segunda-feira, 2 de julho de 2018

Paul Verlaine (II)


CRIMEN AMORIS

A Villiers de l’Isle-Adam.


Num palácio, seda e ouro, em Ecbátana,
Belos demónios, adolescentes satãs,
Ao som de uma música maometana
Aos Sete Pecados os sentidos entregam.

É a festa dos Sete Pecados: que bela é!
Os Desejos fulgiam em fogos brutais;
Os Apetites, solícitos pajens assediados,
Passeavam róseos vinhos em cristais.

Danças em ritmos epitalâmios
Morriam suavemente em longos gemidos
E belos coros de homens e de mulheres
Sucediam-se como vagas palpitando,

E o encanto que de tudo isto emanava
Era tão poderoso e deslumbrante
Que em torno o campo se enchia de rosas
E a noite se parecia com um diamante.

Ora o mais belo dentre estes anjos perversos
Tinha dezasseis anos sob a coroa de flores.
De braços cruzados sobre franjas e colarinhos,
Cisma, de chamas e lágrimas transbordante.

Em vão a festa à sua volta recrudescia,
Em vão os satãs, seus irmãos e suas irmãs,
Para o arrancarem aos cuidados que o afligem,
O animavam com carícias aliciantes.

A todas as blandícias ia resistindo,
E à sua rica fronte de jóias abrasada,
O desgosto juntava uma borboleta negra:
Oh imortal e terrível desespero!

Dizia-lhes: «Oh, por favor, deixem-me em paz!»
Depois, a todos beijando ternamente,
Deles se esquivava com um gesto ágil,
Deixando-lhes pedaços de roupa nas mãos.

Não o vedes na torre mais celestial
Do alto palácio de tocha em punho?
Eis que a brande como à manopla o herói:
De baixo dir-se-ia que é a alba que desponta.

Que é que ele diz na sua voz profunda e terna
Que se une ao claro crepitar do fogo
E que de ouvi-lo fica a lua extasiada?
«Oh! Será por mim que Deus será criado!

«Demasiado sofremos, anjos e homens,
«Nesta disputa entre o Pior e o Melhor.
«Subjuguemos, tão miseráveis que somos,
«Os nossos impulsos ao mais simples dos votos.

«Ó vós, ó nós, ó os tristes pecadores,
«Ó os ledos Santos! Porquê esta cisma obstinada?
«Porque não fizemos, como hábeis artistas,
«Dos nossos trabalhos uma única virtude?

«Basta destas lutas demasiado iguais!
«Necessário será que enfim se juntem os
«Sete Pecados às Três Virtudes Teologais!
«Basta destes combates vis e brutais!

«E em resposta a Jesus que julgou proceder bem
«Mantendo o equilíbrio deste duelo,
«Por mim o inferno, em cujo covil estamos,
«É sacrificado ao Amor universal!»

Cai a tocha da sua mão aberta,
E elevando-se, o incêndio brame,
Enorme querela de águias vermelhas
Na esteira negra do fumo e do vento.

Funde o ouro e flui, e o mármore estoira;
É um braseiro todo esplendor e todo ardor;
A seda aos estremeções, como o algodão,
Voa em flocos toda ardor e toda esplendor.

E compreendendo cantavam nas chamas
Os moribundos satãs, como que resignados!
E belos coros de homens e de mulheres
Subiam entre o tufão dos ígneos rumores.

E ele, cruzados os braços altivos,
Os olhos no céu lambido pelas chamas,
Diz baixinho uma espécie de oração
Que vai morrer na alegria do canto.

Diz baixinho uma espécie de oração,
Os olhos no céu lambido pelas chamas…
Quando retumba um horrível trovão,
E lá se vai a alegria do canto.

Não fora autorizado o sacrifício :
Decerto alguém mais forte e mais justo
Adivinhara sem esforço a maldade
E o artifício de um orgulho que se ilude.

Do palácio das cem torres não restam vestígios,
Nada sobrou deste espantoso desastre,
Para que graças ao mais horrendo prodígio
Isto não passasse de um sonho vão e desfeito…

E vem a noite, a noite azul de estrelas mil;
Uma planície evangélica estende-se
Severa e doce, e, vagos como véus,
Os ramos das árvores adejam como asas.

Frios regatos correm sobre um leito de pedra;
Os amáveis mochos nadam vagamente no ar
Todo perfumado de prece e de mistério;
Por vezes da água eleva-se um clarão.

Sobe ao longe a forma débil as colinas
Como um amor ainda indefinido,
E o nevoeiro que se ergue das ravinas
Parece apontado a algum fito comum.

E tudo isto como um coração e uma alma,
E como um verbo, e de um amor virginal,
Adora, abre-se num êxtase e reclama
O Deus clemente que nos guardará do mal.



Paul Verlaine, Jadis et Naguère, 1884.
- trad. minha (originalmente publicada na Enfermaria 6).

*

CRIMEN AMORIS

À Villiers de l’Isle-Adam.



Dans un palais, soie et or, dans Ecbatane,
De beaux démons, des satans adolescents,
Au son d’une musique mahométane
Font litière aux Sept Péchés de leurs cinq sens.

C’est la fête aux Sept Péchés : ô qu’elle est belle !
Tous les Désirs rayonnaient en feux brutaux ;
Les Appétits, pages prompts que l’on harcèle,
Promenaient des vins roses dans des cristaux.

Des danses sur des rythmes d’épithalames
Bien doucement se pâmaient en longs sanglots
Et de beaux chœurs de voix d’hommes et de femmes
Se déroulaient, palpitaient comme des flots,

Et la bonté qui s’en allait de ces choses
Était puissante et charmante tellement
Que la campagne autour se fleurit de roses
Et que la nuit paraissait en diamant.

Or le plus beau d’entre tous ces mauvais anges
Avait seize ans sous sa couronne de fleurs.
Les bras croisés sur les colliers et les franges,
Il rêve, l’œil plein de flammes et de pleurs.

En vain la fête autour se faisait plus folle,
En vain les satans, ses frères et ses sœurs,
Pour l’arracher au souci qui le désole,
L’encourageaient d’appels de bras caresseurs.

Il résistait à toutes câlineries,
Et le chagrin mettait un papillon noir
À son cher front tout brûlant d’orfèvreries :
Ô l’immortel et terrible désespoir !

Il leur disait : « Ô vous, laissez-moi tranquille !
Puis, les ayant baisés tous bien tendrement,
Il s’évada d’avec eux d’un geste agile,
Leur laissant aux mains des pans de vêtement.

Le voyez-vous sur la tour la plus céleste
Du haut palais avec une torche au poing ?
Il la brandit comme un héros fait d’un ceste :
D’en bas on croit que c’est une aube qui point.

Qu’est-ce qu’il dit de sa voix profonde et tendre
Qui se marie au claquement clair du feu
Et que la lune est extatique d’entendre ?
« Oh ! je serai celui-là qui créera Dieu !

« Nous avons tous trop souffert, anges et hommes,
« De ce conflit entre le Pire et le Mieux.
« Humilions, misérables que nous sommes,
« Tous nos élans dans le plus simple des vœux,

« Ô vous tous, ô nous tous, ô les pécheurs tristes,
« Ô les gais Saints ! Pourquoi ce schisme têtu ?
« Que n’avons-nous fait, en habiles artistes,
« De nos travaux la seule et même vertu !

« Assez et trop de ces luttes trop égales !
« Il va falloir qu’enfin se rejoignent les
« Sept Péchés aux Trois Vertus Théologales !
« Assez et trop de ces combats durs et laids !

« Et pour réponse à Jésus qui crut bien faire
« En maintenant l’équilibre de ce duel,
« Par moi l’enfer dont c’est ici le repaire
« Se sacrifie à l’Amour universel ! »

La torche tombe de sa main éployée,
Et l’incendie alors hurla s’élevant,
Querelle énorme d’aigles rouges noyée
Au remous noir de la fumée et du vent.

L’or fond et coule à flots et le marbre éclate ;
C’est un brasier tout splendeur et tout ardeur ;
La soie en courts frissons comme de l’ouate
Vole à flocons tout ardeur et tout splendeur.

Et les satans mourants chantaient dans les flammes
Ayant compris, comme s’ils étaient résignés !
Et de beaux chœurs de voix d’hommes et de femmes
Montaient parmi l’ouragan des bruits ignés.

Et lui, les bras croisés d’une sorte fière,
Les yeux au ciel où le feu monte en léchant,
Il fit tout bas une espèce de prière
Qui va mourir dans l’allégresse du chant.

Il dit tout bas une espèce de prière,
Les yeux au ciel où le feu monte en léchant…
Quand retentit un affreux coup de tonnerre,
Et c’est la fin de l’allégresse et du chant.

On n’avait pas agréé le sacrifice :
Quelqu’un de fort et de juste assurément
Sans peine avait su démêler la malice
Et l’artifice en un orgueil qui se ment.

Et du palais aux cent tours aucun vestige,
Rien ne resta dans ce désastre inouï,
Afin que par le plus effrayant prodige
Ceci ne fût qu’un vain rêve évanoui…

Et c’est la nuit, la nuit bleue aux mille étoiles ;
Une campagne évangélique s’étend
Sévère et douce, et, vagues comme des voiles,
Les branches d’arbres ont l’air d’ailes s’agitant.

De froids ruisseaux courent sur un lit de pierre ;
Les doux hiboux nagent vaguement dans l’air
Tout embaumé de mystère et de prière ;
Parfois un flot qui saute lance un éclair.

La forme molle au loin monte des collines
Comme un amour encore mal défini,
Et le brouillard qui s’essore des ravines
Semble un effort vers quelque but réuni.

Et tout cela comme un cœur et comme une âme,
Et comme un verbe, et d’un amour virginal,
Adore, s’ouvre en une extase et réclame
Le Dieu clément qui nous gardera du mal.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Obra Completa de Arthur Rimbaud


A chegar às livrarias e à Feira do Livro de Lisboa: Obra Completa de Arthur Rimbaud (trad. Miguel Serras Pereira e João Moita)
Reúne-se aqui a obra de Arthur Rimbaud.
Excluíram-se apenas os poemas em latim, os exercícios escolares, e algumas cartas comerciais sem interesse.
A parte referente à poesia é bilingue.
Muitos dos poemas são traduzidos pela primeira vez em Portugal. O mesmo acontece com a correspondência literária e a novela «Um Coração debaixo de Uma Sotaina», que é importante para compreender a obra de Rimbaud e é um dos seus raros textos cómicos.
Dos seus poemas em verso e em prosa mais conhecidos, «O Barco Ébrio», Uma Temporada no Inferno e Iluminações, são apresentadas novas traduções.
A aventurosa vida pós-literária de Rimbaud é abordada no prefácio e nas cartas e relatórios que escreveu.

«É habitual falar-se na existência de um mistério na vida de Rimbaud, o precoce abandono da poesia no apogeu da criatividade literária.
Mas essa é apenas a parte visível de um enigma maior que é a ligação entre a sua vida de poeta e a de negociante em Áden e na Abissínia.
A verdade é que a sua última década de vida ilumina com luz retrospectiva a poesia que de outro modo não seria a mesma, tal como não seria a mesma a imagem que hoje temos de Rimbaud se ele tivesse envelhecido nos salões literários de Paris.
Sem esse abandono não teríamos uma noção exacta da autenticidade da sua procura visionária e das experiências e sofrimentos que por causa dela consentiu ou se impôs.
É por isso que a poesia que Rimbaud escreveu parece existir suspensa num tempo de incorruptível juventude.» [Do Prefácio da autoria de Francisco Vale]

sábado, 12 de maio de 2018

Paul Verlaine (I)


PARA ARTHUR RIMBAUD

Mortal, anjo E demónio, ou seja, Rimbaud,
O primeiro lugar neste meu livro mereces,
Apesar do asno pedante que te chamou glabro
Devasso, rebento de monstro, ébrio pupilo.

Espirais de incenso e acordes de alaúde
Tua entrada assinalam no templo da memória
E teu nome radioso cantará na glória,
Porque me amaste como só amar se deve.

Para as mulheres serás mancebo grande e forte,
Muito belo de uma beleza rústica e travessa,
E desejável, de uma indolência escandalosa!

A história esculpiu-te triunfante da morte
E a gozar a vida nos mais puros excessos,
Teus pés brancos assentes na cabeça da Inveja!


Paul Verlaine, Dédicaces, 1894.
- trad. minha


*


A ARTHUR RIMBAUD

Mortel, ange ET démon, autant dire Rimbaud,
Tu mérites la prime place en ce mien livre,
Bien que tel sot grimaud t'ait traité de ribaud
Imberbe et de monstre en herbe et de potache ivre.

Les spirales d'encens et les accords de luth
Signalent ton entrée au temple de mémoire
Et ton nom radieux chantera dans la gloire,
Parce que tu m'aimas ainsi qu'il le fallut.

Les femmes te verront grand jeune homme très fort,
Très beau d'une beauté paysanne et rusée,
Très désirable, d'une indolence qu'osée !

L'histoire t'a sculpté triomphant de la mort
Et jusqu'aux purs excès jouissant de la vie,
Tes pieds blancs posés sur la tête de l'Envie !