domingo, 23 de dezembro de 2012

Gustave Achille Guillaumet, Dans le désert, 1867.


Quando cheguei ao deserto, vi que tinha regressado.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Hello, goodbye

Hello, goodbye - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita 


Hello
goodbye
We came just to die

How you
would dare
to be speaking out loud

I’ve been faking
I’ve been hating
I’ve been frowning
To forge my crown
I know
I’ve been strange
I’ve been so low
I’ve been acute
I’ve been so cute
Now

We’re here to blame ourselves
We’re here to let you be
We’re here to love ourselves
We’re here so you’d be freed

Fear…. I mean…
Hope you’re writing it down
Faith I fear
Cause when it comes to the end
It’s faith the sin
Of having no fear at all
And fear is the meaning
Of knowing no fear at all

Time how can we bind
Your hands?

We have never made it in time
We have never died

Space how can you bare
our waves?

We have never faltered in time
We are yet to die

I’m counting one two three four
I’m getting old I’m tearing gold
I’m seeding  on you

domingo, 16 de dezembro de 2012

Gustave Doré, L'énigme, 1871

Édipo, o enigma és tu mais o que em ti propende para a desolação. Vê, instaurei a peste para que viesses: em tudo amas a aridez do teu próprio coração. Vencedor da esfinge, falta-te vencer o que em ti se perde.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012


Charles-François Daubigny, La neige, 1873


Vi a água vedada na terra no céu e sob o olhar dos corvos e vi os ventos remindo e a escassez alastrando pelo campo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

felonia/agma, de Jorge Melícias

[Sairá por estes dias o novo livro de Jorge Melícias, felonia/agma, um volume que inclui os 14 textos de agma e os 14 textos inéditos que deram origem a felonia. Com a chancela da Cosmorama, o livro conta ainda com prefácios meu, a felonia, e do Fernando de Castro Branco, a agma.]



Teologia Invertida ou a Culpa como Redenção
(sobre felonia, de Jorge Melícias)

Quando tivermos aniquilado o mundo e nos descobrirmos sós,
orgulhosos da nossa façanha, Deus, rival do Nada,
aparecerá como uma última tentação.
Emil Cioran

Quando abordamos um livro de um poeta que ao lon­go de um percurso que se quis irrevogável, marcado por uma progressiva intransigência a ditames de índole esté­tica ou feudal, soube estancar os afluentes e obstinada­mente expurgar a torrente de atritos até que se tornasse límpida e inequívoca, sabemos que estamos na presença de uma obra da maturidade do seu autor. felonia, de Jorge Melícias, é um desses casos em que quase nenhum ho­rizonte de expectativas, fundado em códigos de leitura ou desenvoltura cultural, intervém nas potencialidades hermenêuticas do texto. Qualquer leitor, estou em crer, desde que minimamente receptivo, pode aceder ao sig­nificado imediato do poema, uma vez que nesta poesia não se esboçam linhas de fuga ou se dissimulam entreli­nhas que afaguem com mesuras a inteligência do leitor. Ao contrário do que eu próprio já afirmei noutros lugares e muitos dos críticos atestam, a poesia de Jorge Melícias não é difícil. Com efeito, dificilmente se encontra poesia mais cristalina, quer nos recursos de enunciação quer na parafernália alegórica, do que a do poeta que nos ocupa. A dificuldade existe – não há como fugir a isso –, mas ela está na vida, não propriamente nos poemas enquan­to produção oficinal. Para lá do quotidiano dos afectos e das volições, e da estrita aderência à exterioridade em que nos extravasamos em ordem à subsistência, existe o domínio em que as condições da própria vida, os alicer­ces desconhecidos a partir dos quais se propaga, se pa­tenteiam em toda a sua violência e volubilidade. Acordar um homem subitamente e encontrar-se nesse domínio é inaugurar no mundo a dificuldade. Dizer pois que a poesia de Jorge Melícias é difícil é uma falácia com que se escusam os que escolheram o primado da exterioridade (e a psicologia também é, ou ainda é, uma exterioridade) em detrimento daquilo que por não ter resposta, nem por isso é menos evidente. É fácil a poesia de Jorge Melí­cias, o que não invalida que seja de difícil adesão.
Em felonia a impermeabilidade do universo pessoal de Jorge Melícias é cabal. Estamos na presença de um poe­ta que soube fundar a sua própria língua para um dizer mais chegado a uma verdade que se fez indefectível ao mesmo tempo que inapelável. O mundo que inaugurou traz o cunho de uma individualidade que não pode ser imitada sob a pena de trair a sua origem. Pode-se falar com a língua de outro, mas então é o outro que fala por nós. Não me recordo de nenhum fenómeno de individua­ção tão acentuado na poesia portuguesa recente, na qual prolifera uma uniformização temática e tonal a todos os títulos confrangedora.
Poetas há cujo labor assenta na transposição estética de uma experiência real ou ficcional. Esses são os mais facilmente antologiáveis. Em tais casos, cada poema pro­porciona uma visão, necessariamente parcial, do aconte­cer humano. A poesia de Jorge Melícias exime-se a esses pressupostos. Nada evoca uma experiência, nada repro­duz uma vivência concreta ou concretizável; ali cada lan­ce é definitivo, o ser joga-se de uma vez para testar os seus limites. Não há sobras com que entreter uma vida. Tudo se resolve para sempre na adesão a situações-limite, termo cunhado pelo filósofo existencialista Karl Jaspers, em que o ser se identifica plenamente consigo próprio e com o intervalo que o separa do que é ainda ser, mas é já outro Ser. O domínio desta poesia é, pois, o da pura abs­tracção em que o homem se põe defronte da sua consci­ência para perceber que o único frémito que a atravessa é o do conflito que opõe uma vontade a uma necessidade irreconciliáveis (Ricoeur), isto é, uma liberdade constitu­tiva a uma autoridade, seja ela dever moral ou impulso fisiológico, também ela constitutiva e que lhe exige su­jeição. O domínio em que estes conflitos se resolvem ou se expandem é o domínio da religião. Estamos pois indu­bitavelmente diante de uma poesia de cariz religioso.
Se é quase lugar-comum dizer que toda a poesia é uma interpelação a Deus, caso em que claramente se toma a parte pelo todo, no que toca à poesia de Jorge Melícias estou em crer que nenhuma definição pode ser tão con­clusiva, embora, como veremos e como não podia deixar de ser, o sentido dessa interpelação tenha sofrido uma actualização muito pessoal. Senão vejamos o que o pró­prio autor declarava em entrevista a valter hugo mãe, em 2007: “só pela reiteração do horror algum tipo de comutação da culpa [é] possível” (Cosmorama 07: 2007, 8). Se por um lado não há sentimento mais religioso que a culpa, por outro, a concepção proposta por Melícias de penitência deixa antever um propósito que de maneira nenhuma se coaduna com a escatologia cristã. Aqui a salvação não procede mais do retorno ao seio redentor de um deus que acolhe a sua criação depois da penitên­cia terrena sob o jugo da culpa, em que a culpa, como antecipação e consequente interiorização do castigo, vai comutando a pena e preparando os corações para a digni­dade de deus. Na poesia de Jorge Melícias, pelo contrário, a remição da culpa procede de uma adesão incondicional ao crime, através da qual este, por reiteração convicta, se torna insensível a conteúdos morais que possam ser imputados ao acto, e se afirma em total independência na mera inscrição dos processos mecânicos que consti­tuem o crime. “Tudo o mais deverá ser imputado a quem vê:// a rapina/ de uma campo de batalha// ou os mastins/ cruzando a ternura da devastação.” (p. 26). Quem assiste à carnificina, nós, leitores, é que decidimos ou não das implicações morais do cenário que se nos apresenta; o cenário, ele mesmo, e o actor (não confundir com autor) que nele labora, esses há muito que se colocaram para lá da possibilidade de identificação com o humano. A nós a significação – vemos o horror da chacina, ou vemos a be­leza nos olhos dos mastins que se saciam com a vianda? –, a eles a sua vocação. Não se trata aqui da constatação dostoievskiana de que se Deus não existe tudo é permi­tido, mas antes da assunção cabal do crime como últi­ma escatologia. Não é porque a testemunha se ausentou que se pratica o mal (não é a impunidade do mal que se procura nesta poesia); pratica-se o mal para que nada além dele possa vir intrometer-se como contraponto a esse procedimento, pratica-se o mal para se assumir a culpa tão inteiramente que não se chegue a amar nada além dela. Haverá redenção mais doce do que aquela que procede do amor?
De todos os livros de Jorge Melícias, felonia é aquele que mais explicitamente coloca em evidência as implica­ções teológicas e escatológicas desta poesia. Se há uma clara continuidade evolutiva e como que uma unidade temática na obra do autor, creio também poder afirmar que felonia apresenta uma revolução no que diz respeito à focalização temática desta poética. agma [2009], como de resto Fernando de Castro Branco muito bem apontou, parece ser o culminar de um percurso que acaba de se fechar sobre si mesmo e ao longo do qual o humano foi cedendo lugar ao desumano, até que um corpo inorgâ­nico, osso desvitalizado ou vara sincopada, se erguesse como monumento à brutalidade. Lenho a lenho o bisturi foi abrindo caminho através na massa orgânica, até que os poemas se apresentassem unânimes numa paisagem intrínseca, isentos de qualquer sedimento que sugerisse a possibilidade de uma revitalização. O projecto enun­ciado em incubus [2004] – mas já antes – parece ter-se esgotado, isto é, consumado em agma, de tal forma que já em felonia o poeta pode dizer: “eu a encimar o luto/ ponho grinaldas.” (p. 21), auto-ironia que vem acentu­ar o êxito do actor no seu propósito de desafetação do mundo através da assepsia do horror.
Consumada que estava a perfeição do crime, que assu­mido como vocação não carecia já de justificação e, por­tanto, valoração, restava a Jorge Melícias duas opções: reiterar o propósito até que o silêncio lhe sobreviesse, ou, ainda que sem transigir à vocação tão rigorosamen­te adestrada, efectuar uma deriva focal que permitisse aprofundar, já não a mecânica do crime, mas a ontologia do criminoso. Sabiamente, ou apenas naturalmente, o poeta decidiu-se por esta segunda via. A inversão a que esta deriva dá lugar é desde logo evidenciada no título, felonia [revolta do escravo contra o seu Senhor], em que a acção reputada, a revolta, pressupõe relações biunívo­cas entre o escravo e o seu Senhor, mas também, e prin­cipalmente, o escravo e o seu crime. Daí que neste livro o léxico de semantizações confinantes com a descrição desafectada de uma mecânica do horror que predomina­va noutros livros desse lugar à predominância do léxico de pendor axiológico, como se o criminoso se pusesse a tirar conclusões sobre o seu crime e para isso se visse obrigado a abrir mão das restrições lexicais que se im­punha para incorporar a uma nova luz, isto é, com novo significado, os significantes que antes tinha rasurado da sua língua. É assim, por exemplo, que o poeta pode di­zer, sem abdicação do rigor semântico e formal que o caracteriza, que “(…) as ferramentas da penitência/ não encontrarão no meu corpo/ ângulo para a dor.” (p. 19), ou que “As pás do remorso não porfiam/ quando todo o gesto/ rasura a compaixão” (p. 21). Estamos na pre­sença de um criminoso transfigurado pelo seu crime, ou direi antes, de um criminoso em total identificação com o seu crime, tanto que é impossível distingui-los, dado que nenhum espaço, por ínfimo que fosse, foi deixado à compaixão, sentimento que aparece aqui como referente meramente indicativo e nunca actuante.
Como acabámos de ver, este aprofundamento de foco, do crime (exterioridade) para o criminoso (interiorida­de), na poesia de Jorge Melícias não representa nenhu­ma regressão em relação ao propósito estabelecido nos livros anteriores. Não é pelo facto de o criminoso se pôr a reflectir sobre o seu crime que ele chega a conclusões opostas às premissas de que partiu. Por mais que o cri­minoso aprofunde o sentido do seu crime, nenhuma duplicidade moral vem causar atrito às suas convicções, nenhuma hesitação, nenhum temor, nenhuma ambigui­dade ética vem obscurecer o espelho em que o sujeito se projecta cristalino na plenitude dos seus desígnios. Se o poeta sabe que “(…) é a culpa que [o] define/ mais que o crime.” (p. 19), também é verdade que ele viu “(…) a [sua] mão em tudo o/ que se demarca da piedade (…)”, e só então se “comoveu” (p. 20), como se a comoção se tivesse eximido a qualquer valoração afectiva ou moral. Eis aquilo a que ouso chamar “axiologia exangue”. A liça está deserta, regada de sangue coalhado e povoada de corpos desfigurados. Um homem novo – ou não será já um homem? – deambula pelo lugar, contempla o seu feito. Sabe que se pode fundir com a paisagem e abraçar a sua obra como quem abraça um membro amputado. Uma e outro são a mesma carne nua apodrecendo, e se o sangue ainda corre dentro, não é já o coração, mas êm­bolos que o impulsionam; e se inadvertidamente verte ainda uma gota, nenhum alimento desce à terra estéril. Eis que regressa ao útero – afinal, o horror era a sua úni­ca vocação.
Dificilmente se pode conceber poesia mais desfasada da dimensão histórica da realidade. Estamos no estrito âmbito do mito, esse portal aberto entre o humano e o divino. Cada poema de felonia percorre com um látego esse portal, e no extremo em que estala, deus é fustigado com a fúria do anátema no paroxismo da negatividade em que a negação começa a ser já exaltação, furor beato, ou ainda, arrisco, santificação: “A sedição é o meu único preito.” (p. 23), ou “O horror era então a sua própria li­turgia.” (p. 24). Cada poema é a formulação de uma dá­diva, ou melhor, a negação de uma dádiva, uma prece invertida que consiga “engendrar deus/ como uma ideia acuada/ até à capitulação.” (p. 30), e na qual “A rarefac­ção de deus/ era então uma ideia/ que eu trabalhava com afinco.” (p. 28). A mesma abnegação dos santos, o mes­mo propósito redentor. Nega-se a deus para o reencon­trar no fim, ainda que em pura negatividade: “Acalento a promessa da felonia/ como se domiciliasse/ a própria graça.” (p. 19). Todos os ingredientes de uma teologia se reúnem na poesia de Jorge Melícias em torno de um mito fundador que lhe estrutura o sentido. Assim, da mesma forma que os crentes se comovem com os descrentes que ainda não escutaram a palavra do Senhor, também o su­jeito poético de felonia se condói pelo que “ficou por cal­cinar”: “Não me comove a extensão da atrocidade.// (…) // É o que ficou por calcinar/ que me move.” (p. 27). Que melhor divisa para um santo do que a comoção pelos pecadores? Num caso como no outro, só o que ainda não foi redimido é susceptível de piedade. O santo positivo e o santo negativo identificam-se, pois, num ponto: tanto um como o outro foram já inocentados.
O fim que aqui se persegue não é diferente do de ne­nhuma religião: a redenção, a conquista do horizonte em que nos sentimos justificados e identificados com a existência, transposto que esteja o abismo que nos sepa­ra daquilo que algum dia chegaremos a ser, o horizonte sempre adiado que apenas antevemos. Tão-só, no caso da poesia de Jorge Melícias, esse horizonte não precisa mais de ser adiado: o dia do Juízo Final já chegou, é ele, aliás, que se nos apresenta em toda a sua glória e mons­truosidade. A chacina foi feita, o escolhido foi identifica­do: aquele que fez da chacina a sua morada, isto é, aque­le que requisitou ao remorso o seu próprio bem-estar.
A assunção da amoralidade, tanto quanto ela é defini­tiva em Jorge Melícias, representa pois, na minha leitura, uma verdadeira conquista do Paraíso depois da remissão integral da culpa. Não porque deus tenha comutado os pecados (aqui deus remete-se à sua insignificância), mas porque onde não há moral não há culpa, e onde não há culpa já se operou a redenção – que a corrupção não é precedida por nenhum estado de inocência, como já sa­bemos da teologia Cristã e do mito do Pecado Original. Somos, desde o princípio, a nossa própria culpa. Somos, em toda a extensão do nosso corpo, o nosso próprio pe­cado. Aí o nosso lar, aí o nosso deus. Eis porque “(…) há muito que a penúria/ desertou desta paisagem:/ aqui já nem o desespero faz fé.” (p. 31). Aqui, quanto muito, che­ga-se à fé pela defecção, ao amor pela desafectação, à pie­dade pela reverberação do horror. E a redenção, porque ela é sempre o único fim, será a “última traição” (p. 30). “Tudo o mais”, digamo-lo ainda pela última vez, “deverá ser imputado a quem vê” (p. 26), se ainda quiser ver.

João Moita

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pormenor da Catedral Notre Dame de Paris

Para me salvar,
esperei até petrificar o coração.
Ainda espero:
aqui não há lugar para gárgulas envenenadas.