domingo, 25 de agosto de 2013

A floresta de árvores despidas pelo Inverno e a harpa da chuva cadenciam a manhã. Ruge o vento nos umbrais e o gado espera pacientemente sobre a lama. Nos meus ouvidos, porém, só se ouvem, inapeláveis, as bátegas nocturnas de Chopin. Já quase me abismo, ó leveza da aurora, nestes espelhos profundos, nesta chaga extemporânea.

sábado, 24 de agosto de 2013

As árvores despidas ocultam a copa na transparência. Um prenúncio de Primavera destila por entre os ramos desalinhados um vapor iridescente. O campo respira. Vou na última carruagem em direcção ao centro da minha vida. O gado engorda à beira do caminho, o sol desmaia. Ao longe, o rio faz uma curva.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O travo deste dia é acre como a paz de uma igreja lajeada de mortos que apodrecem com o incenso por cima e a bugia dos círios.
Daqui a pouco levantas-te, depois de descansares de uma noite passada a conservar vidas, vens até à sala acesa pelo sol, onde agora escrevo o que não sabes, debruças-te sobre mim, deitado neste sofá com o frio de uma tarde limpa de Inverno, e depositas-me um beijo que agoniza a solidão. Ouço os teus passos, são o eco da escrita.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Às vezes escutamos o poema dentro de nós; ele é bem o timbre e o ritmo. Mas cá fora, sobre o papel, que se inscreve em que nevoeiro? É então altura de calar o poema na cabeça e vir à folha riscar tudo. Aquele que escreve encobre.
O pobre e o poeta comungam no adiamento e na derrogação, e quem pensa dentro deles é a fome. A poesia não tem relação com o sustento.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saint-John Perse (II)

Nocturno

Ei-los maduros, esses frutos de um suspeitoso destino. Pelo nosso sonho gerados, pelo nosso sangue nutridos, e assombrando a púrpura das nossas noites, eles são os frutos da longa inquietação, eles são os frutos do longo desejo, eles foram os nossos mais secretos cúmplices e, tantas vezes à beira da confissão, arrancavam-nos para os seus fins ao abismo das nossas noites… Ao fogo do dia todo favor! ei-los maduros e sob a púrpura, esses frutos de um imperioso destino — Aí não está a nossa vontade.

Sol do ser, traição! Onde foi a fraude, onde foi a ofensa? onde foi a falta e qual é a tara, e o erro, qual foi ele? Retomaremos o tema desde a sua origem? reviveremos a febre e o tormento?… Majestade da rosa, não nos causas grande admiração: o nosso sangue prefere o que é mais amargo, os nossos cuidados o que é mais severo, as nossas estradas são pouco seguras, e profunda a noite de onde se extraem os nossos deuses. Rosas caninas e silvas negras povoam para nós as margens do naufrágio.

Ei-los amadurecendo, esses frutos de uma outra margem. «Sol do ser, cobre-me!» — palavra do desertor. E aqueles que o terão visto passar dirão: quem foi este homem, e qual a sua morada? Iria ele sozinho expor ao fogo do dia a púrpura das suas noites?… Sol do ser, Príncipe e Mestre! as nossas obras estão dispersas, os nossos trabalhos sem honra e os nossos trigos sem colheita: a atadeira de feixes espera no declinar da tarde. — Ei-los pintados com o nosso sangue, esses frutos de um suspeitoso destino.

No seu ritmo de atadeira de feixes vai a vida sem ódio nem resgate.

1972.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe

- trad. minha

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Death Cycle (parts I, II & III)

Death Cycle (parts I, II & III) - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
 

Lived once
Allow me to finally be alone
Failed once

Drag me to the river’s steam
Pull me into the hiss
Face upon a reckless mirror

And I’m gone
Gone

Whisper silence
Living ended up being bitter
The taste of wholeness
Face upon this
And calm I’m getting home

Under the bridge
Where travelers meet
You and I shared a glimpse of nothing
The content of our passions
And you just turned away                                   

And now you make a smile
And ask for me to throw
Away the sordid hope
And you said that love won’t do for me
Cause love
Is the ability of God                                                                                  
Living is better but death solves all

Resurrection / Your tongue on me
Attraction / Cradle of thirst
Heat / Come back to me
All right

I’m coming back to life
I come for bliss
I come for what you left
And I’m not poor

You reach what is out of hand
I reach your heart
Follow my lead now
My life is full of regrets

quinta-feira, 9 de maio de 2013

«Oração Fria», Antonio Gamoneda


«A primeira antologia publicada em Portugal de um dos grandes poetas espanhóis da atualidade.
Esta antologia, preparada e traduzida por João Moita e acompanhada por Antonio Gamoneda, segue a ordenação e a fixação dos textos de «Esta Luz – Poesía Reunida (1947-2004)», livro publicado em Espanha em 2004 pela Galaxia Gutenberg, com organização do próprio poeta. Foram ainda incluídos cinco poemas do seu último livro, «Canción Errónea», publicado em 2012 pela editora Tusquets.
Anos após a publicação de «Livro do Frio» na Assírio & Alvim, esta antologia apresenta ao leitor português uma visão panorâmica da obra de um dos maiores poetas espanhóis da atualidade.»

Amor

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes também pesa no meu coração.

Antonio Gamoneda, Blues Castelhano

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Claudio Rodríguez (III)

Noche abierta

Bienvenida la noche para quien va seguro
y con los ojos claros mira sereno el campo,
y con la vida limpia mira con paz el cielo,
su ciudad y su casa, su familia y su obra.

Pero a quien anda a tientas y ve sombra, ve el duro
ceño del cielo y vive la condena de su tierra
y la malevolencia de sus seres queridos,
enemiga es la noche y su piedad acoso.

Y aún más en este páramo de la alta Rioja
donde se abre con tanta claridad que deslumbra,
palpita tan cerca que sobrecoge, y muy
en el alma se entra, y la remueve a fondo.

Porque la noche siempre, como el fuego, revela,
refina, pule el tiempo, la oración y el sollozo,
da tersura al pecado, limpidez al recuerdo,
castigando y salvando toda una vida entera.

Bienvenida la noche con su peligro hermoso.


§

Noite aberta

Bem-vinda a noite para quem vai confiante
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa contempla em paz o céu,

a sua cidade e a sua casa, a sua família e a sua obra.

Mas para quem anda às apalpadelas e vê sombra, vê o duro
cenho do céu e vive a condenação da sua terra
e a maldade dos seus entes queridos,
inimiga é a noite, e a sua piedade, assédio.

E mais ainda este páramo da alta Rioja
onde se abre com tanta claridade que deslumbra,
palpita tão próxima que impressiona, e muito
na alma se adentra, e a revolve a fundo.

Porque a noite, como o fogo, sempre revela,
refina, pule o tempo, a oração e o soluço,
dá lisura ao pecado, limpidez à recordação,
castigando e salvando uma vida inteira.

Bem-vinda a noite com o seu belo perigo.


Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha

domingo, 31 de março de 2013

Claudio Rodríguez (II)

Ajeno

Largo se le hace el día a quien no ama
y él lo sabe. Y él oye ese tañido
corto y duro del cuerpo, su cascada
canción, siempre sonando a lejanía.
Cierra su puerta y queda bien cerrada;
sale y, por un momento, sus rodillas
se le van hacia el suelo. Pero el alba,
con peligrosa generosidad,
le refresca y le yergue. Está muy clara
su calle, y la pasea con pie oscuro,
y cojea en seguida porque anda
sólo con su fatiga. Y dice aire:
palabras muertas con su boca viva.
Prisionero por no querer, abraza
su propia soledad. Y está seguro,
más seguro que nadie porque nada
poseerá; y él bien sabe que nunca
vivirá aquí, en la tierra. A quien no ama,
¿cómo podemos conocer o cómo
perdonar? Día largo y aún más larga
la noche. Mentirá al sacar la llave.
Entrará. Y nunca habitará su casa.


§

Alheado

Longo se faz o dia a quem não ama
e o sabe. E ele escuta o tanger
curto e duro do corpo, a sua decrépita
canção, soando sempre a distância.
Fecha a porta e deixa-a bem fechada;
sai e, por um momento, cai de joelhos
ao chão. Mas a madrugada,
com perigosa generosidade,
o refresca e o ergue. Está muito clara
a sua rua, e palmilha-a com pé escuro,
e coxeia em seguida porque anda
apenas com a sua fadiga. E diz ar:
palavras mortas com a sua boca viva.
Prisioneiro por não querer, abraça
a sua própria solidão. E está seguro,
mais seguro do que ninguém porque nada
possuirá; e ele bem sabe que nunca
viverá aqui, na terra. A quem não ama,
como o podemos conhecer ou como
perdoá-lo? Dia longo e ainda mais longa
a noite. Mentirá ao tirar a chave.
Entrará. E nunca habitará a sua própria casa.


Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha

domingo, 23 de dezembro de 2012

Gustave Achille Guillaumet, Dans le désert, 1867.


Quando cheguei ao deserto, vi que tinha regressado.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Charles-François Daubigny, La neige, 1873

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pormenor da Catedral Notre Dame de Paris

Para me salvar,

esperei até petrificar o coração.
Sacré-Coeur

À saída, o mendigo
pedia com a mão de Deus.