sábado, 4 de agosto de 2012

Wistawa Szymborska (I)

Nota de agradecimento

Devo tanto
àqueles que não amo.

O alívio com que reconheço
que eles são mais importantes para outros.

A felicidade de não ser
o lobo para as suas ovelhas.

A paz que sinto ao pé deles,
a liberdade –
isso o amor não mo pode dar
nem tirar.

Não fico à espera deles,
angustiada à janela.
Quase tão paciente
quanto um relógio de sol.
Compreendo
o que o amor não compreende,
e perdoo
o que o amor nunca perdoaria.

De um encontro até à chegada de uma carta
são só alguns dias ou semanas,
não uma eternidade.

As viagens com eles são sempre tranquilas,
concertos são ouvidos,
catedrais visitadas,
paisagens contempladas.

E quando sete colinas e sete rios
nos separam,
essas colinas e esses rios
podem ser encontrados em qualquer mapa.

Fico-lhes reconhecida
por viver a três dimensões,
num espaço sem lirismo e sem teorias
com um horizonte genuíno e inconstante.

Eles próprios não se apercebem
de quanto guardam nas suas mãos vazias.

“Não lhes devo nada,”
seria a resposta do amor
a esta pergunta aberta.


Wistawa Szymborska
- trad. minha a partir da versão em inglês de Stanislaw Baranczak e Clare Cavanagh

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