quarta-feira, 8 de abril de 2020

Alpiarça, 17/03/2020


Um meio-dia translúcido e sem peso na quietude ondulada da lezíria. Um silêncio povoado, um frenesim imperceptível, a incessante azáfama da vida na imobilidade da hora. Também eu participo do silêncio, deixo alastrar o veneno.

domingo, 5 de abril de 2020

Santarém-Lisboa, 12/03/2020


O verde a toda a volta é benigno como um patíbulo. Os canaviais sobrepujam a altura dos caminheiros. Nas estremas dos terrenos, as alfais reluzem de suor. Os regos entre as parcelas jorram como corações esfaqueados. Há estacas espetadas na terra, delimitando zonas de pastoreio. Cabos de alta tensão ondulam e crepitam, transbordantes, contra um céu lúgubre e espumoso. Ratos espavoridos atravessam os campos virentes, acossados pelo voo planado de um falcão. Ao fundo, o indecoroso silêncio de uma aldeia espectral.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Alpiarça, 29/03/2020



Ainda o sol não se pôs e já a escuridão cerra fileiras a oriente, o cutelo nos dentes. Fecharam as asas e lançaram-se num ataque extemporâneo, enredando-se nos ramos pesados de acidez do limoeiro. São nuvens sopradas pelos brônquios pestilentos dos deuses. Terão passado antes de desabarem noutras paragens, onde o exército das cegonhas em revoada se reuniu e as espera para uma refrega sem tréguas: cairá neve sobre o campo de batalha. Será então altura de apanhar os limões caídos com que desdenharei a noite. Recolho-me, libo a peçonha da indiferença: sugar os gomos, cuspir as sementes.