quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saint-John Perse (II)

Nocturno

Ei-los maduros, os frutos de um destino temeroso. Do nosso sonho nascidos, do nosso sangue alimentados, assombrando a púrpura das nossas noites, eles são os frutos da prolongada inquietação, eles são os frutos do prolongado desejo, eles foram os nossos mais secretos cúmplices e, tantas vezes próximos da confissão, desviavam-nos pelos seus próprios meios do abismo das nossas noites… Para o fogo do dia todos os favores! ei-los maduros e sob a púrpura, estes frutos de um destino imperioso – Neles não divisamos a nossa vontade.

Sol do ser, traição! Onde se deu o logro, onde a ofensa? onde se deu a falta e onde o pesar, e o erro, qual é ele? Apreenderemos o tema à sua nascença? reacenderemos a febre e o tormento? Majestade da rosa, nós não somos teus entusiastas: numa maior angústia corre o nosso sangue, numa maior severidade vão as nossas preocupações, as nossas rotas são pouco seguras, e a noite é profunda onde se retiram os nossos deuses. Rosas caninas e silvas negras revestem para nós as encostas do naufrágio.

Ei-los amadurecidos, esses frutos de uma outra encosta. «Sol do ser, encobre-me!» - palavra do desertor. E aqueles que o viram passar dirão: quem foi este homem, e qual a sua morada? Iria ele sozinho ao fogo do dia mostrar a púrpura das suas noites?... Sol do ser, Príncipe e Mestre! as nossas obras estão dispersas, os nossos trabalhos sem honra e o nosso trigo sem colheita: as máquinas ceifeiras esperam debaixo da noite. – Ei-los tingidos do nosso sangue, os frutos de um destino tempestuoso.

No seu passo de máquina ceifeira vai a vida sem ódio nem resgate.

1972.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe

- trad. minha

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