sábado, 31 de agosto de 2013

O comboio abre caminho pelo verdura no centro da paisagem. Há papoilas nas ribanceiras, há árvores no topo em desafio: também eu era corajoso se me prendesse a terra. Chegamos ao Vale, penúltima estação. Há cães e casas e a fundura do rio para os que acusam a depressão. Há ao longe a ponte para os que se julgam Deus e querem descer aos homens. Há o comboio e a soleira da última estação. Santarém.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Nos envelopes, as cartas que me escreveste são os meus armários cheios de sombra. De alguma maneira, Antonio, ajudam-me a ser humilde e um guardião menos inábil do sorriso daquela que amo. Nada mais peço à amizade.
Jean-François Millet, Pastora com o seu rebanho, 1864.

Um rebanho pasta ao entardecer: terras abençoadas pela saciedade. Sono leve, sono leve.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Relógios de estação: metrónomos encravados no compasso de nenhuma música. Nesta hora em que o sol se alinha com a terra e se divide no horizonte, os relógios perdem a sombra dos ponteiros. Estão certos como Deus.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Fizeram-me o encómio e alguém estranhou. Estava certo e fez bem em humilhar-me. Mas fez mais pela minha humildade quem me propalou. De todas, a dívida da gratidão é a mais humilhante, porque impagável.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Claudio Rodríguez (IV)

Elevada Jorna

Ditoso aquele que um belo dia sai humilde
e vai pelas ruas, como em tantos outros
dias da sua vida, e nada espera
e, de repente, que é isto?, olha para cima
e vê, atenta no mundo e escuta,
anda, e sente subir-lhe pelos passos
o amor da terra, e prossegue, e abre
a sua oficina verdadeira, e nas suas mãos
brilha limpo o seu ofício, e no-lo entrega
de coração porque ama, e tremendo entrega-se
ao trabalho como criança que comunga
mas sem caber no seu corpo, e quando
se apercebe por fim de como tudo
foi simples, já com a jorna ganha,
regressa alegre a sua casa e sente que alguém
segura a aldraba da sua porta, e não é em vão.

Claudio Rodríguez, Conjuros

- trad. minha
Quando murcham, as flores declinam: pesa-lhes a beleza. Assim também o homem quando chega a idade. A cruz dá-lhe viço.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Na carruagem deserta, um homem escreve. Olha absorto pela janela e escreve. O que vê nunca habitará a página, ainda que esta seja tão desolada quanto a paisagem. Mas de tanto olhar pela janela já vai percebendo de vinhas e do ritmo das estações. Já pode atravessar a paisagem sem que os olhos ardam de tanto ver este dar a ver.

domingo, 25 de agosto de 2013

Uma consciência tranquila dorme de noite, mas de dia é uma insónia insuportável.
A floresta de árvores despidas pelo Inverno e a harpa da chuva cadenciam a manhã. Ruge o vento nos umbrais e o gado espera pacientemente sobre a lama. Nos meus ouvidos, porém, só se ouvem, inapeláveis, as bátegas nocturnas de Chopin. Já quase me abismo, ó leveza da aurora, nestes espelhos profundos, nesta chaga extemporânea.

sábado, 24 de agosto de 2013

As árvores despidas ocultam a copa na transparência. Um prenúncio de Primavera destila por entre os ramos desalinhados um vapor iridescente. O campo respira. Vou na última carruagem em direcção ao centro da minha vida. O gado engorda à beira do caminho, o sol desmaia. Ao longe, o rio faz uma curva.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O travo deste dia é acre como a paz de uma igreja lajeada de mortos que apodrecem com o incenso por cima e a bugia dos círios.
Daqui a pouco levantas-te, depois de descansares de uma noite passada a conservar vidas, vens até à sala acesa pelo sol onde agora escrevo o que não sabes, debruças-te sobre mim, deitado neste sofá com o frio de uma tarde limpa de Inverno, e depositas-me um beijo que agoniza a solidão. Ouço os teus passos, são o eco da escrita.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Às vezes escutamos o poema dentro de nós; ele é bem o timbre e o ritmo. Mas cá fora, sobre o papel, que se inscreve em que nevoeiro? É então altura de calar o poema na cabeça e vir à folha riscar tudo. Aquele que escreve encobre.
O pobre e o poeta comungam no adiamento e na derrogação, e quem pensa dentro deles é a fome – não conhecem nenhum desejo que não seja inteiramente seu. A poesia não tem nenhuma relação com o sustento.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Philip Larkin (I)

Coming

On longer evenings,
Light, chill and yellow,
Bathes the serene
Foreheads of houses.
A thrush sings,
Laurel-surrounded
In the deep bare garden,
Its fresh-peeled voice
Astonishing the brickwork.
It will be spring soon,
It will be spring soon -
And I, whose childhood
Is a forgotten boredom,
Feel like a child
Who comes on a scene
Of adult reconciling,
And can understand nothing
But the unusual laughter,
And starts to be happy.


*

A chegar

Em noites demoradas,
A luz, amarela e fria,
Banha as serenas
Frontarias das casas.
No jardim abandonado,
Um melro canta
Cercado pelos loureiros,
A sua voz acabada de moldar
Deslumbrando a alvenaria.
Logo virá a Primavera,
Logo virá a Primavera –
E eu, cuja infância
Foi um olvidado tédio,
Sinto-me como uma criança
Que chega a um quadro
De adultos reconciliando-se,
E nada percebe além
Da invulgar boa disposição,
E começa a sentir-se feliz.

Philip Larkin, The Less Deceived
- trad. minha

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Saint-John Perse (II)

Nocturno

Ei-los maduros, os frutos de um destino temeroso. Do nosso sonho nascidos, do nosso sangue alimentados, assombrando a púrpura das nossas noites, eles são os frutos da prolongada inquietação, eles são os frutos do prolongado desejo, eles foram os nossos mais secretos cúmplices e, tantas vezes próximos da confissão, desviavam-nos pelos seus próprios meios do abismo das nossas noites… Para o fogo do dia todos os favores! ei-los maduros e sob a púrpura, estes frutos de um destino imperioso – Neles não divisamos a nossa vontade.

Sol do ser, traição! Onde se deu o logro, onde a ofensa? onde se deu a falta e onde o pesar, e o erro, qual é ele? Apreenderemos o tema à sua nascença? reacenderemos a febre e o tormento? Majestade da rosa, nós não somos teus entusiastas: numa maior angústia corre o nosso sangue, numa maior severidade vão as nossas preocupações, as nossas rotas são pouco seguras, e a noite é profunda onde se retiram os nossos deuses. Rosas caninas e silvas negras revestem para nós as encostas do naufrágio.

Ei-los amadurecidos, esses frutos de uma outra encosta. «Sol do ser, encobre-me!» - palavra do desertor. E aqueles que o viram passar dirão: quem foi este homem, e qual a sua morada? Iria ele sozinho ao fogo do dia mostrar a púrpura das suas noites?... Sol do ser, Príncipe e Mestre! as nossas obras estão dispersas, os nossos trabalhos sem honra e o nosso trigo sem colheita: as máquinas ceifeiras esperam debaixo da noite. – Ei-los tingidos do nosso sangue, os frutos de um destino tempestuoso.

No seu passo de máquina ceifeira vai a vida sem ódio nem resgate.

1972.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe

- trad. minha

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Saint-John Perse (I)

Canto para um Equinócio

Certa noite trovejou, e sobre a terra junto aos túmulos eu ouvi ressoar
uma réplica ao homem, que foi breve, e nada foi além do estrondo.

Amigo, a enxurrada do céu esteve connosco, a noite de Deus foi a nossa intempérie,
e o amor, em todos os lugares, regressou às suas fontes.

Eu sei, eu vi: a vida regressa às suas fontes, o relâmpago recolhe as suas engrenagens nas calhas desertas,
o pólen fulvo dos pinheiros acumula-se nos ângulos das varandas,

e a semente de Deus vai reunir-se ao mar com as toalhas malvas do plâncton.
Deus esparso reconduz-nos à diversidade.

*

Senhor, Mestre do solo, vede como neva, e o céu é sem dor, a terra franca de todo o fardo:
terra de Seth e de Saul, de Che Houang-ti e de Quéops.

A voz dos homens está dentro dos homens, a voz do bronze dentro do bronze, e onde quer que no mundo
o céu não tenha voz e o século for sem custódia,

vem ao mundo uma criança da qual ninguém conhece a raça ou o título,
e o génio bate com golpes certeiros nas faces de um rosto puro.

Ó Terra, nossa Mãe, não tenhas necessidade desta súcia: o século está pronto, o século está povoado, e a vida segue o seu curso.
Um canto se ergue em nós que não conheceu a sua fonte e que não terá estuário na morte:

equinócio de uma hora entre a Terra e o homem.


1971.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe
- trad. minha