segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Emily Dickinson V

She died at play,
Gambolled away
Her lease of spotted hours,
Then sank as gaily as a Turk
Upon a Couch of flowers.

Her ghost strolled softly o'er the hill
Yesterday, and Today,
Her vestments as the silver fleece -
Her countenance as spray.

*

Ela morreu no recreio,
Deu a cambalhota
À sua conta de horas marcadas,
E submergiu tão alegremente como um Turco
Em Poltrona florida.

Seu fantasma passeava calmamente na colina
Ontem, e Hoje,
Suas vestes de lã prateada –
Seu semblante de vapor.

Emily Dickinson
- tradução minha

sábado, 15 de outubro de 2011

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Textos e Pretextos 14 - Ensaio de Fernanda Gil Costa sobre "O vento soprado como sangue"

[Saiu recentemente o nº 14 da revista TEXTOS E PRETEXTOS, no qual consta o ensaio da Fernanda Gil Costa sobre o meu primeiro livro, O vento soprado como sangue, que em baixo se reproduz.]

«1- Sem surpresa convivi com poetas. Os professores primeiro, logo no liceu, mais tarde na faculdade. Depois vieram os colegas que em alguns casos eram também ex-professores. Foi sempre uma relação natural e gratificante, como se a vida só fizesse sentido quando os poetas - e não só as palavras que nos entregam – entram por vezes na sala de encontros e desencontros, fazem parte das noites de boémia, tocam à campainha da porta ou ao telefone.
Mas nunca tinha tido um aluno que fosse poeta até encontrar o João Moita (e isso não significa que não tivesse lido poemas escritos por outros); com ele foi diferente deste o princípio porque nunca ensaiou pose de poeta. Escolheu curiosamente o papel de aluno distante mas divertido, difícil de ‘apanhar’, embora nas aulas acabasse sempre por responder às perguntas que causavam a cansativa mudez de tantos, com o desembaraço de quem interroga a banalidade das perguntas e das inevitáveis respostas.
Lembro-me também de ele ter interrompido a apresentação de um programa de semestre porque não integrava nomes de poetas nem livros de poesia. Apresentei um argumento qualquer que ele aceitou pelo menos em parte, mas não eu. A ausência de poetas e poesia num programa de literatura portuguesa tem apenas a ver (no meu caso) com a difícil negociação de interessar por poesia alunos que têm dificuldade em ler/dizer textos em voz alta, fazer aceitar que se pode escrever (e ler) apenas para que as palavras vibrem, entrem no ouvido como víboras bífidas e benignas, abram portas de casas há muito inabitadas. Há outros episódios, mas não interessa.
Quando o João me enviou o primeiro poema, que ainda guardo, senti a marca (pessoal, intransmissível) da sua capacidade de ins-crição. Poucos meses depois tinha publicado um livro de poesia que não o tornou famoso, mas isso é comum. Mesmo entre os que lêem não há muito tempo para a poesia e encontrar um novo poeta é tão difícil nas folhas da crítica especializada como nas secções de poesia das livrarias.
O João é um poeta de voz inquietante, dicção vibrante, intensa e tensa.

2 -O título do seu livro – O Vento Soprado como Sangue – deixa transparecer a vibração do seu encontro com a palavra, por vezes arrepiante, à beira do insustentável “para que nenhuma palavra seja o frio nexo da loucura/ ou o vento soprado como sangue” (X). Como valter hugo mãe recorda no posfácio: “Há homens que precisam de castigar o mundo.” E poderá a propósito convocar-se Kafka quando afirmava que um livro deve ser como um machado que quebra o mar gelado que há em nós.
O livro de JM está dividido em duas secções, “Sangue” e “Vento”, cada uma delas composta por 16 poemas. A completa liberdade/irregularidade do verso submete-se, pois, a uma inesperada simetria da composição. Na primeira secção – “Sangue”, a linguagem é por vezes performativa, eu e tu confrontam-se e estruturam ainda a enunciação:

Ainda que demores e eu já não te espere,
Ainda que as minhas mãos se esvaziem de compaixão
(...)
ainda assim,
se viesses,
repartiríamos o meu pão,
beberíamos o meu vinho
e dormiríamos sobre o chão da minha vida- (I)


As imagens sublinham a materialidade do corpo, da sua solidão, e a proximidade da ferida e do sangue, a(s) “lâmina(s)” , a “faca”, o “cinzel” ou a “foice”, que vão construindo a idéia do sacrifício: “de cada vez que um de nós morre/há uma faca apontada às jugulares” (...) porque “há-de haver um corpo que transite de alma em alma”. Tal parece ser o sacrifício, feito de esquecimento e transmutação, de silêncio e imprecação. Feito igualmente de uma entrega:

Comecemos pela dádiva:
Eis a língua exaurida,
Eis o esquecimento. (...) (II)

O esquecimento lavra como um fogo em mim.
Eu ladro para a noite dos mortos,
E quando esqueço, eles lavram a noite em mim. (VI)

Procura-se o regime absoluto da palavra, a sua total imprevisibilidade de silêncio e deslumbramento (XVI). Assinale-se, mero exemplo, a aliteração de ‘ladrar’ e ‘lavrar’, sendo o primeiro verbo um enunciado do sujeito lírico (‘eu ladro’) enquanto o segundo é remetido para a terceira pessoa (‘eles [os mortos] lavram a noite em mim’), por forma a rejeitar a harmonia assonante, dilacerar o eco decorativo da aliteração. Por isso, o verso é definido como um limite inegociável:

Um verso implacável
Com a têmpera do diamante,
Com a agudeza de um vértice,
A precisão do bisturi,
Na sombra do mundo. (XIV)


O léxico desta poesia é de uma coerência intransigente, invoca-se um percurso que elabora em metáforas de aguda e cortante alquimia um ritual de passagem do eu-tu ao nós, finalmente ao eu solitário (“e eu que sou o sopro e o sentido”, XV) e inclemente: “até aconchegar o silêncio ao meu grito desmedido” (XV). Viagem ainda incompleta, metamorfose sem estádio definitivo, “Sangue” termina com a anáfora que introduz o pressentimento da mudança: “há-de haver um corpo que transite”... /”há-de haver uma voz desvairada”.../, enquanto reafirma a relativa insuficiência da mudança: “Por agora não sei como tocar a distância de onde nos falam”(XVI).

Em “Vento”, o lexema “palavra” surge quase sempre no primeiro verso, por vezes no segundo ou terceiro. Ela é o tópico incontornável que encontra na cópula o acesso possível: “A palavra é a matéria do inabitável.” (X); “A palavra é a sinapse do mundo” (XI). O eu resiste apenas na segunda estrofe do primeiro poema, depois só a palavra é sujeito de definição e acção. Vejamos:

Porque eu alimento-me do esquecimento
Como se o crime ou a diáspora
Recolhessem os despojos da oxidação
Enquanto a língua se fere para uma revelação mais pura (I).

Declinando-se obsessivamente, re-afirma-se na especulação, que é também repetição, fuga melódica e especularidade: “A palavra é um leque metálico aberto à pulsação do mundo./Eis como ela cinde o cristal no seu centro nulo”(II). E ainda: “A palavra freme como um animal/ varado por um nervo retráctil. Todo o movimento é a linguagem lancetada” (V).
A enunciação ostensivamente impessoal de “Vento” reinscreve as imagens mais obsidiantes de “Sangue”: a lâmina, o sangue, o metal, a máquina, o mecânico – “A palavra é um martelo especular/forjando o próprio reflexo.” (XV)

A palavra configura a sua própria evasão.
Ela distende o sopro com que exalta as hélices
Sobre a ausência.
A exuberância é a sua força coerciva. (XII)


3- A poesia não se explica, dá-se a ler no sentido mais literal da sua oferta. Abre o espaço da folha branca à mancha irregular do poema que sucumbe ao ritmo, se abandona à citação. A exuberância de JM é também rigor, um rigor de morte, de limite impermeável à tradução e à paráfrase, agita o ar da (minha) casa do ser contra a apatia, clama por repulsa, raiva, resposta.
É que a poesia vive para a resposta, para o eco. Por isso, é difícil ser indiferente à poesia de JM. A sua interpelação vive da explosão permanente, explora o paradoxo, redime a insalubridade. Um novo livro de poemas – Miasmas - está pronto. Mais difícil, mais exigente, porventura mais erecto que o primeiro, aparentemente mais disfórico, reintegra afinal os temas enunciados em O Vento Soprado como Sangue (num número igual de poemas), re-diz o percurso do corpo à palavra, do bios ao logos. O poeta aperta o seu círculo de rigor, o ostinato rigore que foi título de um livro de Eugénio de Andrade: - “Há uma voz que encanto a golpes e blasfémias/e que transluz nocturna, /voz-napalm que estendo como corda./Eu venho açular os maxilares contra a palavra/a palavra com sangue/ a palavra sangue” (inédito). O sujeito da enunciação abdica da impessoalidade de “Sangue”, emerge como Eu – torna-se bio(s)grafia.

A minha veia poética é alimentada a seringas
do alto da contrição.
Excita-me o que me definha.
O meu coração encolhe se usado como símbolo:
esta é a parábola da compensação.
(inédito)

Nestes versos, creio, condensa-se a poética de JM. “A utopia, portanto, será, a meu ver,” escreve valter hugo mãe, “um tópico essencial para se perceber o frémito desta poesia”. Por isso, também, “Em nome de nada. / Do êxtase recolho a nova moral.”/ - confessa JM no final de Miasmas, em que o contágio de algo inominável, visceral, violento se impõe em nome de um destino que é ao mesmo tempo urgência e fatalidade, vida e morte, deslumbramento e sacrifício.
Além destes dois livros o João também tem uma história na blogo-esfera. Uma história dirigida a vários espaços de ‘acolhimento’ (palavra importante na nossa conversa) comprometidos com as artes (performativas) do nosso tempo. Dos vários testemunhos que aí se encontram, saídos da ferida da leitura que é também a da escrita, escolho um dos que ele enviou para a minha caixa de correio, um tema persistente da memória paradoxal das nossas perdas, da perplexidade que nos interpela pelo lado da cegueira.

Por ter os pés furados chamaram-me Édipo.
Pregaram-me na cruz
porque amei o meu pai e matei a minha mãe.
(inédito)

Fernanda Gil Costa

26/03/2010»