quinta-feira, 28 de julho de 2016

Georges Fourest (I)


O Cid

                               Vai, não te odeio.

                                                P. Corneille

O palácio de Gormaz, conde e governador,
está de luto: para sempre jaz estendido sob a laje
o hidalgo cujo sangue ruborizou o florete
de Rodrigue apelidado Cid Campeador.

A tarde cai. Invocando os dois santos, Pedro e Paulo,
Chimène, em véus escuros, apoia-se ao balcão
e os olhos cujas lágrimas queimaram as pálpebras
vêem, sem nada ver, cair o sol de ouro…

Mas subitamente um clarão fulgura na sua pupila:
na praça Rodrigue está de pé diante dela!
Altivo e impassível, envolto na sua capa,

o herói assassino deambula a passo lento:
«Deus!» suspira para si mesma a chorosa Chimène,
«que belo rapaz é o assassino do Papá!»


Georges Fourest, La Négresse blonde, 1909.
- trad. João Moita

*

Le Cid

                               Va, je ne te hais point.

                                               P. Corneille

Le palais de Gormaz, comte et gobernador,
est en deuil : pour jamais dort couché sous la pierre
l’hidalgo dont le sang a rougi la rapière
de Rodrigue appelé le Cid Campeador.

Le soir tombe. Invoquant les deux saints Paul et Pierre
Chimène, en voiles noirs, s’accoude au mirador
et ses yeux dont les pleurs ont brûlé la paupière
regardent, sans rien voir, mourir le soleil d’or…

Mais un éclair, soudain, fulgure en sa prunelle :
sur la plaza Rodrigue est debout devant elle !
Impassible et hautain, drapé dans sa capa,

le héros meurtrier à pas lents se promène :
«Dieu !» soupire à part soi la plaintive Chimène,
«qu’il est joli garçon l’assassin de Papa !»

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Colóquio Internacional Vergílio Ferreira – Escrever e Pensar ou O Apelo Invencível da Arte

Na próxima sexta-feira, dia 20 de Maio, estarei em Gouveia no Colóquio Internacional Vergílio Ferreira para pronunciar a conferência "No final era o Verbo e não havia Deus - a palavra absoluta de Vergílio Ferreira e Herberto Helder". O programa pode ser consultado aqui.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Adolfo García Ortega (I)


EM TEMPOS DE MISÉRIA

                                               para Eduardo

Eu sei que viver se tornou difícil
e é como o medo,
presença insuspeita na paisagem,
ridículo episódio que convence,
obscuro, em insalubre tédio.

Mas sei também dos seus sabores
leves factos apenas, sem trágico balanço,
sem o ditado das horas
passadas na fronteira imprecisa
com a morte – não temos o hábito
de nomeá-la em vida.

                                Quer dizer
que não é fácil viver familiarmente, e aprender
a ler em geral o sentimento
dá mais trabalho
do que se pensa, por fantasiado.

Assim, enquanto eu penso e observo
essa parte da minha história
que não é tempo propício e me resigno
ao hábito de suportar com feridas
o sereno desespero que dá a lucidez,
outros factos
de repente acomodam-se perto,
como a luz de inverno,
uma tarde com varanda
e teia-de-aranha na lâmpada,
ou o aroma do tabaco por um momento
já vivido em felicidade.

                                  E os versos,
os versos decimais
de algum poeta afim em amor carnal
– porque agora o recordo: as minhas amantes dotaram-me
de muitos dos meus livros mais queridos.

Razões tenho para crer
que a vida dá nozes às crianças
– como diria Catulo –
e essa carga de demasiada verdade
com que costumamos encontrar-nos a nós mesmos
vive oculta ali onde está o coração
dos amigos perduráveis, para salvar-nos.

Não será que afinal, em tempos de miséria,
de sorte tão duvidosa
como a que partilhamos
                                  a sós,
não nos visita a amada companhia
do final que não chegamos a ver nunca,
esse saber em doce temor
de que levar um tiro também
é uma maneira de viver?


De Oscuras razones, 1988.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Tempo e Poesia



A maior abstracção da realidade é o ritmo, subjectivação da duração. Com o ritmo, a palavra demarca-se das referências inertes do tempo linear e converge para o âmbito das dotações subjectivas, a partir das quais o tempo se destaca sobre uma consciência que o cerca e dele se apropria. Daí que nenhuma das formas artísticas mediadas pelo ritmo, a música e a poesia, possa dar a medida do real.

*

Nessa medida, a poesia é, verdadeiramente e em sentido bíblico, criação. Acrescenta realidade à realidade. E o seu consolo vem-nos da posse desse real excedente que criámos e que oferecemos. Os deuses não desdenham os sacrifícios, mas são as preces o que mais lhes alegra o coração. Ninguém se compraz quando se lhe devolve o presente que ofereceu. Deus dá o cordeiro, mas quem reza é que lhe sopra pelo ouvido dentro o vendaval que o enlouquece.