terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Teargarden by Kaleidyscope #1 - A song for a son



A primeira das 44 músicas do novo álbum dos Smashing Pumpkins está disponível para download. As 44 músicas serão distribuídas gratuitamente na Internet em download directo, sem necessidade de inscrições ou subscrições. O álbum tem o título genérico de Teargarden by Kaleidyscope. Acompanharei neste blogue o lançamento faseado das músicas.

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Circus of Plunder


Circus of Plunder - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita


versão rudimentar

Do you think you had enough?
We have more to give you
Think you need some rest
Oh hell, forget it
Our cages are unfamiliar
Our words unreliable

Take it down
We make sense with our delusions
If you can feel this / hey kid / then we’re real
But we can show you more

Behind the covers the bodies lay so cold
Inside the minds our hands are so divine
Clipping your wings / Our will is so suspicious

You can have it all as long as we can
Offer you more than you’ll ever take

Do you think you had enough?
We have more to give you
Think you need some rest
Oh hell, forget it
Our cages are unfamiliar
Our words unreliable


www.myspace.com/thedaughtersoflot

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Masquerade


Masquerade - música: J. Moita; Miguel Fernandes / letra: J. Moita

versão rudimentar
Our lives are full of regrets
Unless we forget
Adrift among the wickedness
For whom we fell
We steal the beauty out of this
And what it suggests
We are living in the blame
Guess who we met

We are bashing on the bliss
And who we miss
We are building our own hell
For someone else
Welcome to our field of forces
No direction home
What hides behind our effrontery
We will never show

We hide the masks
We undress the cloaks
And yet
The shades won’t let us grow
And then you’ll know
The claws / The roar
As you approach
Disintegration bites on

Guess who we met
In this masquerade
We recognize your traces
When your heart is full of regrets

We are licking wounds
We invoke the needles
We are sinking further down
We are blaspheming
We are carrying the weight of despair
We fill the emptiness

Our lives are full of regrets
Let us forget
Adrift among the wickedness
Let us fall for you
We steal the beauty out of this
It’s in your eyes
We are living in the blame
Please take us home

domingo, 29 de Novembro de 2009

HR Giger, Nº 620, Pump Excursion III, 1989


A vida aqui está apenas de passagem.
E mesmo o amor
às vezes
se põe ao redor.

sábado, 28 de Novembro de 2009

As filhas de Lot estão empenhadas em preservar a sua raça definhando-a. Isso passa pelo enfraquecimento dos tecidos e dos tegumentos, dos órgãos e das secreções, dos veios e dos ossos. Trata-se de uma estratégia para o incremento sensorial. Desvitalizar para aumentar a permeabilidade. Crivo sensível que se acera. As filhas de Lot fundam o seu território no enclave do desejo com o estímulo. O ébrio é para elas apurador de pulsões: transmissão e transfusão. A filhas de Lot privilegiam a obscuridade e mergulham o seu afecto nas próprias transgressões. Elas preparam a iridescência do que devém, são da ordem do fantasmático.
Depois do incesto, enquanto o seu pai dorme, as filhas de Lot, nuas, sentam-se junto ao fogo e olham-se. A troca de olhares resulta em música.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Se não queres deixar o sangue arrefecer na clausura das veias, fere-te!

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Diálogo do Isolamento

Jesus - «Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei uma Igreja para mim e as portas do Inferno nada poderão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» (S. Mateus 16, 18-19.)

Pedro - Sobre a pedra me sentarei, com as chaves me selarei.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Sobre a arte reaccionária ou de como as bolhas de ar rebentam sobre as próprias cabeças

"(...) a desmistificação efectuada revela-se funcional em relação às exigências de uma sociedade que não tem mais necessidade de manter a relativa autonomia das actividades simbólicas, como a arte, a filosofia e de forma mais geral, os estudos humanísticos. E por isso tenta transformar os detentores de actividades simbólicas em «funcionários do sistema produtivo, reduzindo-os a uma relação de referência imediata às exigências da produção e da organização social» [G. Vattimo, 1974]. Sob este aspecto, a arte sem aura do Posthuman e a crítica sem teoria que a promove constituiriam um notável aceleramento deste processo. A transgressão das fronteiras da arte não seria portanto um movimento progressista, mas teria como objectivo retirar ao artista, ao crítico e ao curador [sic] toda a autonomia, fazendo-os descer ao nível da realidade, ou seja, da sua dependência directa dos imperativos económicos. Sob este aspecto, a reivindicação da aura das obras de arte e da autonomia dos mundos simbólicos assumiria hoje um significado de contestação social, porque constituiria a única defesa nos confrontos do total e directo domínio do capital. Paradoxalmente, no entanto, quem trabalha contra as mediações culturais, a favor do espontaneísmo comunicativo e expositivo, não obstante as suas intenções progressistas, não fará mais do que acelerar o processo da liquidação dos mundos simbólicos."


Mario Perniola, A arte e a sua sombra, Assírio & Alvim, 2005.

domingo, 15 de Novembro de 2009

Playlist


Elysian Fields - We're in love

sábado, 7 de Novembro de 2009

Desiring Machines


Desiring Machines - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita

versão rudimentar



We will have to change our ways
Our minds are polluted
We make love fiercely
We caress violently
And worse

We will have to be tamed
Our hearts are unleashed
We react instinctively
We feed on ferocity
And worse

Our sight is narrow
Our pain is subtle
Wrapping on the wings of desire
Muzzles ghastly
Fearsome spook
And you’ll see us spread opaline magic

On your knees and meek and we’ll be polite
Put a leash on us for us to keep it all together
We believe in crudity / so let us use our stingers
This is what it’s supposed to be: a Hell

Listen kid we have a surprise
we’ve putted it in our pockets
You’ll have it tonight
It’s a shame we broke it down
It’s a shame we messed it up

On your knees and meek and we’ll be polite
Put a leash on us for us to keep it all together
We believe in crudity / so let us use our stingers
This is what it’s supposed to be: a Hell

www.myspace.com/thedaughtersoflot


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

As Filhas de Lot

Hendrick Goltzius, Lot e as suas filhas, 1616.



O que nos excita é o que nos definha.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Metamorphosis


Metamorphosis - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita

versão rudimentar


Won’t bore or waste your time
For the moment we’re just fine
Our frailty hides behind your eyes
all that’s good and for your own sake

Act like if we aren’t here
We are smoothly disappearing
Now we want to let it go
Amused with our transparency

All that we do / all that we fake
We are daring our mistakes
All that we create / all that it destroys
Our fate is so undone

Watch us glow / as we go
Watch us glow / as we go

We’re machines outside the dreams
We’re vanishing / Watch us as we glow
(We’re) no human beings / we disbelieve
We’re fading / watch us as we glow
See us deserting
Forsaking / and that’s what makes us glow

www.myspace.com/thedaughtersoflot

sábado, 31 de Outubro de 2009

Corpo sacrificial

Caravaggio, O sacrifício de Issac, 1603.


O que me comove neste quadro é o olhar suplicante do cordeiro. Nele se reflecte toda a tristeza do desapego. Ele vai morrer pela vez do Outro, para que o objecto amado, o Outro, não morra. Trata-se de uma solidão absoluta, sem remédio. Abraão ama Isaac e Deus ama Abraão. O cordeiro é tradicionalmente encarado como mero objecto que existe em função de uma acção na qual é mero pretexto, como conclusão necessária de uma prova cujo nexo se estabelece no interior de um processo volitivo independente da sua constituição. A fé é instaurada por um acto de deliberação, pela demonstração de uma intenção, por um salto disjuntivo da consciência. O sacrificado, o supliciado - o crucificado, em suma – está ausente desse processo, desta prova de amor incondicional, constituindo-se como elemento externo ao circuito. Ele existe como encadeamento final substitutivo. A sua identidade é irrelevante no quadro da sua função, na medida em que ele é um elemento exterior à necessidade da prova de amor, a sua existência é posterior e está subjugada a essa necessidade: o importante é que exista e realize, enquanto elemento operativo, a acção na qual não participa. É da ordem dos utensílios. Caravaggio ao pintar o olhar do cordeiro-instrumento de uma forma que inspira compaixão restitui-lhe a dignidade ao identificá-lo com um entidade desejante e por isso existencial: o cordeiro deseja ser amado para que se justifique o seu sacrifício. Édipo não é aqui alheio a este movimento. Mas ao ser enjeitado, se visto já enquanto identidade individualizada e consciente, o cordeiro-crucificado apropria-se um potencial de insubmissão e transgressão que não pode ser desprezado. Cristo-cordeiro, que se situa fora do sistema de desideratos dominante, da trídade deus-pai-filho, cria assim a oportunidade do eflúvio de uma contra-ordem, uma nova ordem que já não se revê na obediência ou desobediência a um Pai normativo, mas que tem o seu nexo na paixão do ser desapegado, o cordeiro, pelo seu próprio corpo sacrificial. Colocar esse corpo sacrificial ao serviço de uma sensibilidade exaltada que dele se apodere em delírios antropogáficos é, talvez, a derradeira experiência estética: comunhão unitária. Receber de uma vez o fluxo ininterrupto do que inaugura a passassem de um ao outro lado: a carne já não como depósito mas como transmissor da existência, eclodindo de si mesmo.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Incredulidade

A incredulidade de São Tomé, Caravaggio, c. 1601.

Eu creio na força da carne se ela se rasga. Eu creio na demonstração e na atenção criadora que irrompe pelas entranhas até à indistinção do que lhe pertence e é já pertença de outro corpo que nunca existiu. Eu creio na mão que me guia, nas espirais que desenho para evitar o coágulo do lodaçal que amo, embora me infecte e me conduza à morte. Eu creio que é atrás da pele, sempre atrás da pele, que se inflama o que nunca nos é dado ver. Para recuperar intacto o objecto do nosso desejo façamos explodir a carne: amemos as contorções.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Justiçados

Jean Louis Théodore Géricault (1791–1824), Dois justiçados



Para que se amem livres de pecado, ainda que sempre carnalmente.
(1791)(1824)

sábado, 24 de Outubro de 2009

Narrativas

Continuando a enunciação para a morte, o desmembramento:


Como um antiquíssimo astro
o seu rosto pende crepuscularmente,
mostrando os sinais evidentes
da volúpia e da morosidade.

*

Um dia, ao passar por ali,
encontrei-o segurando nas mãos
o seu coração gelado.

*

Havia a monotonia dos dedos
contando as luas e os meses,
perdendo-se e recomeçando.

*

Calou-se.
Vi que era um anjo muito puro e lento,
o seu olhar era um horizonte escuro,
a neve derretia-se debaixo da sua respiração.

*

É uma voz de veias acutilantes.

*

Aproxima-se o tempo dos pentagramas.
Quero estar preparado para esse exercício
de violentas ciladas,
o céu sucumbindo ao espontâneo talento
dos gládios e do vento.

*

Assim rejuvenescem as flores, intensamente belas.
Assim crescem os filhos junto da enseada
e as labaredas do amor incendeiam as sepulturas
e as mitras das deusas claras.

*

És muito bela e o teu corpo dança
onde o horizonte é uma lâmina rasa.
Eu conheço o teu nome.

*

O céu é uma primavera transfigurada:
as flores em seus abismos.

*

As palavras estão sentadas em arcos de fogo;
pulsam,
avançam lentamente para um ubíquo silêncio.
O homem está de pé como se esperasse.
Se o poema o visitar,
ele desaloja as palavras
e senta-se calado,

ardendo.

*

Onde as foices declinam
eles são lentos com as mãos
sobre as arestas.
Inclinados ao fogo,
demoram-se onde a flâmula é um frémito
curando a seara devastada do seu coração.

*

Escrevo,
caminho para um profundo silêncio.
Essa eloquência.

*

Um dia descobri que há morte

dentro das pedras,
que também elas devêm
porque decantam a matéria.

*

Se um dia te encontrar,
devolverei ao silêncio a sua mais sórdida
cadência.

*

Não convocaria agora as suas navalhas.

*

Os deuses regressarão aos moinhos,
absortos nos seus desígnios.
Observarão as mós girar
como se a solidão nunca os visitasse.

*

Eu aqui estou.
Soergo-me e caio.
À entrada das cidades,
serei todos os pórticos em fogo.

*

Nunca aprendi
a não me demorar sobre o fogo.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Não te demores sobre o fogo

De um livro que ficou pelo caminho decidi agora recuperar os excertos que me parecem menos maus. Curioso que assim, descontextualizados, estes recortes parecem ganhar nova vida. Enuncio-os para a morte:


E eu recebo-te:
abro lanhos na pedra que ofereces,
trabalho nela com os dentes,
insidiosamente.

*

No centro de tudo: um núcleo mineral,
e quando vens
o núcleo
estremece e esquece.

*

Os homens são assim.
Inventam uma luz para nela mergulhar
a sua escuridão.

*

Escrevo para incendiar a memória.
Acreditar que as mãos criam
a fragilidade do corpo,
que existem porque moldam
a intranquilidade da paisagem.

*

Virás por essa estrada.
Tocarás a brisa com os teus dedos
levemente apagados
como se dissessem:
Procura-me antes dos meus passos
porque depois deles já não estarei
e neles estou apenas de passagem.

Eis os instrumentos do teu labor.

Vou assim,
o coração sem timbales,
os pés feridos.

Chegou a hora do silêncio.
As palavras repousam agora nas margens,
são o sustento de uma ausência.

É por isso que vos peço,
dai-me o fogo tripartido do poema,
a sua fulguração.
Como se de chama em chama
a vossa face se tornasse mais habitável
para os sinos da manhã.
Como se ensinasses a juntar o silêncio,
peça a peça,
até se escutar essa argêntea fissura que perpassa
as palavras.

Talvez um poço
ou o voo circunscrito de uma toutinegra,
talvez as violáceas nas ramadas,
as túnicas bordadas pelas mulheres
junto às lareiras.

Resumem-se a isto os ciclos da fertilidade,
a estas quatro luas incendiadas.

Um cão corre pelas vinhas.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

The thirsty daghters of Lot


The Thirsty Daughters of Lot - música: Miguel Fernandes; J. Moita / letra: J. Moita

versão rudimentar



Overcoming now / the endless sadness
Fear's dimming / cause we're together
We're relying on / your advices and
we're transcending / our resentment on
what has ceased to be / on the path we're on
We’re divining

And if you want us to stay with you
Just close your eyes and let us do
Always bending always haunting
Heart's so full of death resemblance

Sorry if we're letting it go
Medicine's so quick and low
Overcoming we're overcoming
Disposable kids with extreme manners

Overwhelming now / your dispositions
And your advices / we’re neglecting
It’s our transgressions / we rely on
What turns us on is / what makes us wither and
We are smothering / what we care the most and
We’re still divining

Somewhat we are as vicious
As the thirsty daughters of Lot
In our veins blood is infected by
The poison that causes us to forget


www.myspace.com/thedaughtersoflot

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Hans Memling

Hans Memling, Vaidade terrena e Salvação divina [tríptico], 1485.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Fechar sete chaves num cofre. Deitar ao buraco a fechadura.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Imagem e Poema

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954.


Comunguei a carne da revelação

para ser o suporte de um método.

É essa uma tendência obsidiante:

na minha linhagem todos mataram.

Ainda respiro sobre a corola da sua purificação

e sei que cada lugar é o tempo todo.

É um comércio danado.

A ênfase está do lado das aporias.

A remissão é da ordem de um aviltamento.

E ainda que se levantem,

as corolas,

nada lhes ensina o corpo da abstracção.


João Moita


segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

The daughters of Lot

http://www.myspace.com/thedaughtersoflot

Sadic Waltz


Sadic Waltz
- música: Miguel Fernandes / letra: João Moita


versão rudimentar

Here you’ll have it
Down we’ll take it
Strong we’ll hit it
whipping hurting / so you

Won’t have to
Cry for more and
More than this We’ll
Serve it on your back

And you’ll dance for us
over the night
And you’ll sacrifice the
lust we need to move on
And you’ll have it
just as you please
and nothing’s a sin
as long as we deceive the pain

Flesh we suck it
Blood we drip it
Bones we sharpen
loving slaying and you

are as doomed as
we are craving
watch we tickling
your deep deep
red scar and
facing our own death

And you’ll dance for us
over the knife
And you’ll sacrifice the
lust we need to hang on
And you’ll take it
just as you bear
and nothing’s a sin
as long as we deceive the pain

and we won’t be
what you want us to be
and you won’t know a thing
of our own crazy dreams
But you might let us see your nudity

We’ll serve it on your back
and on your front and
on your smile and on
your danger hided places
on your damaged brains

We have deceived the pain

domingo, 4 de Outubro de 2009

Algumas palavras a propósito da apresentação de O vento soprado como sangue, por Jorge Melícias

A escrita é uma maneira de pensar a literatura, não de a difundir.
Roland Barthes


“O poema é o lugar onde a língua suga potencialidade para produzir realidade”.

A poética de João Moita inscreve-se plenamente nesta máxima do filósofo checo Vilém Flusser, exposta de uma forma brilhante no seu livro Língua e Realidade. Para Flusser poesia é “o esforço do intelecto em acto de criar língua”. A poesia constitui-se assim como uma nova espécie de língua ou como a língua superada pelo intelecto. A actividade poética é, stricto sensu, produtiva, arrancando sempre algo às profundezas do indizível. E aqui Flusser propõe uma evidente clivagem entre o que é poesia e o que se inscreve na ordem do prosaico (de prorsus, plano), onde a realidade se limita a espalhar-se num plano. George Elliot dizia, a este respeito, que “a língua não passa de luz rompida sobre as profundezas do inarticulado”. Se a poesia se afirma como a produção de língua (produzir vem de producere, e significa trazer para a superfície), o poeta assume-se como “uma boca aberta em admiração”, o lugar onde a língua inspira o nada e o transforma em nova língua. Segundo o pensamento de Flusser a poesia é, funcionalmente, a criação de uma nova língua a partir do nada que cerca a língua por todos os lados. A sua filosofia (muito embebida na fenomenologia de Husserl) não é exactamente neo-nominalista, embora aí vá beber. Nessa medida as palavras são, para o autor de Le Monde Codifié, sempre “uma coisa no lugar de outra”, constituindo-se, todas elas (porque substituem, apontam, procuram) como metáforas. E se as palavras estão no lugar de outra coisa é porque essa coisa-em-si, kantianamente falando, não nos é acessível: se o fosse não precisaríamos de palavras. E o que é que as palavras substituem, apontam, procuram? A realidade (ainda que as palavras apenas nos sirvam para chegarmos perto dela) ou, tão só, o nada (aquilo que por estar para além da língua não é passível de ser nomeado).

Ao abordar toda esta problemática Flusser liga-a a um conceito tão caro quanto perigoso: o conceito de originalidade. Se a actividade normal da prosódia (e da conversação, onde a prosódia se inscreve) reside na composição de elementos já existentes, a novidade da poesia deverá residir na imposição de novas regras, de acordo com as quais os elementos serão doravante compostos, e na criação de novos elementos da língua. Vladimir Maiakovski tinha, já anteriormente, abordado esta questão sob um prisma similar ao afirmar: “Em geral as regras em poesia não existem. Chama-se poeta justamente ao homem que cria essas regras”. Assim, a actividade poética decompor-se-á, ainda segundo Flusser, numa dupla vertente, impondo, a um tempo, novas regras e novas palavras (conceitos). Os seus pensamentos (versos) são novos porque contêm elementos novos (conceitos novos) ou novas regras (uma nova gramática). A partir desta definição podemos facilmente chegar a uma compreensão mais nítida do conceito de liberdade que está na base de todo o processo poético. Através da criação de novas regras a liberdade de criação (a única liberdade inequívoca), longe de ficar reduzida, torna-se mais ampla. As novas regras possibilitam novas composições de elementos e ampliam o território da livre escolha. A linguagem não é serva das significações, diria Heidegger. Por conseguinte a actividade produtiva da poesia, impondo novos conceitos e novas regras sobre a língua, organiza-se como uma actividade criadora de liberdade. E os intelectos em conversação tornam-se, eles mesmos, progressivamente mais livres, à medida que absorvem as regras e os novos conceitos que lhes são veiculados pela poesia, num constante e imarcescível work in progress. O isolamento no qual o poeta se encontra (e do qual romanticamente se alimenta) é tão falso quanto a sua aparente perda de liberdade. Ele estabelece-se antes “como a ponta da cunha que a conversação” (ou seja vós, todos nós) “força para dentro do indizível”. Longe de estar isolado o poeta constitui-se, precisamente por ter tido a coragem de se recolher, como o condutor dessa conversação. Mas o perigo da exposição desse mesmo poeta ao influxo imediato do nada é constante e eminente. Enquanto que o perigo do intelecto em conversação é a caída na conversa fiada, o perigo do poeta radica numa queda mais abrupta e radical. Mas como Jean Luc Nancy no seu ensaio Resistance de la Poésie nos diz a poesia “faz na dificuldade”. Nessa perspectiva fala não de um acesso ao sentido mas de um acesso de sentido. Não se trata assim de procurar, a todo o custo, uma via de acesso ao sentido mas de admiti-lo como uma presença invasora e totalizante. Só assim a poesia de João Moita poderá ser, estou em crer, cabalmente lida.

Socorro-me agora de Ezra Pound e do seu conceito de logopéia. Logopéia, de acordo com o poeta dos Cantos, constitui-se como uma das três esferas poéticas. Refere-se às capacidades reflexivas da linguagem poética e remete-nos para a construção de idéias ou de sentidos. É o campo mais interessado no conteúdo e menos na imagem (fanopéia) ou na musicalidade (melopéia). Pound falava a este propósito da “dança do intelecto por entre as palavras”, com o intuito de fugir à lógica causal que a gramática nos impõe. Em O Vento Soprado como Sangue João Moita intenta (como poucos, direi, na actual produção poética) essas “linhas de fuga” à regra, de modo a alterar os mapas do senso-comum, não se esquecendo nunca desse incontornável axioma de que “a linguagem não é, ela representa”.


Outra das questões que me parece fundamental na poética de Moita é a questão da morte, mas da morte entendida sob uma perspectiva foucaultiana. Para o filósofo de O que é um autor? a escrita está ligada à morte, talvez essencialmente à morte dos outros. De certa maneira, todos falamos sobre o cadáver dos outros. Todos postulamos, até certo ponto, a morte do outro. Falando deles, vemo-nos na situação do anatomista que faz uma autópsia. Com a nossa escrita percorremos o corpo do outro, fazendo incisões, levantando os tegumentos e as peles, procurando trazer os órgãos à tona. Nessa perspectiva, e como nos lembra o filósofo francês “todo o nome é de antemão nome de morto, todo o nome anuncia a morte do seu portador, na medida em que lhe sobrevive, na medida, aliás, em que a própria estrutura do nome se define por essa capacidade de lhe sobreviver”. Também Maurice Blanchot concorre com o seu pensamento para o pensamento poético de João Moita. Como postula Blanchot, vida e morte atravessam-se, nesta obra de Moita, numa superfície que faz do autor “a testemunha integral” de uma experiência da escrita, da intensidade; na qual a consciência da morte faz do corpo uma engrenagem livre, entregue, à medida da sua própria duração, como “máquina de sensações”, escrita-corpo, no qual a morte desenha os contornos da sua permanência. Não nos podemos nunca é esquecer (como o poeta nunca o faz) que o acto de escrever é sempre uma permanência agónica contra a vida (do grego Agon – conflito). Estar vivo é estar a viver a morte e só há criação porque, em última análise, há destruição.

Voltamos então ao início: Se a língua cria a realidade e a poesia cria a língua, quem cria a poesia? João Moita soube ler, e dessa leitura tirar os justos ensinamentos, a máxima de Maiakovski, de que “a arte não é um espelho que reflecte a realidade, mas um martelo que a forja”, lutando, na feliz expressão de Graça Capinha, “contra o corpo da linguagem por uma linguagem que há-de, por força, ser outro corpo”.

Jorge Melícias

Füssli

Johann Heinrich Füssli, Nachtmahr, 1802.



Deve haver uma forma horrível de amar os mortos.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

René Char


«Só se dá nome ao arrepio, e mais nada. É de noite. Os artifícios que se acendem acham-me cego.»

René Char, trad. Y. K. Centeno

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Gri


Estou cheio de Gri, pá!

domingo, 27 de Setembro de 2009

Maria que vai com as outras

O Partido que apela à isenção do exercício da consciência crítica obteve o terceiro melhor resultado. É o país das marias que vão com as outras.*


*Atentar no slogan do cartaz.

sábado, 26 de Setembro de 2009

O vento soprado como sangue (música)

O Sangue - Edgar Ferreira

O Vento - Edgar Ferreira

O meu amigo e músico (e também poeta) Edgar Ferreira compôs estes dois trechos musicais que traduzem a sua leitura do meu livro O vento soprado como sangue. Cada uma das partes do livro está transposta em música nestas duas faixas que, juntas, compõem o EP homónimo. A experiência da leitura é enriquecida se acompanhada pela audição destes dois trechos, que dão o mote perfeito para o ambiente do livro.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

desdeus disse.
E Eu venho apoiar-me à sua quietude muda.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Diáspora, de José Rui Teixeira


O poeta José Rui Teixeira redefiniu o seu corpus poético, fixando-o nesta Diáspora que reune o seu trabalho poético a partir do ano 2000 até ao presente, acrescentando-lhe o inédito Ataúde.
Há nesta poesia um sentido de "peregrinação" permanente, e por isso é de índole inconformista. A poesia é do domínio do movimento para algo, e não da recepção ou percepção da realidade. Por isso não considero que a escatologia seja uma dimensão predominante nesta poesia: a redenção é a poesia enquanto se faz, enquanto redefinidora da realidade: "Mas disseste-me: partimos sempre mais do que chegamos." Também é recorrente a introdução de um elemento desestabilizador que redimensiona o poema à luz de uma activação de símbolos por oposição ao discurso meramente metafórico. Assim "o sangue da mulher / sobre a paisagem de trigo" funciona como o incêndio que depura a realidade (ou ainda em "O coração é um órgão incendiado"), que a revitaliza ao mesmo tempo que a destrói para instaurar um novo domínio que não é devedor de uma dimensão positivista ou racionalista. Poesia do essencial por oposição à poesia do circunstancial. Estarmos "rodeados de mortos" não é outra coisa que a presença possível ou a recuperação de um sentido ausente, da aproximação dessa essencialidade que nunca é total mas que pode apenas ser pressentida no decurso da peregrinação.
Outra dominante na poesia de José Rui Teixeira é a atenção ao que é ténue, subliminar, como pórticos para a tal reconfiguração da realidade que acede através desses indícios a uma domínio habitado por Deus. Esta atenção recriadora manifesta-se em particular em Equinócio de Outono: "Lembro-me do movimento enfático / dos corpos na iminência do outono, da natureza migratória /do desejo por esses dias, da omissão de algo / que enterrei há muito e ainda assim sangra." Ou ainda neste excerto belíssimo: "Amo-te como buganvílias caídas ao redor / das casas ou o luar branco dos caminhos, / ou a substância audível da tua respiração."
Esta é, sem dúvida, poesia perigosa, onde, se nela entrarmos inadvertidamente, nos depararemos com
a tensão gravitacional dos pés de uma criança
na periferia de um poço, a abstracção do perigo.
E essa criança seremos nós.

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Playlist

Pink Floyd - Run like hell

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

?

Picassos há muitos, oh Manela!

domingo, 13 de Setembro de 2009

Higher


Higher - música: J. Moita; Miguel Fernandes; Edgar Ferreira / letra: J. Moita

versão rudimentar


Let us cast our spell
It had done us so well
It’s keeping us from despair

Fear’s something that we’ve known
And darkness all that’s been shown
As we begin to ascend we become
So undone

I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I can reach your eyes

We present you gold
We transmute you steel
We pretend we’re here
As if we haven’t died
As if we didn’t lose
Our guts to survive
Our love to defend
So we become
So undone

I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I can ease your mind

The higher we hunt the deeper we crave
And damage is all that we save
We relate to the core

So let us cast our spell
We are going so well
We’ll begin to ascend / and we’ll become
So undone

I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I can touch the sky
I’m so high
I’m so high
I won’t break your heart

sábado, 12 de Setembro de 2009

Projecto de Vida

«A minha riqueza, quero-a manchada de sangue por todo o lado.»

Arthur Rimbaud

domingo, 6 de Setembro de 2009

Climax

Aubrey Beardsley, O Climax, 1894

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

O vento soprado como sangue (Apresentação)

Livro dos Saberes (I)

Antes de partires, queima a tua cidade, pois a ela não regressarás: trá-la como um lugar purificado no coração.

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Herald


Herald - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
versão rudimentar
If we conceal
the heart of this
Would you submerge
at its crudity

If you reveal
the word that heals
We'd still emerge
from the din of angst

You won't heal it

You won't heal it
(I know that I would)
You won't heal it
(I know that I should)
You won't heal it
(I know that you need)
You won't heal it
(It's not like you'd die)
You won't heal it
(You should trust me instead)
You won't heal it
(I'll have it on time)
You won't heal it
(Just open your eyes)

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

A verdadeira Vida

José Agostinho Baptista
Neste tempo de sujidade eleitoral e de vómitos panfletários, nada mais saudável do que o asco de alguém que exalta a Verdadeira Vida, embora reclusa. Que o nojo seja a excreção de todas as impurezas:
«A esta hora, o louco e o mendigo sentam-se no mesmo banco sujo, nas praças cinzentas, quando a sede se precipita sobre um cálice de álcool puro e agonia. E aí tudo se multiplica, tudo devora, tudo se devora, consultórios, ilustres salteadores da mente, o monstro das mil línguas nos senados, a amnéisa dos climas, as mórbidas engrenagens da repressão, a coima, a ameaça, o conselho, o teatro das funestas declamações, a doentia saúde, a cremação, a macabra ciência do cérebro, a encenação do mal e do bem, as necrópoles, os tribunais, o prémio e o castigo, a inquisição, os crimes de seda, os punhos de renda, os juízes, os procuradores, os notários, as lojas, os mestres, os aprendizes, os aventais de heresias e dominações, os sicários, os generais, a sentença dos canibais, os cravos secos, descoloridos, para o dia das celebrações, os cínicos executivos, as fardas, os oradores, os acólitos, os lacaios, os fiscais, os trapezistas do verso e da sordidez, os estádios, as plateias, as galerias demenciais, o noivado, as núpcias, o baptismo, os funerias, o trapaceiro das berças de chicote em punho chefiando as hordas da castração e da lei, incitando à abstinência e ao consumo: apertem o cinto, verguem-se, comprem, vendam, troquem, votem, votem em mim, adorem-me, obedeçam, respeitem-me, não comam, não bebam, não fumem, não pintem, não escrevam, não sonhem, procriem, sim, mas com cuidado, que seja de acordo com o plano, a segurança, o orçamento, a inovação, pois eu sou o menino de ouro, eu sou a verdade e o caminho... não quero éticas, estéticas, metafísicas, ficções.
Entretanto, os plasmas devolviam catástrofes e perfis. Espessas colunas de fumo condensavam-se no ar. Os morteiros ensurdeciam. Entre cedros queimados e explosões, as crianças sucumbiam. Os cadáveres amontoavam-se, em faixas desamparadas, em territórios ocupados, em latitudes de uma gramática impronunciável e rouca. Havia mortalhas, sarcófagos, paisagens de fogo e devastação. Debruçadas dos ecrãs, no ocidente das terapias, as hienas sorriam. E as multidões uivavam, roçavam-se, saudavam-se nos aniversários e nos natais, faziam vénias, declaravam-se, lambiam-se, apedrejavam os pássaros e os cães. Era um circo, uma arena, eram farpas, espadas, lantejoulas, capas vis e mortais de uma alienação programada e impulsiva.»
José Agostinho Baptista, O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos, Assírio & Alvim, 2009.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Perseu


Perseu segurando a cabeça de Medusa
Benvenuto Cellini [1500 - 1571]


Perseu simboliza a força da visão oblíqua, do olhar que vê sem ser visto, do jogo de espelhos e circunvalações em direcção a uma prespectiva arrebatada de profundidade e lubricidade. Para aceder ao âmago é preciso desviar o olhar do olhar que nos petrefica, é preciso ver de outra maneira: cegar. Olhar de frente confronta, mas não desnuda. A realidade não se abre a quem a não acaricie com a ponta de uma adaga. É porque a realidade não se revela imediatamente que quem a confronta à luz do dia se desilude com ela: poética da desilusão, da fraqueza e da conformação: reacionarismo.

sábado, 22 de Agosto de 2009

Mário Feliciano



Ao Mário Feliciano

Altos foram os ritos,

distribuindo a perda e a loucura

pelas horas de assombração.

Alta foi a miragem,

as lunações de deus,

o horto onde amadurecem

as rosa brancas

que a tua mãe plantou

antes de partires.


Tu soubeste tão depressa como só o efémero

se inscreve nessa ordem superior

dos veios da terra e dos punhais.


Alta é esta terra de blasfémia

e prolongada espera.

Assim o teu talento,

brumoso e crepuscular.


Tu sabes como são aqui os dias de chuva –

o vento pelos eucaliptos,

a barragem dilatada,

a vala,

os campos à mercê

da melancolia e da solidão.


Tu sabes que cruéis foram os ritos,

altos e cruéis.

Cruéis foram as miragens,

as lunações de deus,

os seus oráculos,

o horto que a tua mãe ainda trata,

cortando-se nos espinhos,

para que ao menos a tua ausência não doa

onde se cravam.



Há muito tempo que queria fazer esta homenagem ao meu conterrâneo Mário Feliciano, encenador que revigorou o teatro português no final da década de 70 e que morreu como aqueles que os deuses amam. Nunca tive a sorte de o conhecer, mas a sua mãe concedeu-me involuntariamente a oportunidade de assistir a uma das cenas mais enternecedoras e ao mesmo tempo lúcidas e desesperantes entre as poucas epifanias que uma vida permite. 3 anos de gaveta, este poema vê hoje a luz do dia em substituição do abraço que já não lhe vou poder dar ao voltarmos as costas a esta terra ingrata.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Cosmogonias


Deus Khepri - Egipto

"Uni-me com a minha mão e abracei amorosamente a minha sombra; verti sémen na minha boca e dei à luz a minha própria descendência sob a forma dos deuses Shu e Tefnut."

Apud. Paglia, Camille, Personas Sexuais, Relógio D'Água

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

I'm in love with Syd


Sex Pistols - Anarchy in the UK


Sid Vicious - My Way

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Daniel Maclise [1806-1870]

Edwin Austin Abbey [1852 - 1911]

Hamlet

Nada mais natural e belo do que, francamente, achar agradável pensar em estar deitado entre as pernas de uma donzela.


William Shakespeare, Hamlet, trad. José Blanc de Portugal

domingo, 16 de Agosto de 2009

O lugar do poema é a velocidade, mãe da metamorfose. É essa uma forma de vencer o espaço pela anulação do tempo. Assim o movimento do poema concorre para a sua fixação que não é outra coisa a não ser suspensão. Reporto-me aqui à relatividade. Acelerando de tal forma que a metamorfose seja uma constante, o poema funda o seu centro que é sempre outro e o mesmo, uma alucinatória progressão circular. O espaço reduz-se pelo efeito velocidade, tende, no limite, a ser um único ponto constantemente atravessado. O tempo tende, no limite, a ocupar concomitantemente o espaço inteiro, ainda que movendo-se. Teoria dos instantes. Do alto parado, o tempo mítico, a concordância do êxtase e da violência, uma intensidade.
Então uma palavra perde-se e funda a descontinuidade. O poema não suporta o desarranjo. O equilíbrio não se encontra na proporção de coisa alguma: é imperativo ser-se extremo.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

Ordenar o caos, catalogá-lo, isto é, torná-lo cosmos, é missão da ciência. A arte sabe mais, sabe que o c(a)osmos é eterno movimento, e isso faz toda a diferença – o seu modo de operar é pela incerteza e pelo paradoxo, invertendo constantemente as direcções e inflexões. Porque só sintonizando-se com o que se move as coisas parecem paradas.

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

Playlist


Dmitri Shostakovitch [1906 — 1975]

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Paul Celan


É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.


Paul Celan

terça-feira, 21 de Julho de 2009

O vento soprado como sangue (II)

[O livro já existe fisicamente e pode ser encomendado através do site da editora (isento de pagamento de portes de envio para o território português). A todo o momento começa a chegar às livrarias. Haverá uma apresentação em Alpiarça em Setembro.]


XVI

De cada vez que um de nós morre
há uma faca apontada às jugulares:
o silêncio como mantimento.

A morte equilibra-se em nossos corações
com o deslumbramento.

Há-de haver um corpo que transite de alma em alma
e em cujos olhos se alumie a força brutal da mesma vida.
Há-de haver uma voz desvairada que se derrame como napalm
sobre a noite que nos envolve.

Por agora não sei como tocar a distância de onde nos falam.



Excerto do posfácio de O vento soprado como sangue, por valter hugo mãe:


"Há homens que precisam de castigar o mundo. Qualquer coisa no seu espírito obriga a uma insatisfação maior que propende para o violento, porque violentas acabam por ser as coisas fundamentais da vida. (...) Aqui não está em causa o que se tem por seguro, aqui tudo se passa como uma evocação espiritual que advém de uma percepção subjectiva e impressionada com o facto de se estar vivo. A estupefacção de se estar vivo é uma contínua explosão de sentidos, reclamando um entendimento quase delirante de cada assunto, de cada ínfima parte do que compõe o mundo. Esta profusão, aliada à avidez própria do indivíduo insatisfeito, resulta numa poesia de efeito quase caleidoscópico, em que as coisas podem ser reditas com variações fundamentais, adquirindo sentidos outros que, juntos, atingem uma permissividade quase louca de conceber a realidade."