quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Poema publicado no nº2 da Revista Ítaca




Como um antiquíssimo astro
o seu rosto pende crepuscularmente
mostrando os sinais evidentes
da volúpia e da morosidade.

Um dia, ao passar por ali,
encontrei-o segurando nas mãos
o seu coração gelado.

Vi que era um anjo muito puro e lento,
o seu olhar era um horizonte escuro,
a neve derretia-se debaixo da sua respiração.

Havia a monotonia dos dedos
contando as luas e os meses,
perdendo-se e recomeçando.

Disse: «
Aproxima-se o tempo dos pentagramas.
Quero estar preparado para esse exercício
de violentas ciladas


Assim rejuvenescem as flores, intensamente belas.
Assim crescem os filhos junto da enseada
e as labaredas do amor incendeiam as sepulturas
e as mitras das deusas claras.

Disse: «
És muito bela e o teu corpo dança
onde o horizonte é uma lâmina rasa.
Eu conheço o teu nome.

E eu recebo-te:
abro lanhos na pedra que ofereces,
trabalho nela com os dentes,
insidiosamente


As palavras estão sentadas em arcos de fogo,
pulsam.
Se o poema o visitar,
ele desaloja as palavras
e senta-se calado,

ardendo.

Disse: «
Escrevo,
caminho para um profundo silêncio.
Essa eloquência.

Escrevo para incendiar a memória.
Acreditar que as mãos criam
a fragilidade do corpo,
que existem porque moldam
a intranquilidade da paisagem.

Um dia os deuses regressarão aos moinhos,
absortos nos seus desígnios.
Observarão as mós girar
como se a solidão nunca os visitasse.
Não convocaria agora as suas navalhas.

Eu estou aqui.
Soergo-me e caio.
À entrada das cidades,
serei todos os pórticos em fogo


Os homens são assim.
Inventam uma luz para nela mergulhar
a sua escuridão.

Disse-lhe: «Virás por essa estrada.
Tocarás a brisa com os teus dedos
levemente apagados
como se dissessem:
Procura-me antes dos meus passos
porque depois deles já não estarei
e neles estou apenas de passagem.


O céu é uma primavera transfigurada:
as flores em seus abismos.

Eis os instrumentos do teu labor.

E eu vou assim,
o coração sem timbales,
os pés feridos.

Chegou a hora do silêncio.
As palavras repousam agora nas margens,
são o sustento de uma ausência.

É por isso que te peço,
dá-me o fogo tripartido do poema,
a sua fulguração.
Como se de chama em chama
a tua face se tornasse mais habitável
para os sinos da manhã.
Como se ensinasses a juntar o silêncio,
peça a peça,
até se escutar essa argêntea fissura que perpassa
as palavras.

Resumem-se a isto os ciclos da fertilidade,
a estas quatro luas incendiadas.

Um cão corre pelas vinhas.
E nunca aprendi
a não me demorar sobre o fogo.»
João Moita, Revista Ítaca 2, Coisas de Ler, 2010.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Apresentação de 'Miasmas'


A apresentação de Miasmas terá lugar este Domingo, dia 28 de Novembro, pelas 16h, no Clube Desportivo "Os Águias", no contexto da Feira do Livro de Alpiarça, e estará a cargo da Prof. Doutora Fernanda Gil Costa, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Imadiatamente a seguir à apresentação decorrerá um Encontro de Poetas, organizado pela Cosmorama, com a participação dos poetas Jorge Melícias, José Rui Teixeira e Fernando de Castro Branco.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Bedtime's Vow

Bedtime's Vow - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita


versão rudimentar
As been said
We are sinful
Aren't we dead
Or just taking the blame
For what pleases God's sake

Mother's dead
We ain't aching
Aren't we bad
Or just creeping as we
Find the course of the damned

As been said
We ain't sad
He got us rubies, pearls and satellites
Sister's fine
We have wine
Fire's burning
Cold luna's line
He had time
To intertwine
Desire and fear
Beauty and death
Blessed and possessed
Aren't we dead

It might take you down
Sorry about that
We do regret
Or maybe it's just that
We do not forget

It might take you down
But the stories we've been telling you
Should fit in your bedtime's vow
So your dreams would deepen
In your vacant sleeps
Where you cry

Listless father's dirge
Connecting with your maladies
But surely morning brings
Pure love's secrets
And a drastic pluck
To defect



www.myspace.com/thedaughtersoflot

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Miasmas (II)

Os miasmas estão finalmente disponíveis. Em breve anunciarei data de lançamento. Para já, o livro pode ser encomendado no site da Cosmorama.





IX

A ferida põe o corpo em perspectiva.
Eu levanto-me triunfal para o crânio do dia
onde mãos divinas remexem
inquinando o culto.
A efemeridade dura.


João Moita, miasmas, Cosmorama, 2010.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

The Daughters of Lot (Agenda)


As filhas de Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

22 Outubro - Side B Live Lounge Bar, Benavente, 21h30. (entrada: 3€)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Miasmas



X

Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão.
Olho o mundo com os globos sob os cascos maduros.
Hoje sou uma revelação metódica:
traio a disciplina.
Canto com o bafo de todas as disposições.
Vi sobre as córneas a besta erguida:
as garras infectadas na pele de Deus,
o caldo rutilando.
Ambos sabiam:
era a Grande Obra.
E eu atava-me aos elementos.
Sublimava-me.
Era na terra uma ocultação.
Deus e Deus amavam-me furiosamente
e eu sabia que me agarrava ao fogo e ao fogo de passagem.
Os pés com que corro são cascos que florescem
sobre os olhos.
A beleza é uma hemorragia que bebo
amargamente.
Hoje canto com uma disposição muda.



João Moita, miasmas, Cosmorama, 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

The Daughters of Lot (Agenda)


As filhas de Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

28 Agosto - Patacão Summer Party, Alpiarça, 22h. (entrada livre)

sábado, 10 de julho de 2010

Arnold Layne [Pink Floyd]


Arnold Layne [Pink Floyd] - versão de Miguel Fernandes

versão rudimentar

quarta-feira, 7 de julho de 2010

The Daughters of Lot (Agenda)

Actualizado

As filhas de Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

30 Julho - Constância, Constância, 22h. (entrada livre)

31 Julho - Teatro Municipal de Vila do Conde, Vila do Conde, 22h. (entrada livre)

domingo, 27 de junho de 2010

Relics of Time


Relics of Time - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita

versão rudimentar


The slipstream of our thoughts
collided with a knife
The razors of the past
obscured our tongues out

Here’s to oblivion
No family ties
The luster of our teeth
the relics of time
the relics of time

The heave that you felt
is giving us strength
The jewel in this
it’s in the greed
Rapacity’s the crown
of our old dream
Father’s the symbol of you

We’re getting so out of season
Love is quitting and splitting the
grasp you took from our wombs
with a hook so that we would

be the slipstream in your thoughts
the danger in the night
if you look for the past
what would you figure out

Here’s to the word that fits
the hole in your crimes
The shadows on our bellies
Are relics of time
Are relics of time

The time it took for us to cry
Had made us so much more wise
The time it took for us to die
Had made us so much more wise
The time it took for us to try
Had made us so much more wise

The heave that you felt
is giving us strength
The jewel in this
it’s in the greed
Rapacity’s the crown
of our old dream
Father’s the symbol of you


www.myspace.com/thedaughtersoflot

sexta-feira, 25 de junho de 2010

The Daughters of Lot (Agenda)


As filhas de Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

31 Julho - Teatro Municipal de Vila do Conde, Vila do Conde, 22h. (entrada livre)

terça-feira, 18 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

The Daughters of Lot (Agenda)

As filhas de Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

14 Maio - Bar Outra Vez Ilda, Alpiarça, 22h. (entrada livre)
19 Maio - Music Box, Lisboa, 22h. (www.blueticket.pt)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

()

Os novíssimos (e canonizados) poetas da vontade doente, do derrotismo congénito, do verso desiludido, do ânimo conspurcado e da coragem atrofiada, nem por isso deixam de encher os seus livros de poemas com dedicatórias aos amigos. Uma pessoa verdadeiramente generosa nunca ofereceria nada que desprezasse.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

State of Grace


State of Grace - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita

versão rudimentar

We can make it go away
You can make us change our ways
Sisters are well-mannered girls

It’s so pleasant to be here
Little sister’s having fun
Amazes us how you managed to do so

And you might have a kiss
If you promise not to tease
The rumps we uncover
The sneers we discover
Our poisoned lips around your…

Now you can return the favor
For it’s the chance to
Every soul become our sister
Have you imagined
It could be so wonderful
Clean all the soot and stab

Get the in terms with your nastiness
Sisters have been perverted
Legitimated by voices within
We are forging our state of grace

The silver gem you left in our hair
it feels like a blessing
We are trying to make you see that
Every will is magical

Now you can return the favor
For it’s the chance to
Every soul become our sister
Have you imagined
It could be so wonderful
Clean all the soot and stab

www.myspace.com/thedaughtersoflot

quarta-feira, 24 de março de 2010

Narcisus


Narcisus - música: Miguel Fernandes; João Moita / letra: João Moita

versão rudimentar



Everything we touch shines
(And) that’s what causes us to blind
By touching the mirrors / we made the sun

Everything we touch blinds
That’s what causes us to shine

(Our)task is so weary
(It) requires a lot of lies
Even though we’re weary
Lies light a candle light

There’s a lullaby
That can make your eyes cry
Instead we belt our lies
Our chant will never die

By the taste of the arrow
You can tell the lungs
That spat it out

Our misfortunes are taking place
We can never make mistakes
Hands are seeking where to rend
Longing for the dimming sight
We’re in love with our own selves
But our love is unrequited

Mirror, mirror who are we?
Why our souls are blackening thee?
Mirror, mirror reflect our souls
as coals



www.myspace.com/thedaughtersoflot





Os Daughters of Lot estão a concurso para irem tocar ao Super Bock Super Rock. Para isso é preciso recolher o máximo de votos possíveis. Basta clicar aqui e registar no site. Depois de receber o mail de confirmação podem clicar no link directo para a nossa banda, fazer log in e votar. As Filhas de Lot agradecem a quem tiver a paciência.

sábado, 13 de março de 2010

Ulisses

Devolveria o sangue às entranhas dos pretendentes
se pudesse voltar a singrar as entranhas do mar.

sábado, 6 de março de 2010

Édipo

Por ter os pés furados chamaram-me Édipo.
Pregaram-me na cruz
porque amei o meu pai e matei a minha mãe.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Narciso

Tudo o que toco brilha.
Dessa ciência ceguei.

Posso amar as imagens que desconheço.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sempre que me afasto dos teus desígnios
vejo-te de perfil afiando as facas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Sulfur rain pours onto our souls

Sulfur rain pours onto our souls - música: Miguel Fernandes

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Three Studies for a Crucifixion (II), Francis Bacon, 1962.



Também eu muitas vezes amanheci sem danças.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Divina Música - Antologia


A expensas da Proviseu - Associação para a Promoção de Viseu e Região, e com o fim de comemorar o 25º aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu, foi publicada esta antologia de poesia sobre música organizada pelo poeta Amadeu Baptista. Nela participo com este poema:


Há uma voz encantada que me chama mas eu venho
pela chacina e pela vista abrasada a grisu.
Há uma voz encantada e a beleza é ainda bela
e sem necessidade de explicação
mas eu venho pelos espasmos e
pelas silhuetas vulcânicas
que vogam iradas e imateriais.
Há uma voz que encanto a golpes e blasfémias
e que transluz nocturna,
voz-napalm que estendo como corda.
Eu venho açular os maxilares contra a palavra
a palavra com sangue
a palavra sangue
dita
atirada com sangue e espasmos
como coração exangue
com o sangue sufocando a voz
e a voz encantando ainda já sem voz
onde eu estou como a descoberto para cantar por baixo.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

From afar


From afar - música: João Moita; Miguel Fernandes / letra: João Moita
versão rudimentar

Those are the laments of bloom
The rites are ending too soon
And we are waving much too far

The orchids are daring to moan
The landslides are coming on you
And we are mourning much too far

We’re taking the moon to the sun
And yet nothing is done

The haze is sifting the warmth
The clouds are crumbling on you
And we are trembling much too far

Sometimes we understand
The echo of something grand
But we are dazing much too far

We’re taking the moon to the sun
And yet nothing is done

We are curling around ourselves
Lips over feet
Our arms are closing in
Reality becomes so secret
So you won’t find your way in
Trough the maze of our apathy

We’re taking the moon to the sun
And yet nothing is done

www.myspace.com/thedaughtersoflot

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Sisters' Dialogue

Sisters' Dialogue - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita
versão rudimentar

Right in time little sister
God’s will cannot wait
Offer up your derision
Blood’s seething / I’m conceiving
Life’s intense when you brew your sorrow
Take a rest now it’s my turn

And now you rest your case
oh oh
And now I force me in
Our plan is succeeding
Don’t be afraid
God’s beholding our actions
Look for the time you waste

Little sister eyes stop seeing
Ears’ bumping from the inside
I’m start feeling ravenous

I am divided
Bursting from within
I’m being praised and stimulated
I’m start feeling so magical
I am dying
In the hands of God
I’m conceiving and seceding
Blasphemy is raising soon

This situation is getting oh so fragile
Every time we move apart from your desires
Hands start losing touch / Heart becomes so helpless
Restitute integrity by letting us defect

www.myspace.com/thedaughtersoflot

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Todas as histórias têm um fim, não necessariamente feliz. Mas quando a manhã se ergue assim, sem propósito e sem louvor, sabemos que o esquecimento já mitiga o mundo. Corramos, pois, para as igrejas, toquemos os sinos. É o tempo dos figos, das preces e do amor: já não há tempo.