era um horizonte escuro,
a neve derretia-se debaixo da sua respiração.

Havia a monotonia dos dedos
contando as luas e os meses,
perdendo-se e recomeçando.

Disse: «
Aproxima-se o tempo dos pentagramas.
Quero estar preparado para esse exercício
de violentas ciladas


Assim rejuvenescem as flores, intensamente belas.
Assim crescem os filhos junto da enseada
e as labaredas do amor incendeiam as sepulturas
e as mitras das deusas claras.

Disse: «
És muito bela e o teu corpo dança
onde o horizonte é uma lâmina rasa.
Eu conheço o teu nome.

E eu recebo-te:
abro lanhos na pedra que ofereces,
trabalho nela com os dentes,
insidiosamente


As palavras estão sentadas em arcos de fogo,
pulsam.
Se o poema o visitar,
ele desaloja as palavras
e senta-se calado,

ardendo.

Disse: «
Escrevo,
caminho para um profundo silêncio.
Essa eloquência.

Escrevo para incendiar a memória.
Acreditar que as mãos criam
a fragilidade do corpo,
que existem porque moldam
a intranquilidade da paisagem.

Um dia os deuses regressarão aos moinhos,
absortos nos seus desígnios.
Observarão as mós girar
como se a solidão nunca os visitasse.
Não convocaria agora as suas navalhas.

Eu estou aqui.
Soergo-me e caio.
À entrada das cidades,
serei todos os pórticos em fogo


Os homens são assim.
Inventam uma luz para nela mergulhar
a sua escuridão.

Disse-lhe: «Virás por essa estrada.
Tocarás a brisa com os teus dedos
levemente apagados
como se dissessem:
Procura-me antes dos meus passos
porque depois deles já não estarei
e neles estou apenas de passagem.


O céu é uma primavera transfigurada:
as flores em seus abismos.

Eis os instrumentos do teu labor.

E eu vou assim,
o coração sem timbales,
os pés feridos.

Chegou a hora do silêncio.
As palavras repousam agora nas margens,
são o sustento de uma ausência.

É por isso que te peço,
dá-me o fogo tripartido do poema,
a sua fulguração.
Como se de chama em chama
a tua face se tornasse mais habitável
para os sinos da manhã.
Como se ensinasses a juntar o silêncio,
peça a peça,
até se escutar essa argêntea fissura que perpassa
as palavras.

Resumem-se a isto os ciclos da fertilidade,
a estas quatro luas incendiadas.

Um cão corre pelas vinhas.
E nunca aprendi
a não me demorar sobre o fogo.»
João Moita, Revista Ítaca 2, Coisas de Ler, 2010.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Miasmas (II)



IX

A ferida põe o corpo em perspectiva.
Eu levanto-me triunfal para o crânio do dia
onde mãos divinas remexem
inquinando o culto.
A efemeridade dura.


João Moita, miasmas, Cosmorama, 2010.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Miasmas



X

Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão.
Olho o mundo com os globos sob os cascos maduros.
Hoje sou uma revelação metódica:
traio a disciplina.
Canto com o bafo de todas as disposições.
Vi sobre as córneas a besta erguida:
as garras infectadas na pele de Deus,
o caldo rutilando.
Ambos sabiam:
era a Grande Obra.
E eu atava-me aos elementos.
Sublimava-me.
Era na terra uma ocultação.
Deus e Deus amavam-me furiosamente
e eu sabia que me agarrava ao fogo e ao fogo de passagem.
Os pés com que corro são cascos que florescem
sobre os olhos.
A beleza é uma hemorragia que bebo
amargamente.
Hoje canto com uma disposição muda.



João Moita, miasmas, Cosmorama, 2010.

terça-feira, 18 de maio de 2010

sábado, 13 de março de 2010

Ulisses

Devolveria o sangue às entranhas dos pretendentes
se pudesse voltar a singrar as entranhas do mar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Divina Música - Antologia


A expensas da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região, e com o fim de comemorar o 25º aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu, foi publicada esta antologia de poesia sobre música organizada pelo poeta Amadeu Baptista. Nela participo com este poema:


Há uma voz encantada que me chama mas eu venho
pela chacina e pela vista abrasada a grisu.
Há uma voz encantada e a beleza é ainda bela
e sem necessidade de explicação
mas eu venho pelos espasmos e
pelas silhuetas vulcânicas
que vogam iradas e imateriais.
Há uma voz que encanto a golpes e blasfémias
e que transluz nocturna,
voz-napalm que estendo como corda.
Eu venho açular os maxilares contra a palavra
a palavra com sangue
a palavra sangue
dita
atirada com sangue e espasmos
como coração exangue
com o sangue sufocando a voz
e a voz encantando ainda já sem voz
onde eu estou como a descoberto para cantar por baixo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Todas as histórias têm um fim, não necessariamente feliz. Mas quando a manhã se ergue assim, sem propósito e sem louvor, sabemos que o esquecimento já mitiga o mundo. Corramos, pois, para as igrejas, toquemos os sinos. É o tempo dos figos, das preces e do amor: já não há tempo.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Não tarda a noite sobre o vale. As montanhas aconchegam-se já à sombra ténue. As veredas afadigam-se no sem destino de ligarem parte alguma a lugar nenhum. Cedo, toda a extensão se cobrirá de neve. Uma superfície para a desolação. Depois, virá o fogo. Em baixo, a ribeira canta exangue, amando a tristeza do seu curso lento. Um novo dia depois.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Todas as manhãs, o eremita ia à ermida com o seu machado. Mal o sol se erguia, abandonava a esteira, contava o rebanho e punha-se a caminho. O trilho seguia pela margem da ribeira, que ele subia a custo, dobrado ao peso do machado. Quando chegava, nunca se benzia. Ao bater na pedra, a estrutura abanava. No alto, a cruz quase cedia. Não gemia ao sentir as lascas que se desprendiam do trabalho cravarem-se-lhe na pele. Rezava. Depois descia, levava o rebanho a pastar.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dar a exacta medida do que se perde.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Diálogo do Isolamento

Jesus - «Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei uma Igreja para mim e as portas do Inferno nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» (S. Mateus 16, 18-19.)


Pedro - Sobre a pedra me sentarei, com as chaves me selarei.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As Filhas de Lot

Hendrick Goltzius, Lot e as suas filhas, 1616.



O que nos excita é o que nos definha.