sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Antonio Gamoneda, nova série, I

Huyes de ti para alcanzar verdades que no existieron nunca.

Hablas de un ave que atravesó tus sueños. Te engañas: tú, aun no siendo, eres su única realidad.

“La rosa es bella, ¿y para qué?”
                                         Así son las preguntas prendidas de tus labios; las grandes, las inútiles preguntas.

“Ignorar para ver”, dices también.
                                             Pero ¿qué ver? Tan sólo lograrás que la luz arda en tus ojos. Compréndelo:
no existe más que una palabra verdadera:                                                        

                                                         no.

*

Foges de ti para alcançar verdades que nunca existiram.

Falas de uma ave que atravessou os teus sonhos. Enganas-te: tu, ainda que não sendo, és a sua única realidade.

“A rosa é bela, e para quê?”
                                     Assim são as perguntas suspensas dos teus lábios; as grandes, as inúteis perguntas.

“Ignorar para ver”, dizes também.
                                              Mas, ver o quê? Conseguirás apenas que a luz arda nos teus olhos. 

        Compreende:
Só existe uma palavra verdadeira:                                              

                                              não.


Antonio Gamoneda,
de Canción Errónea, 2012.
 - trad. minha

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Crítica na Rock n'Heavy ao EP de estreia dos Daughters of Lot

Foi escrita por Rui Carneiro e pode ser lida aqui:

"The Daughters Of Lot, banda que junta cinco músicos de Alpiarça, e que conta já com três anos nestas lides, apresenta, depois de um interregno devido à saída do baixista, o EP de estreia: “Sulfur Rain Pours Onto Our Souls”.

De um cardápio que, possivelmente, não para de crescer, os músicos selecionaram três temas para este EP. As honras de abertura cabem a “The Suffering”, composição que, partindo de uma toada de melopeia saturniana, rapidamente evolui para uma sistematização cada vez mais presente e insinuante da paleta instrumental burilada por Miguel Fernandes, o “artifex” da banda. Não há barreiras na tessitura musical dos TDOL, até porque aquilo que flui do jogo de sedução entre voz e instrumentos é o desejo libidinoso pela desconstrução e eterna reformulação das linhas rítmicas e melódicas que radicam, evoluem e fenecem ao longo das pulsões e circunvalações de uma catarse feita de silêncios, interlúdios e irrupções, fulcro e ocaso de uma imagética em que “o prazer é uma deformação da dor”

A próxima, “The Edge Of a Lie”, confirma desígnios musicais que a banda classifica como “progressivos”, uma vez que é notória a preocupação em complexificar cada um destes “episódios”, construindo algo que se assemelha a uma filigrana musical, tal é o rigor no processo criativo, lapidando cada instante com a minúcia que o ourives dedica a uma jóia requintada.

“Sanctuary” encerra este tríptico musical, descarregando um manifesto de rock corrosivo. Miguel Fernandes puxa o som da bateria para a frente, violentando peles e tímpanos. As guitarras, que anteriormente deambulavam por paisagens etéreas e atmosféricas, ganham agora contornos ásperos e virulentos, semeando ondas de distorção em arrojos fulgurantes, voluptuosos e tonitruantes.

Assim sendo, a música dos TDOL parece comungar da conotação genesíaca que preside ao episódio bíblico que dá nome à banda. Profundamente humana, e por isso fatalmente marcada pelo desejo de transgressão, de consumação exacerbada da nossa volúpia ôntica: “As filhas de Lot fundam o seu território no enclave do desejo com o estímulo. O ébrio é para elas apurador de pulsões: transmissão e transfusão. As filhas de Lot privilegiam a obscuridade e mergulham o seu afecto nas próprias transgressões. Elas preparam a iridescência do que devém, são da ordem do fantasmático.” Na fração nebulosa, abismal e nefelibata, entre a perceção e a sensação, no limbo etéreo entre o sensível e o onírico evolui esta fantasmagoria musical: “Depois do incesto, enquanto o seu pai dorme, as filhas de Lot, nuas, sentam-se junto ao fogo e olham-se. A troca de olhares resulta em música.” Processo transfigurativo, o corpo do outro, maculado pela corrupção do desejo carnal, resolve-se sinestesicamente através da visão oblíqua do “eu” no “outro”, processo demiúrgico e dionisíaco que cria a arte.

Recordamos, a propósito, e para finalizar, as palavras do poema de Fernando Pessoa:

«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.

De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é»"

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

The Daughters of Lot - Sulfur Rain Pours Onto Our Souls (EP)


Na palma das suas mãos
os sulcos da vida são fundos como uma vingança:
definitivas são as suas carícias.



1. The Suffering
2. The edge of a lie
3. Sanctuary

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alejandra Pizarnik (I)

16

construíste a tua casa
emplumaste os teus pássaros
golpeaste o vento

terminaste sozinha
o que ninguém começou
 
Alejandra Pizarnik
- trad. minha

sábado, 4 de agosto de 2012

Wistawa Szymborska (II)

A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás por curiosidade.
Mas podem ter sido outras as razões.
Olhei para trás lamentando a perda do meu vaso de prata.
Descuidada, enquanto atava as sandálias.
Para que parasse de contemplar a nuca virtuosa
do meu marido, o pescoço de Lot.
Por causa da súbita convicção de que se eu caísse morta
ele nem sequer vacilaria.
Por causa da desobediência dos humildes.
Para certificar que não estávamos a ser seguidos.
Abalada pelo silêncio, acreditando que Deus mudasse de ideias.
As nossas duas filhas já tinham desaparecido atrás da colina.
Senti a idade dentro de mim. Distância.
A futilidade da peregrinação. Torpor.
Olhei para trás pousando o alforje.
Olhei para trás por não saber onde pôr os pés.
Serpentes apareceram no caminho,
aranhas, ratos do campo, abutres.
Não eram nem bons nem maus – cada ser vivo
arrastava-se simplesmente ou esperava com a mole em pânico.
Olhei para trás em desolação.
Com a vergonha de termos roubado.
Querendo chorar, ir para casa.
Ou apenas porque uma rajada de vento
despenteou-me o cabelo e levantou-me vestido.
Parecia que nos estavam a observar dos muros de Sodoma
rebentando em estrondosas gargalhadas uma e outra vez.
Olhei para trás em fúria.
Para saborear o seu terrível destino.
Olhei para trás por todas estas razões.
Olhei para trás involuntariamente.
Apenas porque uma pedra resvalou-me debaixo dos pés, rosnando para mim.
Por causa de uma súbita quebra no trilho.
Um roedor cambaleou nas suas patas dianteiras sobre o precipício.
Foi então que ambos olhámos para trás.
Não, não. Eu corri,
eu rastejei, eu levitei
até que a escuridão caiu dos céus
e com ela granizo abrasador e pássaros mortos.
Não conseguia respirar e girava e girava.
Quem quer que me visse pensaria que estava a dançar.
Não é inconcebível que os meus olhos estivessem abertos.
É possível que tenha caído encarando a cidade.




Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh

Wistawa Szymborska (I)

Nota de agradecimento

Devo tanto
àqueles que não amo.

O alívio com que reconheço
que eles são mais importantes para outros.

A felicidade de não ser
o lobo para as suas ovelhas.

A paz que sinto ao pé deles,
a liberdade –
isso o amor não mo pode dar
nem tirar.

Não fico à espera deles,
angustiada à janela.
Quase tão paciente
quanto um relógio de sol.
Compreendo
o que o amor não compreende,
e perdoo
o que o amor nunca perdoaria.

De um encontro até à chegada de uma carta
são só alguns dias ou semanas,
não uma eternidade.

As viagens com eles são sempre tranquilas,
concertos são ouvidos,
catedrais visitadas,
paisagens contempladas.

E quando sete colinas e sete rios
nos separam,
essas colinas e esses rios
podem ser encontrados em qualquer mapa.

Fico-lhes reconhecida
por viver a três dimensões,
num espaço sem lirismo e sem teorias
com um horizonte genuíno e inconstante.

Eles próprios não se apercebem
de quanto guardam nas suas mãos vazias.

“Não lhes devo nada”,
seria a resposta do amor
a esta pergunta aberta.


Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh

sábado, 21 de julho de 2012

Yannis Ritsos (IV e V)

Ela viu o belo ladrão
saltar
pela janela
Desde então
deixa a porta
escancarada
As jóias que sobraram
num lugar visível
Ele nunca regressou

Atenas, 9-5-78


*

Quando inalaste o perfume
de uma rosa
cresceste meio metro
agora não cabes
na porta
a noite veio
arrefeceu
apareceram as estrelas
os lobos vieram

Atenas, 29-2-80


Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Yannis Ritsos (III)

Assassinos Fictícios

Esta mulher – nem sequer sei como se chama – Catarina? Eurídice?
Agride-me roça a faca pelo meu pescoço
Sei que é uma faca de papel
Finjo estar morto entreabro os olhos
Vejo melhor assim
De noite levanto-me vou à loja do ferreiro com as suas ratazanas
Acendo a fogueira atiço-a com os grandes foles da igreja
Preparo as quatro ferraduras o cálice fundo
Afio a grande faca de dois gumes e entrego-lha

Em mãos secretamente voluptuosamente por baixo da almofada 

Atenas,  4-5-71

Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis

terça-feira, 17 de julho de 2012

Yannis Ritsos (II)

Consequências Desconhecidas 

Durante anos e anos ele ansiou ele despiu-se
diante de grandes e pequenos espelhos
diante de cada janela ele ensaiou cuidadosamente
uma e outra pose tentando decidir-se inventar
aquela que lhe fosse mais natural para que ele se tornasse
a estátua perfeita de si mesmo – ainda que soubesse
que as estátuas são frequentemente feitas
para os mortos e ainda mais frequentemente
para algum deus irreal e desconhecido 


Atenas, 17-3-71

Yannis Ritsos
- trad. minha a partir da versão em inglês de Manolis

sábado, 2 de junho de 2012

10 teses sobre a mistificação das potencialidades redentoras da poesia

1) A poesia não actua sobre o homem; ele é que actua por ela.

2) O poema não acrescenta o homem; o homem é que deixa alguma coisa no poema.

3) A poesia não redime; ela manifesta a necessidade de redenção. 

4) O poema é sintoma, não lenitivo.

5) O poema é a topologia de uma privação.

6) O poema não substitui o que, por estar ausente, é a causa da privação.

7) O poema ocupa o lugar da privação, mas não anula a privação.

8) O poema não é Deus; o poema é o lugar da ausência de Deus.

9) A poesia apela à redenção, é chamamento, não resposta.

10) A poesia quer estar próxima da redenção; não o querer seria estar mais longe.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tomas Tranströmer (II)

AGITATED MEDITATION

A storm drives the mill sails wildly round
in the night’s darkness, grinding nothing. -You
___are kept awake by the same laws.
The grey shark belly is your weak lamp.

Shapeless memories sink to the sea’s depths
and harden there to strange columns. -Green
___with algae is your crutch. A man
who takes to the seas comes back stiffened.

*

MEDITAÇÃO CONTURBADA

A tempestade abate-se um moinho move-se descontrolado
na escuridão da noite, moendo nada. – As
___mesmas leis te mantêm acordado.
O cinzento do ventre do tubarão é a tua lâmpada fraca.

Memórias informes descem às profundezas do oceano
e lá endurecem em colunas estranhas. – Verde
___e com algas é a tua muleta. Um homem
que vá para o mar regressa endurecido.

Tomas Tranströmer
- trad. minha (a partir da tradução inglesa de Robin Fulton)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Emily Dickinson IX

You'll know it — as you know 'tis Noon —
By Glory —
As you do the Sun —
By Glory —
As you will in Heaven —
Know God the Father — and the Son.

By intuition, Mightiest Things
Assert themselves — and not by terms —
"I'm Midnight" — need the Midnight say —
"I'm Sunrise" — Need the Majesty?

Omnipotence — had not a Tongue —
His lisp — is Lightning — and the Sun —
His Conversation — with the Sea —
"How shall you know"?
Consult your Eye!
*

Sabê-lo-ás – Tal como sabes que é Meio-Dia –
Pela sua Glória –
Como sabes do Sol –
Pela sua Glória –
Como no Céu –
Saberás Deus o Pai – e o Filho.

Pela intuição, as Coisas Imensas
Revelam-se – e não pelas premissas –
“Sou a Meia-noite” – precisa a Meia-noite de dizer? –
“Sou o Nascer do Sol” – Precisa sua Majestade?

Se Omnipotência – não tivesse Língua –
Ceceante – seria o Relâmpago – e o Sol? –
A sua Conversa – com o Mar –
“Como a conheceríamos”?
Pergunta ao teu Olho!


Emily Dickinson
- trad. minha

sábado, 19 de novembro de 2011

Emily Dickinson VIII

Some keep the Sabbath going to Church -
I keep it, staying at Home -
With a Bobolink for a Chorister -
And an Orchard, for a Dome -

Some keep the Sabbath in Surplice -
I just wear my Wings -
And instead of tolling the Bell, for Church,
Our little Sexton - sings.

God preaches, a noted Clergyman -
And the sermon is never long,
So instead of getting to Heaven, at last -
I'm going, all along.


*

Alguns cumprem o Sabbath indo à Igreja -
Eu cumpro-o ficando em Casa -
Com um Tordo por Corista -
E uma Orquídia a fazer de Cúpula -

Alguns cumprem o Sabbath de Batina -
Eu visto apenas as minhas Asas -
E em vez de tanger o Sino para a Celebração,
O nosso pequeno Sacristão – canta.

Deus prega, um Clérigo notável -
E o sermão nunca é muito longo,
E assim em vez de ir para o Céu, no fim -

Desde sempre estou indo.

Emily Dickinson
- trad. minha

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Emily Dickinson VII


Many a phrase has the English language –
I have heard but one –
Low as the laughter of a Cricket,
Loud, as the Thunder's Tongue –

Murmuring like old Caspian Choirs,
When the Tide's a' lull –
Saying itself in new inflection –
Like a Whippoorwill –

Breaking in bright Orthography
On my simple sleep –
Thundering its Prospective –
Till I stir, and weep –

Not for the Sorrow, done me –
But the push of joy –
Say it again, Saxon!
Hush – Only to me!

*

Muitas frases tem a língua Inglesa –
Mas só uma ouvi – 

Funda como o gargalhar de um Grilo –
Estrepitosa como a Língua do Trovão –

Sussurrante como os antigos Coros Cáspios
Quando as Marés serenam –
Dizendo-se a si mesmas em nova inflexão –
Como um Noitibó –

Surgindo em luminosa Ortografia
No meu sono leve –
Bradando a sua Expectativa –
Até eu me mexer, e chorar –

Não de Mágoa –
Mas do apertão da Alegria –
Di-la de novo, Saxão!
Depressa – Só para mim!


Emily Dickinson
- trad. minha

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Emily Dickinson VI

THESE are the days when Birds come back -
A very few - a Bird or two -
To take a backward look.

These are the days when skies resume
The old - old sophistries of June -
A blue and gold mistake.

Oh fraud that cannot cheat the Bee,
Almost thy plausibility
Induces my belief.

Till ranks of seeds their witness bear-
And softly through the altered air
Hurries a timid leaf.

Oh, sacrament of summer days,
Oh, last communion in the Haze -
Permit a child to join.

Thy sacred emblems to partake -
Thy consecrated bread to take
And thine immortal wine!

*

Estes são os dias em que os Pássaros regressam –
Pouquinhos – um Pássaro ou dois –
Para darem uma olhada no que ficou para trás.

Estes são os dias em que os céus retomam
Os velhos – velhos sofismas de Junho –
Um equívoco dourado e azul.

Oh fraude que não engana a Abelha –
Quase que a tua plausibilidade
Induzia a minha crença.

Até que renques de sementes seu testemunho dão –
E suavemente pelo céu revolvido
Apressa-se uma folha tímida.

Oh Sacramento dos dias de verão,
Oh Última Comunhão na Névoa –
Deixai que uma criança se junte.

Dos vossos emblemas sagrados partilhar –
Do vosso pão consagrado repartir
E do vosso vinho imortal!

Emily Dickinson
-trad. minha