quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Hunger


Hunger - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
 
Since you forsook me
And left me no meal
I’m starving
In a blaze that’s so thin

I can’t dig you, oh no
I can’t mow you, oh no
But I could carry you home
Squeezed

My passion proliferates in oblivion
The masks of hunger tanned by the sun

Supper’s on the table
Whine’s in the jar
When will our guests arrive?
The soup is cooling
Whine melting in
its vapours and its follies

Can you tell
Which one of these belongs to me

Hunger release your mastiffs and your teeth
Hunger, your fasts, your host, your scars,
The cream of slobber feeds the needs

Hunger, your pain, your waves, your whores
Are the masters of my beliefs
Swell is your sin

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Anne Carson (I)

Ensaio sobre aquilo em que mais penso

Erro.
E as suas emoções.
À beira do erro está a condição do medo.
No meio do erro está um espírito de loucura e de derrota.
A descoberta do erro é acompanhada de vergonha e remorso.
Ou não?

Vejamos.
Muitas pessoas incluindo Aristóteles pensam que o erro
é um evento mental interessante e útil.
Na discussão sobre a metáfora na sua Retórica
Aristóteles afirma existirem três tipos de palavras.
Estranhas, vulgares e metafóricas.

“Palavras estranhas confundem-nos;
palavras vulgares exprimem o que já sabemos;
é através da metáfora que alcançamos alguma coisa nova e revigorante”
(Retórica, 1410b10-13.)
Em que consiste a novidade da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora torna a mente consciente de si mesma

no momento de cometer um erro.
Ele imagina a mente a mover-se através de uma superfície lisa
de linguagem vulgar
quando de repente
a superfície quebra-se e complica-se.
Surge o inesperado.

De início parece esquisito, contraditório ou errado.
Depois começa a fazer sentido.
E nessa altura, de acordo com Aristóteles,
a mente vira-se para si mesma e diz:
“Tão acertado, e ainda assim eu confundi-o!”
Dos verdadeiros equívocos da metáfora pode-se aprender uma lição.

Não apenas que as coisas são diferentes do que parecem,
e portanto as confundimos,
mas que tais equívocos são úteis.
Atentemos, diz Aristóteles,
há aqui muito que ver e que sentir.
A metáfora ensina a mente

a gozar o erro
e a aprender
a justaposição daquilo que é e daquilo que não é assim.
Há um provérbio chinês que diz,
O pincel não pode desenhar dois caracteres na mesma pincelada.
E ainda assim

isso é exactamente o que um bom erro faz.
Por exemplo.
Há um fragmento de um antigo poema grego
que tem um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2 + 2 = 4.

Fragmento 20 de Alcman:
    [?] fez três estações, verão
    e inverno e outono em terceiro
    e em quarto a primavera quando
    há floração mas para comer o suficiente
    não há.


Alcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Esparta era um país pobre
e é pouco provável
que Alcman tivesse vivido uma vida saudável e nutrida.
Este facto está na origem das suas observações
que vão desembocar na fome.

A fome dá sempre a sensação
de ser um erro.
Alcman faz-nos sentir esse erro
com ele
através do recurso a um efectivo erro de cálculo.
Para um miserável poeta espartano sem alimentos

na despensa
no final do inverno –
chega a primavera
como uma reconsideração da economia natural,
quarta na série de três,
desequilibrando a sua aritmética

e elevando o verso.
O poema de Alcman irrompe a meio caminho pela métrica jâmbica
sem explicar
de onde veio a primavera
ou porque é que os números não nos ajudam
a controlar melhor a realidade.

Há três coisas de que gosto no poema de Alcman.
Em primeiro lugar o facto de ser pequeno,
leve
e mais do que perfeitamente económico.
Em segundo lugar por sugerir cores como verde-claro
sem as nomear.

Em terceiro lugar porque traz para primeiro plano
algumas questões metafísicas importantes
(como Quem fez o mundo)
sem análise manifesta.
Reparem que o verbo “fez” no primeiro verso
não tem sujeito: [?]

É muito invulgar no grego
um verbo sem sujeito, na verdade
é um erro gramatical.
Os filólogos dir-nos-ão
que este erro é só um acidente de transmissão,
que o poema tal como o recebemos

é seguramente um fragmento retirado
de um texto maior
e que Alcman certamente
nomeou o agente de criação
no versos que precedem os que aqui temos.
Bem, pode ser.

Mas como sabem, o objectivo principal da filologia
é reduzir todo o encantamento textual
a um acidente histórico.
E eu não sou favorável a qualquer reivindicação de se conhecer
exactamente o que o poeta quis dizer.
Por isso deixemos o ponto de interrogação

no início do poema
e admiremos a coragem de Alcman
por confrontar-se com o que está entre parêntesis.
A quarta coisa de que gosto
no poema de Alcman
é a impressão que ele dá

de expressar a verdade sem ela disso se aperceber.
Muitos poetas aspiram
a este tom de lucidez inadvertida
mas em poucos ele é tão genuíno como em Alcman.
É óbvio que a sua simplicidade é falsa.
Alcman não é simples de todo,

ele é um mestre do enredo –
ou o que Aristóteles chamaria um “imitador”
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o termo de Aristóteles para os verdadeiros erros da poesia.
O que eu gosto neste termo

é a facilidade com que ele aceita
que o que nos fascina quando fazemos poesia é um erro,
a consciente invenção do erro,
o deliberado ímpeto e complexificação dos erros
dos quais pode sobrevir
o imprevisível.

Assim um poeta como Alcman
esquiva-se ao medo, à ansiedade, à vergonha e ao remorso
e a todas as outras emoções patetas associadas ao acto de cometer erros
de maneira a atingir
a verdade dos factos.
A verdade dos factos para os humanos é a imperfeição.

Alcman quebra as regras da aritmética
e ameaça a gramática
e joga com a forma gramatical do seu verso
de maneira a revelar-nos esse facto.
No final do poema o facto permanece
e Alcman não está menos esfomeado.

No entanto alguma coisa mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois enganando-as,
Alcman aperfeiçoou alguma coisa.
De facto ele fez mais
do que aperfeiçoá-la.
Dando apenas uma pincelada.

Anne Carson, Men in the Off Hours
Tradução: João Moita

Antonio Gamoneda (XII)


O leite entra nas profundidades côncavas, o leite urdido nos rosados úberes de grandes vacas silenciosas. São torpes as vacas silenciosas. Fazem, porém, doação muito branca
à paixão enferma
de viver.

Viver: avançar cegamente
para o grande sono branco.

Suportado por mãos inocentes, sempre
o leite desce do cântaro habitado por sombras
até à fraternidade do pão no seu leito de vimes
e na sua descida traz uma assistência que convém ao cansaço
do nosso corpo transitivo.

                                                Jan Vermeer
pôs nas mãos de uma antiga rapariga
estas suaves matérias que nos perdoam e
nos permitem repousar vertebrados, desconhecer, mentir,
envelhecer,
ignorar por algum tempo a afiada pureza
dos limites.



Antonio Gamoneda, Canción Errónea
Tradução: João Moita

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Vicente Huidobro (I)

Prefácio

Nasci aos trinta e três anos, no dia da morte de Cristo; nasci no Equinócio, debaixo das hortênsias e dos aviões do calor.
Tinha um profundo olhar de borracho, de túnel e de automóvel sentimental. Lançava suspiros de acrobata.
O meu pai era cego e as suas mãos eram mais admiráveis do que a noite.
Amo a noite, chapéu de todos os dias.
A noite, a noite do dia, do dia ao dia seguinte.
A minha mãe falava como a alvorada e como dirigíveis a despenharem-se. Tinha cabelos cor de bandeira e olhos cheios de navios distantes.
Uma tarde peguei no meu pára-quedas e disse: «Entre uma estrela e duas andorinhas». Eis a morte que se aproxima como a terra se aproxima do balão que cai.
A minha mãe bordava lágrimas desertas nos primeiros arco-íris.
E agora o meu pára-quedas cai de sonho em sonho pelos espaços da morte.
Ao primeiro dia encontrei um pássaro desconhecido que me disse: «Se eu fosse dromedário não teria sede. Que horas são?» Bebeu as gotas de orvalho do meu cabelo, lançou-me três olhares e meio e afastou-se dizendo: «Adeus», com o seu lenço soberbo.
Por volta das duas, naquele dia, encontrei um avião precioso, cheio de escamas e caracóis. Procurava um recanto do céu onde resguardar-se da chuva.
Ao longe, todos os barcos ancorados nas tintas da alvorada. De repente, começaram a desprender-se, um a um, arrastando-se como estandarte em farrapos de incontestável alvorada.
Com a retirada dos últimos, a alvorada desapareceu por trás de algumas ondas desmesuradamente infladas.
Então, ouvi falar o Criador, sem nome, que é um simples buraco no vazio, belo como um umbigo:
«Fiz um grande ruído e esse ruído formou o oceano e as ondas do oceano.
«Esse ruído estará sempre colado às ondas do mar e as ondas do mar estarão sempre coladas a ele, como os selos aos bilhetes-postais.
«Depois teci um longo barbante de raios luminosos para coser os dias um a um; os dias que têm um oriente legítimo ou reconstituído, porém indiscutível.
«Depois tracei a geografia da terra e as linhas da mão.
«Depois bebi um pouco de conhaque (por causa da hidrografia).
«Depois criei a boca e os lábios da boca, para aprisionar os sorrisos equívocos, os dentes da boca, para vigiar os disparates que nos vêm à boca.
«Criei a língua da boca que os homens desviaram do seu papel, fazendo-a aprender a falar…, a ela, ela, a bela nadadora, desviada para sempre do seu papel aquático e puramente acariciador.»
O meu pára-quedas começou a cair vertiginosamente. Tal é a força de atracção da morte e do sepulcro aberto.
Podeis crê-lo, o túmulo tem mais poder do que os olhos da amada. O túmulo aberto com todos os seus ímanes. E isto to digo a ti, a ti que quando sorris fazes pensar no princípio do mundo.
O meu pára-quedas enredou-se numa estrela apagada que seguia a sua órbita conscienciosamente, como se ignorasse a inutilidade dos seus esforços.
E aproveitando este repouso bem merecido, comecei a encher com profundos pensamentos as casas do meu tabuleiro:
«Os verdadeiros poemas são incêndios. A poesia propaga-se por todo o lado, iluminando as suas consumações com estremecimentos de prazer ou de agonia.
«Deve-se escrever numa língua que não seja materna.
«Os quatro pontos cardeais são três: o sul e o norte.
«Um poema é uma coisa que será.
«Um poema é uma coisa que nunca foi, que nunca poderá ser.
«Foge do sublime externo se não queres morrer esmagado pelo vento.
«Se eu não fizesse pelo menos uma loucura por ano, daria em doido.»
Pego no meu pára-quedas, e da ponta da minha estrela em marcha lanço-me à atmosfera do último suspiro.
Rolo interminavelmente sobre as rochas dos sonhos, rolo entre as nuvens da morte.
Encontro a Virgem sentada numa rosa, e diz-me:
«Observa as minhas mãos: são transparentes como as lâmpadas eléctricas. Vês os filamentos de onde escorre o sangue da minha luz intacta?
«Observa a minha auréola. Tem algumas lascas, o que prova a minha ancianidade.
«Sou a Virgem, a Virgem sem mancha de tinta humana, a única que não o é pela metade, e sou a capitã das outras onze mil que estavam na verdade demasiado restauradas.
«Falo uma língua que enche os corações segundo a lei das nuvens comunicantes.
«Digo sempre adeus, e fico.
«Ama-me, meu filho, pois adoro a tua poesia e ensinar-te-ei proezas aéreas.
«Tenho tanta necessidade de ternura, beija-me os cabelos, lavei-os esta manhã nas nuvens da alba e agora quero dormir sobre o colchão da neblina intermitente.
«As minhas lágrimas são um arame no horizonte para o descanso das andorinhas.
«Ama-me.»
Pus-me de joelhos no espaço circular e a Virgem ergueu-se e veio sentar-se no meu pára-quedas.
Adormeci e recitei então os meus poemas mais belos.
As chamas da minha poesia secaram os cabelos da Virgem, que me agradeceu e se afastou, sentada sobre a sua rosa tenra.
E eis-me aqui, só, como o pequeno órfão dos naufrágios anónimos.
Ah, que bonito…, que bonito.
Vejo as montanhas, os rios, as selvas, o mar, os barcos, as flores e os caracóis.
Vejo a noite e o dia e o eixo em que se juntam.
Ah, ah, sou Altazor, o grande poeta, sem cavalo que coma alpista, nem que aqueça a sua garganta com o brilho da lua, mas com o meu pequeno pára-quedas como um guarda-sol sobre os planetas.
De cada gota de suor da minha testa fiz nascer astros, os quais vos deixo para que os baptizem como a garrafas de vinho.
Estou a perceber tudo, tenho o meu cérebro forjado em línguas de profeta.
A montanha é o suspiro de Deus, subindo em termómetro inflado até tocar os pés da amada.
Aquele que tudo viu, que conhece todos os segredos sem ser Walt Whitman, pois jamais teve uma barba branca como as belas enfermeiras e os riachos gelados.
Aquele que ouve durante a noite os martelos dos moedeiros falsos, que são unicamente astrónomos activos.
Aquele que bebe o copo quente da sabedoria depois do dilúvio obedecendo às pombas e que conhece a rota da fadiga, o sulco fervente que deixam os barcos.
Aquele que conhece os armazéns de recordações e de belas estações esquecidas.
O pastor, o pastor de aviões, o condutor das noites extraviadas e dos poentes amestrados até aos pólos únicos.
A sua queixa é semelhante a uma rede pestanejante de aerólitos sem testemunha.
O dia levanta-se no seu coração e ele desce as pálpebras para fazer a noite do repouso agrícola.
Lava as suas mãos no olhar de Deus, e penteia os seus cabelos como a luz e a colheita dessas frágeis espigas da chuva satisfeita.
Os gritos afastam-se como um rebanho sobre as colinas quando as estrelas dormem depois de uma noite de trabalho contínuo.
O belo caçador diante do bebedouro celeste para os pássaros sem coração.
Sê triste tal qual as gazelas ante o infinito e os meteoros, tal qual os desertos sem miragens.
Até à chegada de uma boca inflada de beijos para a vindima do deserto.
Sê triste, pois ela te espera num recanto deste ano que passa.
Está, talvez, no extremo da tua canção próxima e será bela como cascata em liberdade e rica como a linha equatorial.
Sê triste, mais triste do que a rosa, a bela jaula dos nossos olhares e das abelhas sem experiência.
A vida é uma viagem em pára-quedas e não o que queres crer.
Vamos a cair, a cair do nosso zénite ao nosso nadir, e deixamos o ar machado de sangue para que se envenenem os que vierem amanhã respirá-lo.
Para dentro de ti mesmo, para fora de ti mesmo, cairás do zénite ao nadir porque esse é o teu destino, o teu miserável destino. E de quanto mais alto caíres, mais alto será o ressalto, mais longa a tua duração na memória da pedra.
Saltámos do ventre da nossa mãe ou da ponta de uma estrela e vamos a cair.
Ah meu pára-quedas, a única rosa perfumada da atmosfera, a rosa da morte, despenhada entre os astros da morte.
Ouviste? Esse é o ruído sinistro dos peitos fechados.
Abre a porta da tua alma e sai para respirar do lado de fora. Podes abrir com um suspiro a porta que o furacão tiver fechado.
Homem, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como a vertigem.
Poeta, aqui está o teu pára-quedas, maravilhoso como o íman do abismo.
Mago, aqui está o teu pára-quedas que uma palavra tua pode converter num pára-subidas maravilhoso como o relâmpago que quis cegar o criador.
De que estás à espera?
Mas eis o segredo do Tenebroso que se esqueceu de sorrir.
E o pára-quedas aguarda amarrado à porta como o cavalo da fuga interminável.

Vicente Huidobro, Altazor
Tradução: João Moita

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Antonio Gamoneda (XI)

Reconheço-te ainda que te escondas sob a pele do ébano.
Finges amor até criares um verdadeiro amor
e estás a amar em mim. Reconheço-te.

Gemes como um cão ferido. Lembras-te
de quando te deitavas sobre o meu coração? Agora,
insone na morte, vieste
para comprar os meus olhos. Assim
é a tua causa, a tua astúcia curdistã.

Procuras os teus documentos incestuosos, as tuas profecias na virtude da epilepsia
e aquela sabedoria que permite
ser feliz no fogo.

Cunhavas moedas unicamente válidas
nos mercados de frutos e de trevas,
mas não adquiririas outros frutos a não ser os que ardem no corpo das tuas irmãs
e também e tão somente trevas maternais.

Ah os frutos e as trevas nas tuas mãos,
mercantilmente triste ou acidentalmente vivo
em Nova York ou Nasría.

                                    És belo e horrível.
Tu induzes-me ao adultério com corpos esfolados
e à fornicação sobre a púrpura.

Não posso abandonar-te, no entanto, à tua própria inclemência:
estás a sonhar os meus sonhos
e amas em mim o que não é teu.

Bebeste em mananciais cegos e ergueste-te
na demência. Em rigor, não preciso de ti: há extravio suficiente em mim.

Mas tu és o meu sacramento negro, a última
substância das minhas veias.


Antonio Gamoneda, Canción Errónea
Tradução: João Moita

domingo, 10 de novembro de 2013

César Vallejo (I)

XIII

Pienso en tu sexo.
Simplificado el corazón, pienso en tu sexo,
ante el hijar maduro del día.
Palpo el botón de dicha, está en sazón.
Y muere un sentimiento antiguo
degenerado en seso.

Pienso en tu sexo, surco más prolífico
y armonioso que el vientre de la sombra,
aunque la muerte concibe y pare
de Dios mismo.
Oh Conciencia,
pienso, si, en el bruto libre
que goza donde quiere, donde puede.

Oh escándalo de miel de los crepúsculos.
Oh estruendo mudo.

¡Odumodneurtse!


XIII

Penso no teu sexo.
Simplificado o coração, penso no teu sexo,
ante a madura virilha do dia.
Apalpo o rebento da dita, está no ponto.
E morre um sentimento antigo
de degenerado siso.

Penso no teu sexo, sulco mais prolífico
e harmonioso que o ventre da sombra,
ainda que a morte conceba e germine
do próprio Deus.
Oh consciência,
penso, sim, no bruto livre
que goza onde quer, onde pode.

Oh escândalo de mel dos crepúsculos.
Oh estrondo mudo.

Odumodnortse!


César Vallejo, Trilce, 1922.
Tradução: João Moita

domingo, 3 de novembro de 2013

Guillaume de Machaut [séc. XIV]

[...]

Après ce, vint une merdaille
Fausse, traïtre et renoïe:
Ce fu Judée la honnie,
La mauvaise, la desloyal,
Qui bien het et aimme tout mal.
Qui tant donna d’or et d’argent

Et promist a crestienne gent,
Que puis, rivieres et fonteinnes
Qui estoient cleres et seinnes
En pluseurs lieus empoisonnerent,
Dont pluseurs leurs vies finerent;
Car trestuit cil qui en usoient
Assez soudeinnement moroient.
Dont, certes, par dis fois cent mille
En morurent, qu’a champ, qu’a ville,
Einsois que fust aperceüe
Ceste mortel descouvenue.

Mais cils qui haut siet et loing voit,
Qui tout gouverne et tout pourvoit,
Ceste traïson plus celer
Ne volt, eins la fist reveler
Et si generaument savoir
Qu’il perdirent corps et avoir.
Car tuit Juïf furent destruit,
Li uns pendus, li autres cuit,
L’autre noié, l’autre ot copée
La teste de hache ou d’espée.
Et meint crestien ensement
En morurent honteusement.

 

*

[...]

Posto o que, veio uma escumalha
Falsa, traidora e infame:
A Judiaria maldita,
A perversa, a desleal,
Que muito odeia e que ama o mal,
Que tanta prata e ouro deu
E promessas fez aos cristãos,
Para depois rios e fontes
Que límpidos corriam e sãos
Em vários lugares envenenarem,
Para muitos suas vidas perderem;
Que logo que alguém os buscava
Logo a morte súbita os tomava.
Pois que dez vezes cem mil vidas
Neles pereceram, no campo e na vila.
E assim foi sofrido
Este funesto infortúnio.

Mas o de alto assento e larga vista,
Que tudo governa e a tudo providencia,
A essa traição ocultar mais
Não quer, pois a fez revelar
E tão comummente saber
Que eles perderam corpo e fortuna.
Pois todo o Judeu foi destruído,
Enforcados uns, queimados outros,
A este afogaram, àquele deceparam
A cabeça com o machado ou com a espada.
E desta forma morreram também
Muitos cristãos dignos de desdém.

Guillaume de Machaut, Jugement du Roy de Navarre, 1349.
Tradução: João Moita

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Claudio Rodríguez (V)

Siempre será mi amigo

Siempre será mi amigo será mi amigo no aquel que en primavera
sale al campo y se olvida entre el azul festejo
de los hombres que ama, y no ve el cuero viejo
tras el nuevo pelaje, sino tú, verdadera

amistad, peatón celeste, tú, que en el invierno
a las claras del alba dejas tu casa y te echas
a andar, y en nuestro frío hallas abrigo eterno
y en nuestra honda sequía la voz de las cosechas

*

Sempre será meu amigo


Sempre será meu amigo não aquele que na primavera
sai para o campo e se distrai por entre o azul festivo
dos homens que ama, e não vê a couraça velha
por baixo do novo pelame, mas tu, verdadeira

amizade, peão celeste, tu, que no inverno
sob a claridade da alba deixas a tua casa e te pões
a andar, e no nosso frio descobres abrigo eterno
e na nossa seca profunda a voz das colheitas.


Claudio Rodríguez, Conjuros
- trad. minha

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Saint-John Perse (IV)

4

Tu t'en venais, rire des eaux, jusqu'à ces aîtres du terrien.
Au loin l'averse traversée d'iris et de faucilles lumineuses s'ouvrait la charité des plaines; les porcs sauvages fouillaient la terre aux masques d'or; les vieillards attaquaient au bâton les vergers; et par-dessus les vallons bleus peuplés d'abois, la corne brève du messier rejoignait dans le soir la conque du mareyeur. Des hommes avaient un bruant jaune dans une cage d'osier vert.
Ah qu'un plus large mouvement des choses à leur rive, de toutes choses à leur rive et comme en d'autres mains, nous aliénât enfin l'antique Magicienne: la terre et ses glands fauves, la lourde tresse circéenne, et les rousseurs du soir en marche dans nos prunelles domestiques!
Une heure avide s'empourprait dans les lavandes maritimes. Des astres s'éveillèrent dans la couleur des menthes du désert. Et le Soleil du pâtre, à son déclin, sous les huées d'abeilles, beau comme un forcené dans les débris de temples, descendit aux chantiers vers les bassins de carénage.
Là s'avinaient, parmi les hommes de labour et les forgerons de mer, les étrangers vainqueurs d'énigmes de la route. Là s'échauffait, avant la nuit, l'odeur de vulve des eaux basses. Les feux d'asile rougeoyaient dans leurs paniers de fer. L'aveugle décelait le crabe des tombeaux. Et la lune au quartier des pythonisses noires
Se grisait d'aigres flûtes et de clameurs d'étain: «Tourment des hommes, feu du soir! Cent dieux muets sur leurs tables de pierre! Mais la mer à jamais derrière vos tables de famille, et tout ce parfum d'algue de la femme, moins fade que le pain des prêtres... Ton cœur d'homme, ô passant, campera ce soir avec les gens du port, comme un chaudron de flammes rouges sur la proue étrangère.»
Avis au Maître d'astres et de navigation.


*

4

Daí vinhas, riso das águas, até às dependências do latifundiário.
Ao longe o aguaceiro atravessado de lírios e de foices luminosas abria para si a caridade das planícies; os porcos selvagens remexiam a terra com máscaras de ouro; os velhos assaltavam à bengalada os pomares; e por cima dos vales azuis povoados de latidos, o corno breve do vigieiro reunia-se ao anoitecer à vasta concha do peixeiro… Os homens tinham um verdelhão amarelo numa gaiola de vime verde.
Ah! que um mais amplo movimento das coisas na sua margem, de todas as coisas na sua margem e como vindo de outras mãos, nos alheasse por fim da antiga Maga: a Terra e as suas bolotas fulvas, a pesada trança de Circe e as sardas da tarde em marcha nos abrunhos domésticos!
Uma hora ávida ruborizava-se nas lavandas marítimas. Os astros despertavam na cor das hortelãs do deserto. E o Sol do pastor, no seu declínio, sob os apupos das abelhas, belo como um encolerizado nas ruínas dos templos, descia aos estaleiros em direcção aos tanques da querenagem.
Lá se avinhavam, entre os homens de trabalho e os ferreiros do mar, os estrangeiros vencedores de enigmas da estrada. Lá se excitava, antes do anoitecer, o odor a vulva das marés baixas. Os fogos de asílido enrubesciam nos seus cabazes de ferro. O cego descobria o caranguejo dos sepulcros. E a lua no covil das pitonisas negras
Embevecia-se com amargas flautas e com clamores de estanho: «Tormento dos homens, fogo da noite! Cem deuses mudos sobre suas mesas de pedra! Mas o mar para sempre atrás das vossas mesas de família, e todo o seu perfume de alga da mulher, menos insonso que o pão dos sacerdotes… Teu coração de homem, ó transeunte, acampará esta noite com as gentes do porto, como um caldeirão de chamas rubras sobre a proa estrangeira.»
Advertência ao Mestre de astros e de navegação.


Saint-John Perse, Amers, Strophe I-4
- trad. minha

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Gamoneda (X)

A tua solidão é ávida. A tua palidez brota de ti e divide-se em longas medulas. À tua volta não vês mais do que a ti mesmo.

Como o animal que mastigou a sua placenta e como as galinhas que o rodeiam com olhos giratórios, de ambas as formas estás sujo em ti e ao teu redor.

Porque cospes dentro da tua alma? Mentes no depoimento. Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Se o teu coração pesasse nas suas insígnias, se a tua riqueza fosse o teu cansaço, aceitarias respirar, descansarias de ti mesmo.

Eu, nos manjares que antecedem a morte, encontro a minha lucidez. Não são mais lascivos que as tuas lágrimas.

Sinto a minha qualidade nua no seu interior. É líquida e hei-de fechar os olhos.

A aversão vagueia como um cão amarelo mas a minha nudez trabalha na piedade

e sobrevém como leite fervido.

Tu expandes fluxo de outra forma: cheiras a tua enfermidade noutros corpos. Ninguém virá com uma luz sobre as tuas chagas.

As tuas unhas são azuis sobre a mesma madeira que outros – os mais cansados – pulem cada crepúsculo, quando se lavam mortos nos pátios e se recebe a serenidade.

A minha nudez é líquida até reflectir os rostos dos suicidas e os mendigos dormem longos sonos com os seus ouvidos postos no meu ventre e porventura escutam a ira das suas mães mas dormem.

Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Antonio Gamoneda, Descripción de la mentira
- trad. minha

domingo, 13 de outubro de 2013

Felonia (Jorge Melícias/Miguel Fernandes)

Felonia - poemas e leitura: Jorge Melícias / música: Miguel Fernandes

sábado, 12 de outubro de 2013

Traições (Georg Trakl, Antonio Gamoneda, João Moita)

GESANG DES ABGESCHIEDENEN

An Karl Borromäus Heinrich

Voll Harmonien ist der Flug der Vögel. Es haben die grünen Wälder
Am Abend sich zu stilleren Hütten versammelt;
Die kristallenen Weiden des Rehs.
Dunkles besänftigt des Plätschern des Bachs, die feuchten Schatten

Und die Blumen des Sommers, die schön in Winde läuten.
Schon dämmert die Stirne dem sinnenden Menschen.  

Und es leuchtet ein Lämpchen, das Gute, in seinem Herzen
Und der Frieden des Mahls; denn geheiligt ist Brot und Wein
Von Gottes Händen, und es schaut aus nächtigen Augen
Stille dich der Bruder an, daß er ruhe von dorniger Wanderschaft.
O das Wohnen in der beseelten Bläue der Nacht.

Liebend auch umfängt das Schweigen im Zimmer die Schatten der Alten,
Die purpurnen Martern, Klage eines großen Geschlechts,
Das fromm nun hingeht im einsamen Enkel.

Denn strahlender immer erwacht aus schwarzen Minuten des Wahnsinns
Der Duldende an versteinerter Schwelle
Und es umfängt ihn gewaltig die kühle Bläue und die leuchtende Neige des Herbstes,

Das stille Haus und die Sagen des Waldes,
Maß und Gesetz und die mondenen Pfade der Abgeschiedenen.



Georg Trakl

*

Canción del solitario

Cargado de armonía está el vuelo de los pájaros. En las praderas cristalinas de los ciervos, los verdes bosques se reúnen al atardecer en torno a cabañas silenciosas.

La oscuridad hace más tenue el murmullo de las aguas. Vienen húmedas sombras

y, melodiosas en el viento, vienen también las flores del verano.

Ya anochece en la frente de hombre pensativo y una llama de bondad arde en su corazón.

Es la paz de la cena: el pan y el vino están benditos por las manos de Dios

y, en silencio, con sus ojos nocturnos, tu hermano te mira y descansa de los caminos espinosos.

Ah vivir en el azul y en el espíritu de la noche.

En las habitaciones, el silencio rodea con amor las sombras de los antepasados,

los martirios purpúreos, el lamento de una estirpe

que, piadosa, se extingue en el descendiente solitario.

En el umbral de piedra el enfermo despierta de los negros instantes de la locura

y le rodean la frescura azul, el luminoso final del otoño,

el sosiego de la casa y las leyendas del bosque.

Ésta es la medida y la costumbre, así son los caminos lunares

de quienes se retiran a las cercanías de la muerte.



Antonio Gamoneda

*

Canção do solitário

Oculto na harmonia é o voo das aves. Ao crepúsculo, em cristalinos prados violados pela corça, sobem glaucos bosques às cabanas silenciosas.

Débil na escuridão é o rumor das águas. E as sombras húmidas

e as flores do verão são tangidas pelo vento.

Esplende na noite a cabeça do homem pensativo e a chama ténue do decoro arde no seu coração.

Serenidade da ceia; porque o pão e o vinho estão sobre a mesa às mãos de Deus

e o teu irmão contempla-te do silêncio nocturno dos seus olhos, descansando das aflições do caminho.

Oh, era uma morada celeste na medula da noite.

Nos quartos, engolidos pelo silêncio em haustos de ternura, a sombra dos antepassados, os martírios fulvos,

o lamento piedoso de uma estirpe que se extingue com o seu último descendente.

Das negras horas da loucura, em umbrais de pedra, desperta mais radioso aquele que sofre,
e é cercado com força pelo azul do orvalho, pelo resplandecente declinar do outono,

pelo sossego da casa e pelas lendas do bosque.

Eis a medida e o preceito, assim se ocultam os caminhos

daqueles que se afastam na desmesurada paixão da morte.


João Moita
- traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl

sábado, 5 de outubro de 2013

Saint-John Perse (III)


IV

Com este louvor serás tu cingido, ó Mar, por um louvor sem ofensa.
Com este convite serás o hóspede do qual convém silenciar os méritos.
E do Mar, ele mesmo, não se falará, mas do seu reinado no coração dos homens:
Como está certo, na petição ao Príncipe, interpor o marfim ou até o jade
Entre a face suserana e o louvor cortesão.

Eu, inclinando-me em vossa honra numa inclinação sem baixeza,
Esgotarei a minha reverência e o balanço do corpo;
E o fumo do prazer esfumará a cabeça do fervoroso,
E a delícia do melhor dito engendrará a graça do sorriso…

E com tal saudação serás saudado, ó Mar, que dela nos lembraremos por muito tempo como de um folguedo do coração.

Saint-John Perse, Amers
- trad. João Moita

domingo, 8 de setembro de 2013

Charles Francois Daubigny, Les Sablières près de Valmondois, 1872.

Primavera: indomável florescência dentro dos frágeis canais da sede, violência interior da seiva, explosão latente da flora sob a acção centrífuga do sol, carnificina autofágica da terra. Corolas banhadas a ouro e sangue sob a embriaguez dos insectos de lenta combustão, corolas púdicas com as quais a terra se deita abraçando raízes lúbricas, corolas que enegrecem as mãos. Cisternas da noite onde apodrece o orvalho intenso da corrupção.

sábado, 7 de setembro de 2013

Cada vez mais e mais campo lavrado, mais e mais terra revolvida: os homens preparam já a sua ofensiva à Primavera. Também eu penso que a posse é uma devastação e desconfio de tudo o que germina espontaneamente. Não há génio onde o génio não pôs a mão.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Entra o rio pela janela e a noite húmida de horizontes enche a casa de aluimentos. Entra o rumor do mundo e o halo tenso dos astros. Tenho a casa suspensa do apagamento, os pés indecisos no umbral. Espero até que enraíze a exaustão.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Uma nuvem tardia pende sobre as nossas cabeças. No cimo da encosta, retraem-se as árvores completamente vestidas: vergarão hoje nos seus fatos de gala, haverá lama entre as folhas e ramos entupidos de seiva flutuarão no rio. Também eu celebrarei hoje o centro da tempestade com as minhas mãos imprevistas pressionando o vento.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pieter Brueghel, o velho, Paisagem com a queda de Ícaro, circa 1558

Os campos ontem lavrados são hoje acometidos por dezenas de garças que ciscam os despojos. Quando for eu a fazer a minha razia, terei o cuidado de deixar o que lhes atice as asas. A fome quer-se inflamável.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O Bom Pastor, fresco da catacumba de S. Calisto, séc. III d.C.

Manhã solar. À beira dos caminhos-de-ferro, digladiam-se em seus jogos de morte flores e mariposas. Nos meus ouvidos, Vivaldi afia as suas facas e, nos campos, o gosto amargo da maturação incensa a Primavera. Pastor, embota o teu cajado.

domingo, 1 de setembro de 2013

No estendal, a ousada lingerie de uma mulher da vida desperta desejos matinais. Da mesma forma, este que escreve expõe as suas vergonhas. Húmido e sórdido é o sonho.

sábado, 31 de agosto de 2013

O comboio abre caminho pelo verdura no centro da paisagem. Há papoilas nas ribanceiras, há árvores no topo em desafio: também eu era corajoso se me prendesse a terra. Chegamos ao Vale, penúltima estação. Há cães e casas e a fundura do rio para os que acusam a depressão. Há ao longe a ponte para os que se julgam Deus e querem descer aos homens. Há o comboio e a soleira da última estação. Santarém.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Nos envelopes, as cartas que me escreveste são os meus armários cheios de sombra. De alguma maneira, Antonio, ajudam-me a ser humilde e um guardião menos inábil do sorriso daquela que amo. Nada mais peço à amizade.
Jean-François Millet, Pastora com o seu rebanho, 1864.

Um rebanho pasta ao entardecer: terras abençoadas pela saciedade. Sono leve, sono leve.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Relógios de estação: metrónomos encravados no compasso de nenhuma música. Nesta hora em que o sol se alinha com a terra e se divide no horizonte, os relógios perdem a sombra dos ponteiros. Estão certos como Deus.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Fizeram-me o encómio e alguém estranhou. Estava certo e fez bem em humilhar-me. Mas fez mais pela minha humildade quem me propalou. De todas, a dívida da gratidão é a mais humilhante, porque impagável.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Claudio Rodríguez (IV)

Elevada Jorna

Ditoso aquele que um belo dia sai humilde
e vai pelas ruas, como em tantos outros
dias da sua vida, e nada espera
e, de repente, que é isto?, olha para cima
e vê, atenta no mundo e escuta,
anda, e sente subir-lhe pelos passos
o amor da terra, e prossegue, e abre
a sua oficina verdadeira, e nas suas mãos
brilha limpo o seu ofício, e no-lo entrega
de coração porque ama, e tremendo entrega-se
ao trabalho como criança que comunga
mas sem caber no seu corpo, e quando
se apercebe por fim de como tudo
foi simples, já com a jorna ganha,
regressa alegre a sua casa e sente que alguém
segura a aldraba da sua porta, e não é em vão.

Claudio Rodríguez, Conjuros

- trad. minha
Quando murcham, as flores declinam: pesa-lhes a beleza. Assim também o homem quando chega a idade. A cruz dá-lhe viço.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Na carruagem deserta, um homem escreve. Olha absorto pela janela e escreve. O que vê nunca habitará a página, ainda que esta seja tão desolada quanto a paisagem. Mas de tanto olhar pela janela já vai percebendo de vinhas e do ritmo das estações. Já pode atravessar a paisagem sem que os olhos ardam de tanto ver este dar a ver.

domingo, 25 de agosto de 2013

Uma consciência tranquila dorme de noite, mas de dia é uma insónia insuportável.
A floresta de árvores despidas pelo Inverno e a harpa da chuva cadenciam a manhã. Ruge o vento nos umbrais e o gado espera pacientemente sobre a lama. Nos meus ouvidos, porém, só se ouvem, inapeláveis, as bátegas nocturnas de Chopin. Já quase me abismo, ó leveza da aurora, nestes espelhos profundos, nesta chaga extemporânea.

sábado, 24 de agosto de 2013

As árvores despidas ocultam a copa na transparência. Um prenúncio de Primavera destila por entre os ramos desalinhados um vapor iridescente. O campo respira. Vou na última carruagem em direcção ao centro da minha vida. O gado engorda à beira do caminho, o sol desmaia. Ao longe, o rio faz uma curva.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O travo deste dia é acre como a paz de uma igreja lajeada de mortos que apodrecem com o incenso por cima e a bugia dos círios.
Daqui a pouco levantas-te, depois de descansares de uma noite passada a conservar vidas, vens até à sala acesa pelo sol onde agora escrevo o que não sabes, debruças-te sobre mim, deitado neste sofá com o frio de uma tarde limpa de Inverno, e depositas-me um beijo que agoniza a solidão. Ouço os teus passos, são o eco da escrita.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Às vezes escutamos o poema dentro de nós; ele é bem o timbre e o ritmo. Mas cá fora, sobre o papel, que se inscreve em que nevoeiro? É então altura de calar o poema na cabeça e vir à folha riscar tudo. Aquele que escreve encobre.
O pobre e o poeta comungam no adiamento e na derrogação, e quem pensa dentro deles é a fome – não conhecem nenhum desejo que não seja inteiramente seu. A poesia não tem nenhuma relação com o sustento.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Philip Larkin (I)

Coming

On longer evenings,
Light, chill and yellow,
Bathes the serene
Foreheads of houses.
A thrush sings,
Laurel-surrounded
In the deep bare garden,
Its fresh-peeled voice
Astonishing the brickwork.
It will be spring soon,
It will be spring soon -
And I, whose childhood
Is a forgotten boredom,
Feel like a child
Who comes on a scene
Of adult reconciling,
And can understand nothing
But the unusual laughter,
And starts to be happy.


*

A chegar

Em noites demoradas,
A luz, amarela e fria,
Banha as serenas
Frontarias das casas.
No jardim abandonado,
Um melro canta
Cercado pelos loureiros,
A sua voz acabada de moldar
Deslumbrando a alvenaria.
Logo virá a Primavera,
Logo virá a Primavera –
E eu, cuja infância
Foi um olvidado tédio,
Sinto-me como uma criança
Que chega a um quadro
De adultos reconciliando-se,
E nada percebe além
Da invulgar boa disposição,
E começa a sentir-se feliz.

Philip Larkin, The Less Deceived
- trad. minha

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saint-John Perse (II)

Nocturno

Ei-los maduros, os frutos de um destino temeroso. Do nosso sonho nascidos, do nosso sangue alimentados, assombrando a púrpura das nossas noites, eles são os frutos da prolongada inquietação, eles são os frutos do prolongado desejo, eles foram os nossos mais secretos cúmplices e, tantas vezes próximos da confissão, desviavam-nos pelos seus próprios meios do abismo das nossas noites… Para o fogo do dia todos os favores! ei-los maduros e sob a púrpura, estes frutos de um destino imperioso – Neles não divisamos a nossa vontade.

Sol do ser, traição! Onde se deu o logro, onde a ofensa? onde se deu a falta e onde o pesar, e o erro, qual é ele? Apreenderemos o tema à sua nascença? reacenderemos a febre e o tormento? Majestade da rosa, nós não somos teus entusiastas: numa maior angústia corre o nosso sangue, numa maior severidade vão as nossas preocupações, as nossas rotas são pouco seguras, e a noite é profunda onde se retiram os nossos deuses. Rosas caninas e silvas negras revestem para nós as encostas do naufrágio.

Ei-los amadurecidos, esses frutos de uma outra encosta. «Sol do ser, encobre-me!» - palavra do desertor. E aqueles que o viram passar dirão: quem foi este homem, e qual a sua morada? Iria ele sozinho ao fogo do dia mostrar a púrpura das suas noites?... Sol do ser, Príncipe e Mestre! as nossas obras estão dispersas, os nossos trabalhos sem honra e o nosso trigo sem colheita: as máquinas ceifeiras esperam debaixo da noite. – Ei-los tingidos do nosso sangue, os frutos de um destino tempestuoso.

No seu passo de máquina ceifeira vai a vida sem ódio nem resgate.

1972.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe

- trad. minha

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Saint-John Perse (I)

Canto para um Equinócio

Certa noite trovejou, e sobre a terra junto aos túmulos eu ouvi ressoar
uma réplica ao homem, que foi breve, e nada foi além do estrondo.

Amigo, a enxurrada do céu esteve connosco, a noite de Deus foi a nossa intempérie,
e o amor, em todos os lugares, regressou às suas fontes.

Eu sei, eu vi: a vida regressa às suas fontes, o relâmpago recolhe as suas engrenagens nas calhas desertas,
o pólen fulvo dos pinheiros acumula-se nos ângulos das varandas,

e a semente de Deus vai reunir-se ao mar com as toalhas malvas do plâncton.
Deus esparso reconduz-nos à diversidade.

*

Senhor, Mestre do solo, vede como neva, e o céu é sem dor, a terra franca de todo o fardo:
terra de Seth e de Saul, de Che Houang-ti e de Quéops.

A voz dos homens está dentro dos homens, a voz do bronze dentro do bronze, e onde quer que no mundo
o céu não tenha voz e o século for sem custódia,

vem ao mundo uma criança da qual ninguém conhece a raça ou o título,
e o génio bate com golpes certeiros nas faces de um rosto puro.

Ó Terra, nossa Mãe, não tenhas necessidade desta súcia: o século está pronto, o século está povoado, e a vida segue o seu curso.
Um canto se ergue em nós que não conheceu a sua fonte e que não terá estuário na morte:

equinócio de uma hora entre a Terra e o homem.


1971.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe
- trad. minha

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Death Cycle (parts I, II & III)

Death Cycle (parts I, II & III) - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
 

Lived once
Allow me to finally be alone
Failed once

Drag me to the river’s steam
Pull me into the hiss
Face upon a reckless mirror

And I’m gone
Gone

Whisper silence
Living ended up being bitter
The taste of wholeness
Face upon this
And calm I’m getting home

Under the bridge
Where travelers meet
You and I shared a glimpse of nothing
The content of our passions
And you just turned away                                   

And now you make a smile
And ask for me to throw
Away the sordid hope
And you said that love won’t do for me
Cause love
Is the ability of God                                                                                  
Living is better but death solves all

Resurrection / Your tongue on me
Attraction / Cradle of thirst
Heat / Come back to me
All right

I’m coming back to life
I come for bliss
I come for what you left
And I’m not poor

You reach what is out of hand
I reach your heart
Follow my lead now
My life is full of regrets

quinta-feira, 9 de maio de 2013

«Oração Fria», Antonio Gamoneda


«A primeira antologia publicada em Portugal de um dos grandes poetas espanhóis da atualidade.
Esta antologia, preparada e traduzida por João Moita e acompanhada por Antonio Gamoneda, segue a ordenação e a fixação dos textos de «Esta Luz – Poesía Reunida (1947-2004)», livro publicado em Espanha em 2004 pela Galaxia Gutenberg, com organização do próprio poeta. Foram ainda incluídos cinco poemas do seu último livro, «Canción Errónea», publicado em 2012 pela editora Tusquets.
Anos após a publicação de «Livro do Frio» na Assírio & Alvim, esta antologia apresenta ao leitor português uma visão panorâmica da obra de um dos maiores poetas espanhóis da atualidade.»

Amor

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes também pesa no meu coração.

Antonio Gamoneda, Blues Castelhano