Está à venda o volume colectivo Vergílio Ferreira - Escrever e Pensar
ou O Apelo Invencível da Arte, no qual participo com o ensaio "No final
era o verbo e não havia Deus: a palavra absoluta de Vergílio Ferreira e
Herberto Helder".
quinta-feira, 9 de março de 2017
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Michel Houellebecq (I)
O amor, o amor
Num cinema
porno, reformados ofegantes
Contemplavam,
sem poderem acreditar,
As
brincadeiras mal filmadas de dois casais lascivos;
Não havia
argumento.
Aqui está,
dizia para comigo, o rosto do amor,
O autêntico
rosto.
Alguns são
sedutores; esses seduzem sempre,
Os outros
sobrenadam.
Não há
destino nem fidelidade,
Mas corpos
que se atraem.
Sem afecto
e, sobretudo, sem piedade,
Joga-se e
dilacera-se.
Alguns são
sedutores, partindo muito amados;
Esses
conhecerão o orgasmo.
Mas muitos
estão lassos e nada têm a esconder,
Nem sequer
os fantasmas;
Apenas uma
solidão agravada pela alegria
Impúdica das
mulheres;
Apenas uma
certeza: «Isto não é para mim»,
Um pequeno
drama obscuro.
Morrerão, é
certo, um pouco decepcionados,
Sem ilusões
líricas;
Praticarão a
fundo a arte de se desprezarem;
Será
mecânico.
Dirijo-me a
todos os que nunca foram amados,
Aos que
nunca souberam satisfazer-se;
Dirijo-me
aos excluídos do sexo liberto,
Do prazer
comum.
Nada temais,
amigos, a vossa perda é mínima:
O amor não
existe em lado nenhum.
É apenas um
jogo cruel e vós as suas vítimas;
Um jogo de especialistas.
Michel Houellebecq, La Porsuite du Bonheur, 1997.
Tradução de João Moita
*
L’amour, l’amour
Dans
un ciné porno, des retraités poussifs
Contemplaient,
sans y croire,
Les
ébats mal filmés de deux couples lascifs ;
Il
n'y avait pas d'histoire.
Et
voilà, me disais-je, le visage de l'amour,
L'authentique
visage.
Certains
sont séduisants ; ils séduisent toujours,
Et
les autres surnagent.
Il
n'y a pas de destin ni de fidélité,
Mais
des corps qui s'attirent.
Sans
nul attachement et surtout sans pitié,
On
joue et on déchire.
Certains
sont séduisants et partant très aimés ;
Ils
connaîtront l'orgasme.
Mais
tant d'autres sont las et n'ont rien à cacher,
Même
plus de fantasmes ;
Juste
une solitude aggravée par la joie
Impudique
des femmes ;
Juste
une certitude : « Cela n'est pas pour moi »,
Un
obscur petit drame.
Ils
mourront c'est certain un peu désabusés,
Sans
illusions lyriques ;
Ils
pratiqueront à fond l'art de se mépriser ;
Ce
sera mécanique.
Je
m'adresse à tous ceux qu'on n'a jamais aimés,
Qui
n'ont jamais su plaire ;
Je
m'adresse aux absents du sexe libéré,
Du
plaisir ordinaire.
Ne
craignez rien, amis, votre perte est minime :
Nul
part l'amour n'existe.
C'est
juste un jeu cruel dont vous êtes les victimes ;
Un
jeu de spécialistes.
Michel
Houellebecq, La Porsuite du Bonheur, 1997.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Valery Larbaud (I)
A dádiva de si mesmo
Ofereço-me a
cada um como recompensa;
Dou-a mesmo
antes de a merecerem.
Há qualquer
coisa em mim,
No fundo de
mim, no centro de mim,
Qualquer
coisa infinitamente árida
Como o cume
das mais altas montanhas;
Qualquer
coisa comparável ao ponto cego da retina,
E sem eco,
E contudo vê
e escuta;
Um ser com
vida própria, e que, no entanto,
Vive a minha
vida, e ouve, impassível,
Toda a
facúndia da minha consciência.
Um ser feito
de nada, se tal é possível,
Insensível
aos meus sofrimentos físicos,
Que não
chora quando choro,
Que não ri
quando rio,
Que não cora
quando pratico um acto embaraçoso,
E que não
geme quando o meu coração sangra;
Que
permanece imóvel e não me dá conselhos,
Mas
eternamente parece dizer:
«Aqui estou,
indiferente a tudo.»
É talvez o
vazio a ser o vazio,
Mas tão
grande que o Bem e o Mal juntos
Não o
preenchem.
Nele morre o
ódio asfixiado,
E o maior
amor nele não consegue penetrar.
Levem pois
tudo de mim: o sentido destes poemas,
Não aquele
que se lê, mas aquele que surge de viés apesar de mim:
Levem,
levem, vocês não têm nada.
E onde quer
que vá, em todo o universo,
Eu encontro
sempre,
Tanto fora
como dentro de mim,
O
inesgotável Vazio,
O indomável
Nada.
Valery Larbaud, A.
O. Barnabooth, ses oeuvres complètes, 1913.
- trad. João Moita
*
Le don de soi-même
Je
m'offre à chacun comme sa récompense ;
Je
vous la donne même avant que vous l'ayez méritée.
Il
y a quelque chose en moi,
Au
fond de moi, au centre de moi,
Quelque
chose d'infiniment aride
Comme
le sommet des plus abruptes montagnes ;
Quelque
chose de comparable au point mort de la rétine,
Et
sans écho,
Et
qui pourtant voit et entend ;
Un
être ayant une vie propre, et qui, cependant,
Vit
toute ma vie, et écoute, impassible,
Tous
les bavardages de ma conscience.
Un
être fait de néant, si c'est possible,
Insensible
à mes souffrances physiques,
Qui
ne pleure pas quand je pleure,
Qui
ne rit pas quand je ris,
Qui
ne rougit pas quand je commets une action honteuse,
Et
qui ne gémit pas quand mon cœur est blessé ;
Qui
se tient immobile et ne donne pas de conseils,
Mais
semble dire éternellement :
"Je
suis là, indifférent à tout".
C'est
peut-être du vide comme est le vide,
Mais
si grand que le Bien et le Mal ensemble
Ne
le remplissent pas.
La
haine y meurt d'asphyxie,
Et
le plus grand amour n'y pénètre jamais.
Prenez
donc tout de moi : le sens de mes poèmes,
Non
ce qu'on lit, mais ce qui paraît au travers malgré moi :
Prenez,
prenez, vous n'avez rien.
Et
où que j'aille, dans l'univers entier,
Je
rencontre toujours,
Hors
de moi comme en moi,
L'irremplissable
Vide,
L'inconquérable
Rien.
Paul-Jean Toulet (I)
Romanças sem música
As três damas de Albi
b. Filippa, Faïs,
Esclarmonde,
As mais raras, que pudéssemos ver,
Beldades do
mundo;
Mas tu mais pálida ainda por teres
corrido à luz da lua a outra noite
nas quatro ruas,
Escuta: ao negro som das canções
Satã flagela as tuas irmãs nuas;
Vem, e dancemos.
Paul-Jean Toulet, Les Contrerimes, 1921 (póstumo).
- trad. João Moita
*
Romances sans musique
Les trois
dames d’Albi
b. Filippa, Faïs,
Esclarmonde,
Les plus rares, que l’on
put voir,
Beautés du monde ;
Mais toi si pâle encor d’avoir
Couru la lune l’autre soir
Aux quatrerues,
Écoute : au bruit noir
des chansons
Satan flagelle tes sœurs nues ;
Viens, et dansons.
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