Um meio-dia translúcido e sem
peso na quietude ondulada da lezíria. Um silêncio povoado, um frenesim imperceptível,
a incessante azáfama da vida na imobilidade da hora. Também eu participo do
silêncio, deixo alastrar o veneno.
João Moita
quarta-feira, 8 de abril de 2020
domingo, 5 de abril de 2020
Santarém-Lisboa, 12/03/2020
O verde a toda a volta é benigno como um patíbulo. Os
canaviais sobrepujam a altura dos caminheiros. Nas estremas dos terrenos, as
alfais reluzem de suor. Os regos entre as parcelas jorram como corações
esfaqueados. Há estacas espetadas na terra, delimitando zonas de pastoreio. Cabos
de alta tensão ondulam e crepitam, transbordantes, contra um céu lúgubre e
espumoso. Ratos espavoridos atravessam os campos virentes, acossados pelo voo
planado de um falcão. Ao fundo, o indecoroso silêncio de uma aldeia espectral.
segunda-feira, 30 de março de 2020
Alpiarça, 29/03/2020
Ainda o sol não se pôs
e já a escuridão cerra fileiras a oriente, o cutelo nos dentes. Fecharam as
asas e lançaram-se num ataque extemporâneo, enredando-se nos ramos
pesados de acidez do limoeiro. São nuvens sopradas pelos brônquios pestilentos
dos deuses. Terão passado antes de desabarem noutras paragens, onde o exército das
cegonhas em revoada se reuniu e as espera para uma refrega sem tréguas: cairá
neve sobre o campo de batalha. Será então altura de apanhar os limões caídos
com que desdenharei a noite. Recolho-me, libo a peçonha da indiferença: sugar
os gomos, cuspir as sementes.
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