Ajeno
Largo se le hace el día a quien no ama
y él lo sabe. Y él oye ese tañido
corto y duro del cuerpo, su cascada
canción, siempre sonando a lejanía.
Cierra su puerta y queda bien cerrada;
sale y, por un momento, sus rodillas
se le van hacia el suelo. Pero el alba,
con peligrosa generosidad,
le refresca y le yergue. Está muy clara
su calle, y la pasea con pie oscuro,
y cojea en seguida porque anda
sólo con su fatiga. Y dice aire:
palabras muertas con su boca viva.
Prisionero por no querer, abraza
su propia soledad. Y está seguro,
más seguro que nadie porque nada
poseerá; y él bien sabe que nunca
vivirá aquí, en la tierra. A quien no ama,
¿cómo podemos conocer o cómo
perdonar? Día largo y aún más larga
la noche. Mentirá al sacar la llave.
Entrará. Y nunca habitará su casa.
§
Alheado
Longo se faz o dia a quem não ama
e o sabe. E ele escuta o tanger
curto e duro do corpo, a sua decrépita
canção, soando sempre a distância.
Fecha a porta e deixa-a bem fechada;
sai e, por um momento, cai de joelhos
ao chão. Mas a madrugada,
com perigosa generosidade,
o refresca e o ergue. Está muito clara
a sua rua, e palmilha-a com pé escuro,
e coxeia em seguida porque anda
apenas com a sua fadiga. E diz ar:
palavras mortas com a sua boca viva.
Prisioneiro por não querer, abraça
a sua própria solidão. E está seguro,
mais seguro do que ninguém porque nada
possuirá; e ele bem sabe que nunca
viverá aqui, na terra. A quem não ama,
como o podemos conhecer ou como
perdoá-lo? Dia longo e ainda mais longa
a noite. Mentirá ao tirar a chave.
Entrará. E nunca habitará a sua própria casa.
Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha
domingo, 31 de março de 2013
domingo, 23 de dezembro de 2012
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
Antonio Gamoneda, nova série, II
Había
vértigo y luz en las arterias del relámpago,
fuego, semillas y una germinación desesperada.
Yo desgarraba la imposibilidad,
oía silbar a la máquina del llanto y me perdía en la espesura vaginal. También
entraba en urnas policiales. Así
olvidaba los ojos de mi madre.
Vivía
Parece ser.
Vivía.
Ahora mismo atiendo distraído a mi estertor. No hay en mí memoria ni olvido; única y simplemente lucidez.
Han desaparecido los significados y nada estorba ya a la indiferencia.
Definitivamente, me he sentado
a esperar a la muerte
como quien espera noticias ya sabidas.
*
Havia
vertigem e luz nas artérias do relâmpago,
fogo, sementes e uma germinação desesperada.
Eu rasgava a impossibilidade,
ouvia assobiar a máquina do pranto e perdia-me na espessura vaginal. Entrava
também nas urnas policiais. Esquecia
assim os olhos da minha mãe.
Vivia.
Acho que sim.
Vivia.
Agora mesmo observo distraído o meu estertor. Não há em mim memória nem esquecimento: unica e simplesmente lucidez.
Desapareceram os significados e nada estorva já a indiferença.
Definitivamente, sentei-me
à espera da morte
como quem espera notícias já sabidas.
Antonio Gamoneda,
poema de Canción Errónea, 2012.
- trad. minha
vértigo y luz en las arterias del relámpago,
fuego, semillas y una germinación desesperada.
Yo desgarraba la imposibilidad,
oía silbar a la máquina del llanto y me perdía en la espesura vaginal. También
entraba en urnas policiales. Así
olvidaba los ojos de mi madre.
Vivía
Parece ser.
Vivía.
Ahora mismo atiendo distraído a mi estertor. No hay en mí memoria ni olvido; única y simplemente lucidez.
Han desaparecido los significados y nada estorba ya a la indiferencia.
Definitivamente, me he sentado
a esperar a la muerte
como quien espera noticias ya sabidas.
*
Havia
vertigem e luz nas artérias do relâmpago,
fogo, sementes e uma germinação desesperada.
Eu rasgava a impossibilidade,
ouvia assobiar a máquina do pranto e perdia-me na espessura vaginal. Entrava
também nas urnas policiais. Esquecia
assim os olhos da minha mãe.
Vivia.
Acho que sim.
Vivia.
Agora mesmo observo distraído o meu estertor. Não há em mim memória nem esquecimento: unica e simplesmente lucidez.
Desapareceram os significados e nada estorva já a indiferença.
Definitivamente, sentei-me
à espera da morte
como quem espera notícias já sabidas.
Antonio Gamoneda,
poema de Canción Errónea, 2012.
- trad. minha
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Antonio Gamoneda, nova série, I
Huyes de ti para alcanzar verdades que no existieron nunca.
Hablas de un ave que atravesó tus sueños. Te engañas: tú, aun no siendo, eres su única realidad.
“La rosa es bella, ¿y para qué?”
Así son las preguntas prendidas de tus labios; las grandes, las inútiles preguntas.
“Ignorar para ver”, dices también.
Pero ¿qué ver? Tan sólo lograrás que la luz arda en tus ojos. Compréndelo:
no existe más que una palabra verdadera:
no.
*
Foges de ti para alcançar verdades que nunca existiram.
Falas de uma ave que atravessou os teus sonhos. Enganas-te: tu, ainda que não sendo, és a sua única realidade.
“A rosa é bela, e para quê?”
Assim são as perguntas suspensas dos teus lábios; as grandes, as inúteis perguntas.
“Ignorar para ver”, dizes também.
Mas, ver o quê? Conseguirás apenas que a luz arda nos teus olhos.
Compreende:
Só existe uma palavra verdadeira:
não.
Antonio Gamoneda,
de Canción Errónea, 2012.
- trad. minha
Hablas de un ave que atravesó tus sueños. Te engañas: tú, aun no siendo, eres su única realidad.
“La rosa es bella, ¿y para qué?”
Así son las preguntas prendidas de tus labios; las grandes, las inútiles preguntas.
“Ignorar para ver”, dices también.
Pero ¿qué ver? Tan sólo lograrás que la luz arda en tus ojos. Compréndelo:
no existe más que una palabra verdadera:
no.
*
Foges de ti para alcançar verdades que nunca existiram.
Falas de uma ave que atravessou os teus sonhos. Enganas-te: tu, ainda que não sendo, és a sua única realidade.
“A rosa é bela, e para quê?”
Assim são as perguntas suspensas dos teus lábios; as grandes, as inúteis perguntas.
“Ignorar para ver”, dizes também.
Mas, ver o quê? Conseguirás apenas que a luz arda nos teus olhos.
Compreende:
Só existe uma palavra verdadeira:
não.
Antonio Gamoneda,
de Canción Errónea, 2012.
- trad. minha
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Crítica na Rock n'Heavy ao EP de estreia dos Daughters of Lot
Foi escrita por Rui Carneiro e pode ser lida aqui:
"The Daughters Of Lot, banda que junta cinco músicos de Alpiarça, e que conta já com três anos nestas lides, apresenta, depois de um interregno devido à saída do baixista, o EP de estreia: “Sulfur Rain Pours Onto Our Souls”.
De um cardápio que, possivelmente, não para de crescer, os músicos selecionaram três temas para este EP. As honras de abertura cabem a “The Suffering”, composição que, partindo de uma toada de melopeia saturniana, rapidamente evolui para uma sistematização cada vez mais presente e insinuante da paleta instrumental burilada por Miguel Fernandes, o “artifex” da banda. Não há barreiras na tessitura musical dos TDOL, até porque aquilo que flui do jogo de sedução entre voz e instrumentos é o desejo libidinoso pela desconstrução e eterna reformulação das linhas rítmicas e melódicas que radicam, evoluem e fenecem ao longo das pulsões e circunvalações de uma catarse feita de silêncios, interlúdios e irrupções, fulcro e ocaso de uma imagética em que “o prazer é uma deformação da dor”
A próxima, “The Edge Of a Lie”, confirma desígnios musicais que a banda classifica como “progressivos”, uma vez que é notória a preocupação em complexificar cada um destes “episódios”, construindo algo que se assemelha a uma filigrana musical, tal é o rigor no processo criativo, lapidando cada instante com a minúcia que o ourives dedica a uma jóia requintada.
“Sanctuary” encerra este tríptico musical, descarregando um manifesto de rock corrosivo. Miguel Fernandes puxa o som da bateria para a frente, violentando peles e tímpanos. As guitarras, que anteriormente deambulavam por paisagens etéreas e atmosféricas, ganham agora contornos ásperos e virulentos, semeando ondas de distorção em arrojos fulgurantes, voluptuosos e tonitruantes.
Assim sendo, a música dos TDOL parece comungar da conotação genesíaca que preside ao episódio bíblico que dá nome à banda. Profundamente humana, e por isso fatalmente marcada pelo desejo de transgressão, de consumação exacerbada da nossa volúpia ôntica: “As filhas de Lot fundam o seu território no enclave do desejo com o estímulo. O ébrio é para elas apurador de pulsões: transmissão e transfusão. As filhas de Lot privilegiam a obscuridade e mergulham o seu afecto nas próprias transgressões. Elas preparam a iridescência do que devém, são da ordem do fantasmático.” Na fração nebulosa, abismal e nefelibata, entre a perceção e a sensação, no limbo etéreo entre o sensível e o onírico evolui esta fantasmagoria musical: “Depois do incesto, enquanto o seu pai dorme, as filhas de Lot, nuas, sentam-se junto ao fogo e olham-se. A troca de olhares resulta em música.” Processo transfigurativo, o corpo do outro, maculado pela corrupção do desejo carnal, resolve-se sinestesicamente através da visão oblíqua do “eu” no “outro”, processo demiúrgico e dionisíaco que cria a arte.
Recordamos, a propósito, e para finalizar, as palavras do poema de Fernando Pessoa:
«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é»"
De um cardápio que, possivelmente, não para de crescer, os músicos selecionaram três temas para este EP. As honras de abertura cabem a “The Suffering”, composição que, partindo de uma toada de melopeia saturniana, rapidamente evolui para uma sistematização cada vez mais presente e insinuante da paleta instrumental burilada por Miguel Fernandes, o “artifex” da banda. Não há barreiras na tessitura musical dos TDOL, até porque aquilo que flui do jogo de sedução entre voz e instrumentos é o desejo libidinoso pela desconstrução e eterna reformulação das linhas rítmicas e melódicas que radicam, evoluem e fenecem ao longo das pulsões e circunvalações de uma catarse feita de silêncios, interlúdios e irrupções, fulcro e ocaso de uma imagética em que “o prazer é uma deformação da dor”
A próxima, “The Edge Of a Lie”, confirma desígnios musicais que a banda classifica como “progressivos”, uma vez que é notória a preocupação em complexificar cada um destes “episódios”, construindo algo que se assemelha a uma filigrana musical, tal é o rigor no processo criativo, lapidando cada instante com a minúcia que o ourives dedica a uma jóia requintada.
“Sanctuary” encerra este tríptico musical, descarregando um manifesto de rock corrosivo. Miguel Fernandes puxa o som da bateria para a frente, violentando peles e tímpanos. As guitarras, que anteriormente deambulavam por paisagens etéreas e atmosféricas, ganham agora contornos ásperos e virulentos, semeando ondas de distorção em arrojos fulgurantes, voluptuosos e tonitruantes.
Assim sendo, a música dos TDOL parece comungar da conotação genesíaca que preside ao episódio bíblico que dá nome à banda. Profundamente humana, e por isso fatalmente marcada pelo desejo de transgressão, de consumação exacerbada da nossa volúpia ôntica: “As filhas de Lot fundam o seu território no enclave do desejo com o estímulo. O ébrio é para elas apurador de pulsões: transmissão e transfusão. As filhas de Lot privilegiam a obscuridade e mergulham o seu afecto nas próprias transgressões. Elas preparam a iridescência do que devém, são da ordem do fantasmático.” Na fração nebulosa, abismal e nefelibata, entre a perceção e a sensação, no limbo etéreo entre o sensível e o onírico evolui esta fantasmagoria musical: “Depois do incesto, enquanto o seu pai dorme, as filhas de Lot, nuas, sentam-se junto ao fogo e olham-se. A troca de olhares resulta em música.” Processo transfigurativo, o corpo do outro, maculado pela corrupção do desejo carnal, resolve-se sinestesicamente através da visão oblíqua do “eu” no “outro”, processo demiúrgico e dionisíaco que cria a arte.
Recordamos, a propósito, e para finalizar, as palavras do poema de Fernando Pessoa:
«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é»"
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
The Daughters of Lot - Sulfur Rain Pours Onto Our Souls (EP)
Na palma das suas mãos
os sulcos da vida são fundos como uma vingança:
definitivas são as suas carícias.
1. The Suffering
2. The edge of a lie
3. Sanctuary
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Alejandra Pizarnik (I)
16
construíste a tua casa
emplumaste os teus pássaros
golpeaste o vento
terminaste sozinha
o que ninguém começou
Alejandra Pizarnikconstruíste a tua casa
emplumaste os teus pássaros
golpeaste o vento
terminaste sozinha
o que ninguém começou
- trad. minha
sábado, 4 de agosto de 2012
Wistawa Szymborska (II)
A mulher de Lot
Dizem que olhei para trás por curiosidade.
Mas podem ter sido outras as razões.
Olhei para trás lamentando a perda do meu vaso de prata.
Descuidada, enquanto atava as sandálias.
Para que parasse de contemplar a nuca virtuosa
do meu marido, o pescoço de Lot.
Por causa da súbita convicção de que se eu caísse morta
ele nem sequer vacilaria.
Por causa da desobediência dos humildes.
Para certificar que não estávamos a ser seguidos.
Abalada pelo silêncio, acreditando que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas já tinham desaparecido atrás da colina.
Senti a idade dentro de mim. Distância.
A futilidade da peregrinação. Torpor.
Olhei para trás pousando o alforje.
Olhei para trás por não saber onde pôr os pés.
Serpentes apareceram no caminho,
aranhas, ratos do campo, abutres.
Não eram nem bons nem maus – cada ser vivo
arrastava-se simplesmente ou esperava com a mole em pânico.
Olhei para trás em desolação.
Com a vergonha de termos roubado.
Querendo chorar, ir para casa.
Ou apenas porque uma rajada de vento
despenteou-me o cabelo e levantou-me vestido.
Parecia que nos estavam a observar dos muros de Sodoma
rebentando em estrondosas gargalhadas uma e outra vez.
Olhei para trás em fúria.
Para saborear o seu terrível destino.
Olhei para trás por todas estas razões.
Olhei para trás involuntariamente.
Apenas porque uma pedra resvalou-me debaixo dos pés, rosnando para mim.
Por causa de uma súbita quebra no trilho.
Um roedor cambaleou nas suas patas dianteiras sobre o precipício.
Foi então que ambos olhámos para trás.
Não, não. Eu corri,
eu rastejei, eu levitei
até que a escuridão caiu dos céus
e com ela granizo abrasador e pássaros mortos.
Não conseguia respirar e girava e girava.
Quem quer que me visse pensaria que estava a dançar.
Não é inconcebível que os meus olhos estivessem abertos.
É possível que tenha caído encarando a cidade.
Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh
Dizem que olhei para trás por curiosidade.
Mas podem ter sido outras as razões.
Olhei para trás lamentando a perda do meu vaso de prata.
Descuidada, enquanto atava as sandálias.
Para que parasse de contemplar a nuca virtuosa
do meu marido, o pescoço de Lot.
Por causa da súbita convicção de que se eu caísse morta
ele nem sequer vacilaria.
Por causa da desobediência dos humildes.
Para certificar que não estávamos a ser seguidos.
Abalada pelo silêncio, acreditando que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas já tinham desaparecido atrás da colina.
Senti a idade dentro de mim. Distância.
A futilidade da peregrinação. Torpor.
Olhei para trás pousando o alforje.
Olhei para trás por não saber onde pôr os pés.
Serpentes apareceram no caminho,
aranhas, ratos do campo, abutres.
Não eram nem bons nem maus – cada ser vivo
arrastava-se simplesmente ou esperava com a mole em pânico.
Olhei para trás em desolação.
Com a vergonha de termos roubado.
Querendo chorar, ir para casa.
Ou apenas porque uma rajada de vento
despenteou-me o cabelo e levantou-me vestido.
Parecia que nos estavam a observar dos muros de Sodoma
rebentando em estrondosas gargalhadas uma e outra vez.
Olhei para trás em fúria.
Para saborear o seu terrível destino.
Olhei para trás por todas estas razões.
Olhei para trás involuntariamente.
Apenas porque uma pedra resvalou-me debaixo dos pés, rosnando para mim.
Por causa de uma súbita quebra no trilho.
Um roedor cambaleou nas suas patas dianteiras sobre o precipício.
Foi então que ambos olhámos para trás.
Não, não. Eu corri,
eu rastejei, eu levitei
até que a escuridão caiu dos céus
e com ela granizo abrasador e pássaros mortos.
Não conseguia respirar e girava e girava.
Quem quer que me visse pensaria que estava a dançar.
Não é inconcebível que os meus olhos estivessem abertos.
É possível que tenha caído encarando a cidade.
Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh
Wistawa Szymborska (I)
Nota de agradecimento
Devo tanto
àqueles que não amo.
O alívio com que reconheço
que eles são mais importantes para outros.
A felicidade de não ser
o lobo para as suas ovelhas.
A paz que sinto ao pé deles,
a liberdade –
isso o amor não mo pode dar
nem tirar.
Não fico à espera deles,
angustiada à janela.
Quase tão paciente
quanto um relógio de sol.
Compreendo
o que o amor não compreende,
e perdoo
o que o amor nunca perdoaria.
De um encontro até à chegada de uma carta
são só alguns dias ou semanas,
não uma eternidade.
As viagens com eles são sempre tranquilas,
concertos são ouvidos,
catedrais visitadas,
paisagens contempladas.
E quando sete colinas e sete rios
nos separam,
essas colinas e esses rios
podem ser encontrados em qualquer mapa.
Fico-lhes reconhecida
por viver a três dimensões,
num espaço sem lirismo e sem teorias
com um horizonte genuíno e inconstante.
Eles próprios não se apercebem
de quanto guardam nas suas mãos vazias.
“Não lhes devo nada”,
seria a resposta do amor
a esta pergunta aberta.
Devo tanto
àqueles que não amo.
O alívio com que reconheço
que eles são mais importantes para outros.
A felicidade de não ser
o lobo para as suas ovelhas.
A paz que sinto ao pé deles,
a liberdade –
isso o amor não mo pode dar
nem tirar.
Não fico à espera deles,
angustiada à janela.
Quase tão paciente
quanto um relógio de sol.
Compreendo
o que o amor não compreende,
e perdoo
o que o amor nunca perdoaria.
De um encontro até à chegada de uma carta
são só alguns dias ou semanas,
não uma eternidade.
As viagens com eles são sempre tranquilas,
concertos são ouvidos,
catedrais visitadas,
paisagens contempladas.
E quando sete colinas e sete rios
nos separam,
essas colinas e esses rios
podem ser encontrados em qualquer mapa.
Fico-lhes reconhecida
por viver a três dimensões,
num espaço sem lirismo e sem teorias
com um horizonte genuíno e inconstante.
Eles próprios não se apercebem
de quanto guardam nas suas mãos vazias.
“Não lhes devo nada”,
seria a resposta do amor
a esta pergunta aberta.
Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh
sábado, 21 de julho de 2012
Yannis Ritsos (IV e V)
Ela viu o belo ladrão
saltar
pela janela
Desde então
deixa a porta
escancarada
As jóias que sobraram
num lugar visível
Ele nunca regressou
Atenas, 9-5-78
*
Quando inalaste o perfume
de uma rosa
cresceste meio metro
agora não cabes
na porta
a noite veio
arrefeceu
apareceram as estrelas
os lobos vieram
Atenas, 29-2-80
saltar
pela janela
Desde então
deixa a porta
escancarada
As jóias que sobraram
num lugar visível
Ele nunca regressou
Atenas, 9-5-78
*
Quando inalaste o perfume
de uma rosa
cresceste meio metro
agora não cabes
na porta
a noite veio
arrefeceu
apareceram as estrelas
os lobos vieram
Atenas, 29-2-80
Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Yannis Ritsos (III)
Assassinos Fictícios
Esta mulher – nem sequer sei como se chama – Catarina? Eurídice?
Agride-me roça a faca pelo meu pescoço
Sei que é uma faca de papel
Finjo estar morto entreabro os olhos
Vejo melhor assim
De noite levanto-me vou à loja do ferreiro com as suas ratazanas
Acendo a fogueira atiço-a com os grandes foles da igreja
Preparo as quatro ferraduras o cálice fundo
Afio a grande faca de dois gumes e entrego-lha
Em mãos secretamente voluptuosamente por baixo da almofada
Atenas, 4-5-71
Esta mulher – nem sequer sei como se chama – Catarina? Eurídice?
Agride-me roça a faca pelo meu pescoço
Sei que é uma faca de papel
Finjo estar morto entreabro os olhos
Vejo melhor assim
De noite levanto-me vou à loja do ferreiro com as suas ratazanas
Acendo a fogueira atiço-a com os grandes foles da igreja
Preparo as quatro ferraduras o cálice fundo
Afio a grande faca de dois gumes e entrego-lha
Em mãos secretamente voluptuosamente por baixo da almofada
Atenas, 4-5-71
Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis
terça-feira, 17 de julho de 2012
Yannis Ritsos (II)
Consequências Desconhecidas
Durante anos e anos ele ansiou ele despiu-se
diante de grandes e pequenos espelhos
diante de cada janela ele ensaiou cuidadosamente
uma e outra pose tentando decidir-se inventar
aquela que lhe fosse mais natural para que ele se tornasse
a estátua perfeita de si mesmo – ainda que soubesse
que as estátuas são frequentemente feitas
para os mortos e ainda mais frequentemente
para algum deus irreal e desconhecido
Atenas, 17-3-71
Durante anos e anos ele ansiou ele despiu-se
diante de grandes e pequenos espelhos
diante de cada janela ele ensaiou cuidadosamente
uma e outra pose tentando decidir-se inventar
aquela que lhe fosse mais natural para que ele se tornasse
a estátua perfeita de si mesmo – ainda que soubesse
que as estátuas são frequentemente feitas
para os mortos e ainda mais frequentemente
para algum deus irreal e desconhecido
Atenas, 17-3-71
Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis
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