quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Emily Dickinson III & IV

IT was too late for man,
But early yet for God;
Creation impotent to help,
But prayer remained our side.

How excellent the heaven,
When earth cannot be had;
How hospitable, then, the face
Of our old neighbor, God!

*

Era tarde para os homens,
Mas cedo ainda para Deus;
A criação não ajudava,
Mas a prece estava do nosso lado.

O céu é excelente,
Quando não se pode ter a terra;
Tão acolhedora, então, a face
Do nosso velho amigo, Deus!

Emily Dickinson
- tradução minha

**


THE DAISY follows soft the sun,
And when his golden walk is done,
Sits shyly at his feet.
He, waking, finds the flower near.
“Wherefore, marauder, art thou here?”
“Because, sir, love is sweet!”

We are the flower, Thou the sun!
Forgive us, if as days decline,
We nearer steal to Thee,—
Enamoured of the parting west,
The peace, the flight, the amethyst,
Night’s possibility!

*

Atrás do sol segue suave a margarida,
E quando sua áurea jornada termina,
Senta-se envergonhada aos seus pés.
O sol, despontando, encontra a flor.
“Portanto, saqueadora, estás aqui?”
“Senhor, é que o amor é doce!”

Nós somos a flor, Tu o sol!
Perdoa-nos se, ao entardecer,
Mais perto de ti pilhamos, –
Enamorados do ocaso,
Da paz, do voo, da ametista,
Da probabilidade da noite!


Emily Dickinson
- tradução minha

sábado, 13 de agosto de 2011

Altar da Igreja do Bom Jesus, Braga

Se este não é o meu sangue,
como saberei se a culpa leveda.

Como saberei se é a carne que redimo,
ou apenas a remissão.

Este não é o meu sangue:
não o bebas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Jorge Melícias entre a poesia do excesso e a economia do horror: para além do interdito





















Construí a minha força com aplicação,

metodicamente.

Vergílio Ferreira

É a beleza do que é estranho, desarmónico – penso – para se recuperar a harmonia que se perdeu.

Vergílio Ferreira



Saiu recentemente nesse Brasil que por tradição se mostra tão relutante em receber os poetas portugueses um estudo de um investigador brasileiro, Daniel de Oliveira Gome, dedicado à poesia de Jorge Melícias, seguido de selecção de poemas. Não direi que uma edição deste género se impunha em Portugal; não quero a polícia à perna. O livro leva o título de A poesia do excesso – Rumo às Vísceras de Jorge Melícias, e chancela da TodaPalavra Editora. É muito significativo que alguém que não tenha acompanhado a evolução da poética de Melícias e, portanto, alguém que acabou de tomar contacto com esta poesia (conforme explica na Introdução), tenha encontrado imediatamente matéria e estímulo para um ensaio tão longo. E é tanto mais significativo quanto a leitura desta poesia é tarefa exigente, particularidade que tenderá à rejeição espontânea do leitor mais distraído ou menos preparado. Assim se explica que alguns leitores, desconcertados por uma linguagem tão pessoal e inesperada, a enjeitem como corpo morto – porque assim arrumam a questão, ao colocarem esta poesia na linhagem de outra que repelem, e evitam o confronto e o desconforto que provoca esta voz singularíssima no contexto da poesia portuguesa contemporânea.

A poesia do horror que Jorge Melícias pratica impressiona, diz o autor do estudo que apresentei, pela sua «desafetação», termo dificilmente usado no português europeu. Esta «desafetação», esta ausência de afectos tem, segundo me parece, duas possibilidades de leitura. Se por um lado podemos reconhecer que a ausência dos afectos remete para um estado primordial, pré-civilizacional, no qual as pulsões violentas do homem emergiam da união com a natureza caótica (Bataille), por outro, o início do período histórico, com a interdição dos impulsos naturais instaurada pela ordem do trabalho que veio impor o modo de vida civilizacional (outra vez Bataille), veio metamorfosear esta violência do estado selvagem em crueldade, característica especificamente humana. De facto, só o homem poderá transformar num fim em si aquilo que nos outros animais se apresenta como instrumento ao serviço dos instintos básicos de sobrevivência. Oliveira Gomes destaca a primeira destas leituras, ao mesmo tempo que só muito ligeiramente aponta para a segunda quando reconhece que a poesia de Jorge Melícias se inscreve na “discursividade pós-utópica do mundo em estamos”[1].

Com efeito, afirmamos que a crueldade em Jorge Melícias não deve ser entendida no quadro da sua inscrição no tempo histórico, se o enunciarmos, na sequência de Bataille, como a progressiva separação do homem em relação à natureza pelo investimento de interditos que canalizem a sua energia deletéria em energia produtiva. Neste sentido, só poderemos entender esta poesia como eco de um tempo pós-histórico. Poderíamos facilmente ser conduzidos para um equívoco se pressupusemos que a crueldade em Jorge Melícias radica na falência dos valores na Modernidade, momento histórico que na poesia configurou a figura do poeta maldito. A progressiva afirmação do Mal como contra-valor decorre da progressiva neutralização do Bem (e, no caso, do Belo) como valor. A falência dos Valores Aglutinadores que autenticavam a presença do ser humano no mundo e em referência aos quais se instituía a gradação dos valores (Deus, a Razão, o Comunismo, etc.) deixou a arte sem referente externo a si própria, pelo que não lhe restou alternativa senão virar-se para dentro e ver o que era. A luz que reflectia não era dela, e o que ficou foi um abismo imperscrutável. Então pôde ver-se que o poema não era mais que uma construção linguística capaz de exprimir o homem. Poesia como conhecimento.

Ora, se, como diz o autor, “o que temos são (…) poemas como fetos mortos expelidos de um corpo funcional"[2], ou se “em Melícias não temos nenhum segredo do corpo [isto é, a alma], mas o corpo ele mesmo como um enigma maior, corpo oculto [isto é, cadáver] ”[3], se então o que temos em Jorge Melícias são representações de um horror com «esquadria»[4], sem excesso para onde extravase nem segredo que oculte, se a alma não qualifica as percepções do corpo, a crueldade de Jorge Melícias não se pode opor a nenhum valor do qual desesperássemos, como os românticos malditos, não se afirma como contra-valor que certifique o valor que nega (como Diabo certifica Deus). Esta crueldade é ímpia não por obstinação, mas por vocação, não por subversão, mas devido à naturalização que sofreu após o que será, na narrativa de Melícias, o final da história, coincidindo com a inibição ou ineficácia do interdito que separava e fazia a ponte entre o mundo profano e o mundo sagrado, o cá e o lá onde nos reflectíamos, a terra e o céu. Não há nenhuma espécie de duplicidade moral, ou ambiguidade ética, não há um espelho invertido no qual se reflicta por oposição ao que a nega. Perdoem-me portanto a desfeita os detractores desta poesia como devedora de uma concepção moribunda do fazer poético, segundo a qual o poema acreditaria no seu poder re-ligioso. Só assim entendemos que o poeta afirme que trabalha «a crueldade / pelo lado da exuberância»[5], ou que, sendo «A chacina (é) uma indução / à espera do seu tempo», a instância enunciadora se estabeleça «unívoca» «sobre esse propósito». Não há duplicidade, é univocamente que se estabelece no propósito que persegue: nenhum temor, nenhuma hesitação. Transcrevo em baixo na íntegra o poema que ilustra perfeitamente a ideia que pretendo veicular:


«As pás do remorso não porfiam

quando todo o gesto

rasura a compaixão.


É essa a minha arte: fixar sobre a paisagem

o despojamento

que o horror persegue.


E que nenhum indulto ofusque o meu triunfo:

eu a encimar o luto

ponho grinaldas.»


O campo de batalha está deserto, regado de sangue e povoado de cadáveres e corpos desmembrados. Um homem novo, ou não será já homem?, deambula pelo lugar. Aquela é a paisagem da sua formação, ali escreverá, se escrever, o seu bildungsroman. Estamos no tempo depois de Depois de Cristo, no qual se dissolveu a dissociação entre o bem e o mal. Não são novos valores que se criam – estamos longe da transmutação de valores nietzscheana (embora estejamos mais longe ainda de tudo o resto) –, nem valores antigos que se rebatem: é, como vimos, a ausência de todos os valores, mesmo do primeiro de todos, que é a própria ideia de valor. Axiologia exangue. É aqui que tenho de me separar do autor do estudo sobre Jorge Melícias. Oliveira Gomes parece remeter a crueldade de Melícias para o plano da transgressão, movimento que, ainda segundo Bataille, resgataria a distância entre o terreno e o interditado e o inscreveria na ordem do sagrado. Diz ele: “É assim, neste pacto quase de colecionador de imagens reiteradas, onde a probabilidade de compaixão está previamente rasurada, como um homem possuído (…) [por] «um amor profundo pela impiedade», que Melícias cunha uma dimensão sagrada para aquilo que, usualmente, é posto no reino do profano”[6]. Mas se assim fosse Melícias teria de mostrar temer[7] o interdito, isto é, senti-lo como resistência a ser ultrapassada. Parece-me contudo que o que temos essencialmente é um horror despojado e desinteressado (o verso «uma amor profundo pela impiedade» deve pois ser interpretado não como a assunção de uma adesão, como o amor por uma pessoa ou por uma ideologia, mas como a mera rendição a uma tendência natural, e por isso, sem valoração implícita. Como se ama uma mãe. Outro dos poemas mais recentes, do conjunto agma que abre disrupção, postula o desespero como «forma de beatitude»:


«Vi os campos inçados pela improbidade.


Os justos como plainas alucinadas

sobre a incontrição

das esquírolas.



E o desespero

era uma forma de beatitude.»


Esta beatitude não se projecta como o estado de graça cristão. Não é a beatitude dos absolvidos, mas a dos inocentes, dos que nunca chegaram a pecar: noção que Melícias parece não contemplar nos seus poemas, pelo menos nos mais recentes, que são os que mais agudamente reflectem a maturação quer oficinal, quer conceptual de Jorge Melícias. Não obstante, já a reunião de poemas anterior a agma apontava, logo pelo título, para este paradigma: a longa blasfémia pode ser lido como a implantação permanente da blasfémia, expediente que acaba por atenuar e eliminar a sua compleição transgressora.

Uma poesia assim não se expõe para usufruto. Não celebra nem representa: apresenta-se. Esta é a carne nua apodrecendo; o sangue que corre dentro é mera mecânica, e quando verte uma gota, nenhum alimento desce para a terra estéril. Diz muito acertadamente Oliveira Gomes: “Não podemos mais celebrar o fruto, apenas o limite, a própria interdição do belo, como conceito tradicional, bem como de qualquer forma de superioridade, qualquer elemento que, sentimentalmente, se ponha como soberba, elevação ou acesso”[8]. Procedeu-se à rasura dos afectos e o que agora se ergue é um nervo que se expande e contrai em múltiplas disrupções. Nada mais. Desta forma, a poesia que se apresenta não será mais um poesia lírica, no sentido da captação da subjectividade de um eu autoral, dado que o sujeito poético, na sua concepção tradicional, está praticamente ausente da enunciação, e acaba por ser sempre o leitor que ao ler se reflecte num caco aguçado de espelho, mesmo que a imagem refractada não seja a de si próprio mas a de um seu monstro, ainda que seja monstro apenas aos seus olhos, nunca dentro da dinâmica do poema.

Resta perguntar-nos de que forma é que esta poesia nos pode ainda comover. Inscrita num tempo que considerei pós-histórico, ela afecta-nos na medida em que esse tempo, o tempo da nossa morte, é ainda o nosso tempo, isto é, o tempo dos homens, único que existe. Assim ele assusta-nos pelo que nos dá a ver e comove-nos por nos dar a ver o que, enquanto homens, nos assusta:


«Ergo-me da refrega


e tomo posse sobre o excídio.


Eu vi a minha mão em tudo o

que se demarca da piedade. E comovi-me.»


Se não gostamos do que vemos, não podemos deixar de gostar da oportunidade que nos é dada de ver. Será esta, ou não?, a nossa última dignidade?


REFERÊNCIAS


Bataille, George, O erotismo (3ª ed.), Lisboa, Antígona, 1988.

Gomes, Daniel de Oliveira, A poesia do excesso: Rumo às vísceras de Jorge Melícias, Ponta Grossa, PR, TODAPALAVRA, 2011.



[1] Gomes: 25.

[2] Gomes: 19.

[3]Gomes: 21.

[4]“Gostava que cada poema fosse uma dádiva de pura violência. Mas uma violência velada pela esquadria, como se só angularmente fosse possível escorçar o horror. Uma carnificina sem sangue, uma ablação tão exacta que nada extravasasse.” Jorge Melícias, apud Gomes: 34.

[5]Todas as citações de poemas de Jorge Melícias foram retiradas, por comodismo, da selecção de poemas do livro de Oliveira Gomes.

[6] Gomes: 29.

[7] “É a sensibilidade religiosa que une sempre estreitamente o desejo e o terror, o prazer intenso e a angústia” cf. Bataille: 32.

[8] Gomes: 47.


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Arthur Rimbaud (IV)

Les Poètes de sept ans

À M. P. Demeny

Et la Mère, fermant le livre du devoir,
S’en allait satisfaite et très fière, sans voir,
Dans les yeux bleus et sous le front plein d’éminences,
L’âme de son enfant livrée aux répugnances.

Tout le jour il suait d’obéissance; très
Intelligent; pourtant des tics noirs, quelques traits
Semblaient prouver en lui d’âcres hypocrisies.
Dans l’ombre des couloirs aux tentures moisies,
En passant il tirait la langue, les deux poings
À l’aine, et dans ses yeux fermés voyait des points.
Une porte s’ouvrait sur le soir : à la lampe,
On le voyait, là-haut, qui râlait sur la rampe,
Sous un golfe de jour pendant du toit. L’été
Surtout, vaincu, stupide, il était entêté
À se renfermer dans la fraîcheur des latrines:
Il pensait là, tranquille et livrant ses narines.

Quand, lavé des odeurs du jour, le jardinet
Derrière la maison, en hiver, s’illunait,
Gisant au pied d’un mur, enterré dans la marne
Et pour des visions écrasant son œil darne,
Il écoutait grouiller les galeux espaliers.
Pitié ! Ces enfants seuls étaient ses familiers
Qui, chétifs, fronts nus, œil déteignant sur la joue,
Cachant de maigres doigts jaunes et noirs de boue
Sous des habits puant la foire et tout vieillots,
Conversaient avec la douceur des idiots!
Et si, l’ayant surpris à des pitiés immondes,
Sa mère s’effrayait ; les tendresses, profondes,
De l’enfant se jetaient sur cet étonnement.
C’était bon. Elle avait le bleu regard, — qui ment!

À sept ans, il faisait des romans, sur la vie
Du grand désert, où luit la Liberté ravie,
Forêts, soleils, rives, savanes! — Il s’aidait
De journaux illustrés où, rouge, il regardait
Des Espagnoles rire et des Italiennes.
Quand venait, l’œil brun, folle, en robes d’indiennes,
— Huit ans, — la fille des ouvriers d’à côté,
La petite brutale, et qu’elle avait sauté,
Dans un coin, sur son dos, en secouant ses tresses,
Et qu’il était sous elle, il lui mordait les fesses,
Car elle ne portait jamais de pantalons;
— Et, par elle meurtri des poings et des talons,
Remportait les saveurs de sa peau dans sa chambre.

Il craignait les blafards dimanches de décembre,
Où, pommadé, sur un guéridon d’acajou,
Il lisait une Bible à la tranche vert-chou;
Des rêves l’oppressaient chaque nuit dans l’alcôve.
Il n’aimait pas Dieu ; mais les hommes, qu’au soir fauve,
Noirs, en blouse, il voyait rentrer dans le faubourg
Où les crieurs, en trois roulements de tambour,
Font autour des édits rire et gronder les foules.
— Il rêvait la prairie amoureuse, où des houles
Lumineuses, parfums sains, pubescences d’or,
Font leur remuement calme et prennent leur essor!

Et comme il savourait surtout les sombres choses,
Quand, dans la chambre nue aux persiennes closes,
Haute et bleue, âcrement prise d’humidité,
Il lisait son roman sans cesse médité,
Plein de lourds ciels ocreux et de forêts noyées,
De fleurs de chair aux bois sidérals déployées,
Vertige, écroulements, déroutes et pitié!
— Tandis que se faisait la rumeur du quartier,
En bas, — seul, et couché sur des pièces de toile
Écrue, et pressentant violemment la voile!

Arthur Rimbaud, 26 mai 1871

*

Os poetas aos sete anos

E a mãe, fechando o livro do dever,
Retirou-se satisfeita e orgulhosa sem reparar
Que nos olhos azuis e sob o rosto crivado de saliências,
A alma do seu filho estava cheia de repugnâncias.

Todos os dias ele suava de obediência, todo
Inteligente; ainda que fosse de hábitos sórdidos,
Alguns traços provavam que tinha hipocrisias acerbas.
À sombra dos corredores de cortinas baças,
Punha a língua de fora, os punhos nas virilhas,
E com os olhos fechados via as fulgurações.
Uma porta abriu-se na noite: à luz do candeeiro
Era avistado além, ofegando no corrimão,
Sob um golfo de dia suspenso do tecto. No Verão
Principalmente, derrotado e estúpido, insistia
Em encerrar-se na frescura das latrinas:
Tranquilamente cogitava e aliviava as narinas.

Quando no Inverno, limpo dos odores do dia,
O pátio atrás da casa era inundado pela lua,
Reclinado num muro, enterrado no barro
E com os olhos negros por causa das visões,
Ele ouvia levedar as trepadeiras sarnentas.
Piedade! A sua única família eram essas crianças
Banais e desamparadas, olhos perdidos no rosto,
Que, com os dedos amarelados de lama escondidos
Sob as roupas antiquadas e a cheirar a merda,
Falavam com a doçura dos idiotas!
E se a mãe se assustava ao apanhá-lo entregue
A compaixões imundas; as ternuras profundas
Da criança redimiam-na daquela surpresa.
Essa é que é essa. Ele fazia aquele olhar, – levava-a bem!

Aos sete anos inventava histórias sobre a vida
No grande deserto, onde resplandecia a liberdade violada,
Florestas, sóis, rios, savanas! – Para tal valia-se
De revistas ilustradas nas quais Espanholas
E Italianas sorridentes o embaraçavam.
Então vinha a filha dos operários vizinhos,
Com os seus olhos castanhos e vestes Indianas,
– oito anos, – a pequena bruta,
E agitando as tranças surpreendia-o num canto
Saltando-lhe para as costas, e ele, ao ver-se
Debaixo dela, mordia-lhe as nádegas
Pois ela nunca usava calcinhas;
– E porque ela o magoava com os punhos e os calcanhares,
Ele trazia para o quarto o cheiro da sua pele.

Temia os tristes domingos de Dezembro,
Quando, penteadinho, sentado numa mesa de mogno,
Lia uma bíblia com as margens de cor verde-repolho;
Os sonhos oprimiam-no todas as noites na alcova.
Não gostava de Deus; só dos homens negros e em camisa
Que na noite fulva regressavam aos subúrbios
Onde os vendedores ambulantes, com três rufos de tambor,
Faziam a multidão rir e gozar com os éditos.
– Sonhava com estepes de amor, onde luzes ondulantes,
Perfumes salubres e tumescências de ouro
Se iam meneando devagar e levantando voo.

E como ele saboreava especialmente as coisas sombrias,
Quando, na sala vazia, ampla e azul,
De persianas fechadas e sujeita à humidade,
Ele lia o seu romance continuamente meditado,
Cheio de céus ocres e de florestas inundadas,
De flores de carne implantadas nas madeiras siderais,
Vertigens, colapsos, derrotas e compaixão!
– Enquanto em baixo crescia o rumor no subúrbio,
– Deitado sozinho sobre pano-cru,
Ele pressentia com violência a partida iminente.

Arthur Rimbaud, 26 de Maio 1871
- tradução minha