segunda-feira, 30 de março de 2020
domingo, 29 de março de 2020
John Keats (I)
Quando me assalta o medo de morrer
Antes de a mente em escrita verter,
E de deixar, redonda, em cartapácios,
Como em silos, a madura semente;
Quando no rosto da noite diviso
Turvos símbolos de um nobre romance,
Sem que para as suas sombras traçar,
Num rasgo de sorte, a vida me sobre;
E quando sinto, ser belo e fugaz,
Que admirar-te não mais me será dado,
Nem me comprazer no excelso poder
Do incauto amor! – Então, do vasto mundo
Me afastando, ponho-me a meditar
Até Fama e Amor no nada afundar.
John Keats, 1818.
*
When I have fears that I may cease to be
Before my pen has gleaned my teeming brain,
Before high-pilèd books, in charactery,
Hold like rich garners the full ripened grain;
When I behold, upon the night’s starred face,
Huge cloudy symbols of a high romance,
And think that I may never live to trace
Their shadows with the magic hand of chance;
And when I feel, fair creature of an hour,
That I shall never look upon thee more,
Never have relish in the faery power
Of unreflecting love—then on the shore
Of the wide world I stand alone, and think
Till love and fame to nothingness do sink.
segunda-feira, 23 de março de 2020
terça-feira, 17 de março de 2020
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
COLÓQUIO/Letras n.º 203
Participo no n.º 203 (jan/2020) da revista Colóquio/Letras com o ensaio «Representações sacrificiais na Tetralogia Lusitana de Almeida Faria», cujos primeiros parágrafos reproduzo abaixo:
«A saga da família alentejana que Almeida Faria põe em cena na sua Tetralogia Lusitana parece conter, pelo menos numa primeira leitura, todos os requisitos para se instituir como alegoria por excelência do mecanismo de bode expiatório postulado por René Girard, o filósofo e antropólogo estruturalista francês. Representantes de uma ordem caduca e agonizante nas vésperas de uma revolução que se imagina regeneradora, os membros desta família apresentam os traços característicos das vítimas do fenómeno que, segundo o pensador cuja teoria porei à prova neste ensaio, é o pilar fundacional de toda a civilização e o evento constitutivo de todo o fenómeno religioso.
A generalizada violência pré-civilizacional, ou a típica das encruzilhadas históricas, alicerçada no carácter fundamentalmente mimético do desejo, propiciador da hostilidade recíproca entre rivais, seria não só eliminada como transformada em móbil conciliatório, ao ser canalizada para uma vítima sacrificial, escolhida não necessariamente pela sua culpabilidade, mas por apresentar visíveis sinais vitimários. A sua imolação pelo conjunto da comunidade suscitaria uma nova paz, fundada na memória partilhada do crime coletivo que teria expurgado a sociedade do seu elemento poluente, agora transformado em tabu, primeiro passo na via da sacralização. «É sempre a má reciprocidade», diz Girard, «demasiado rápida e visível, que uniformiza os comportamentos nas grandes crises sociais suscetíveis de desencadear as perseguições coletivas» (Girard: 49; minha tradução). E acrescenta: «Para que os todos os perseguidores sejam animados pela mesma fé no poder maléfico da sua vítima, é preciso que esta polarize efetivamente todas as suspeitas, todas as tensões e todas as represálias que corrompem essas relações» (ibid.: 65). Assim, o que a maior parte dos mitos mostra, afinal, é um «verdadeiro regresso à ordem comprometida pela crise, mais frequentemente ainda o nascimento de uma nova ordem, na união religiosa da comunidade reanimada pela prova que acaba de suportar» (ibid.: 65-66).
Qualquer revolução, seja ela política, económica ou social, constitui terreno ideal para a proliferação destes mecanismos sacrificiais. É pois com naturalidade que Almeida Faria, sobretudo nos três primeiros romances da Tetralogia Lusitana, os que dizem respeito aos dias que precedem e se sucedem à Revolução dos Cravos, faz desfilar diante dos olhos do leitor uma série de acontecimentos que relevam da violência coletiva projetada sobre determinados alvos escolhidos segundo os critérios de vitimização descritos por René Girard em Le Bouc émissaire. [...]»
Qualquer revolução, seja ela política, económica ou social, constitui terreno ideal para a proliferação destes mecanismos sacrificiais. É pois com naturalidade que Almeida Faria, sobretudo nos três primeiros romances da Tetralogia Lusitana, os que dizem respeito aos dias que precedem e se sucedem à Revolução dos Cravos, faz desfilar diante dos olhos do leitor uma série de acontecimentos que relevam da violência coletiva projetada sobre determinados alvos escolhidos segundo os critérios de vitimização descritos por René Girard em Le Bouc émissaire. [...]»
domingo, 17 de novembro de 2019
A Antonio Gamoneda, Madrid, 8 de Novembro de 2013
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| Fotografia do arquivo familiar de Antonio Gamoneda |
Madrid, 8 de novembro de 2013
Manhã fria por entre a cinza de um nevoeiro
que paira muito acima das nossas cabeças e dos terraços habitados pelos
pássaros elusivos do outono. Pelas calles vogam fantasmas com que transijo,
e há nos passeios o lixo acumulado da desdita. Foi uma noite mais nas cidades
do mundo, uma noite mais contra os atropelos da insónia. Aqui vim encontrar o
que não me fora prometido: o respaldo de um velho poeta que soube transportar a
sua cruz ressequida pela pobreza até a uma leira que a reverdecesse. Colho a
flor do seu abraço e sigo o meu caminho na manhã renovada. À minha frente,
guia-me o eco dos meus passos e rescende à madeira nova dos meus braços.
*
E a tarde é o espelho da manhã sob o
escrutínio de um sol exangue. Uma ameaça de águas paira sobre as nossas
cabeças, suspensa de uma mão enredada na teia fria das orações, a meio caminho
entre o céu e os poços siderais da desesperança. Também eu teço o fio das minhas
preces, faço o meu desespero participar da imobilidade. Penso com todo o peso
da minha vida naquela que amo e na linha púrpura que a liga a outra vida que
também é minha. Súbito, começa a chover.
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