quarta-feira, 8 de abril de 2020

Alpiarça, 17/03/2020


Um meio-dia translúcido e sem peso na quietude ondulada da lezíria. Um silêncio povoado, um frenesim imperceptível, a incessante azáfama da vida na imobilidade da hora. Também eu participo do silêncio, deixo alastrar o veneno.

domingo, 5 de abril de 2020

Santarém-Lisboa, 12/03/2020


O verde a toda a volta é benigno como um patíbulo. Os canaviais sobrepujam a altura dos caminheiros. Nas estremas dos terrenos, as alfais reluzem de suor. Os regos entre as parcelas jorram como corações esfaqueados. Há estacas espetadas na terra, delimitando zonas de pastoreio. Cabos de alta tensão ondulam e crepitam, transbordantes, contra um céu lúgubre e espumoso. Ratos espavoridos atravessam os campos virentes, acossados pelo voo planado de um falcão. Ao fundo, o indecoroso silêncio de uma aldeia espectral.