Na próxima sexta-feira, dia 20 de Maio, estarei em Gouveia no Colóquio Internacional Vergílio Ferreira para pronunciar a conferência "No final era o Verbo e não havia Deus - a palavra absoluta de Vergílio Ferreira e Herberto Helder". O programa pode ser consultado aqui.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
segunda-feira, 7 de março de 2016
Adolfo García Ortega (I)
EM TEMPOS DE MISÉRIA
para Eduardo
Eu sei que viver se tornou difícil
e é como o medo,
presença insuspeita na paisagem,
ridículo episódio que convence,
obscuro, em insalubre tédio.
Mas sei também dos seus sabores
leves factos apenas, sem trágico balanço,
sem o ditado das horas
passadas na fronteira imprecisa
com a morte – não temos o hábito
de nomeá-la em vida.
Quer
dizer
que não é fácil viver familiarmente, e aprender
a ler em geral o sentimento
dá mais trabalho
do que se pensa, por fantasiado.
Assim, enquanto eu penso e observo
essa parte da minha história
que não é tempo propício e me resigno
ao hábito de suportar com feridas
o sereno desespero que dá a lucidez,
outros factos
de repente acomodam-se perto,
como a luz de inverno,
uma tarde com varanda
e teia-de-aranha na lâmpada,
ou o aroma do tabaco por um momento
já vivido em felicidade.
E os versos,
os versos decimais
de algum poeta afim em amor carnal
– porque agora o recordo: as minhas amantes dotaram-me
de muitos dos meus livros mais queridos.
Razões tenho para crer
que a vida dá nozes às crianças
– como diria Catulo –
e essa carga de demasiada verdade
com que costumamos encontrar-nos a nós mesmos
vive oculta ali onde está o coração
dos amigos perduráveis, para salvar-nos.
Não será que afinal, em tempos de miséria,
de sorte tão duvidosa
como a que partilhamos
a
sós,
não nos visita a amada companhia
do final que não chegamos a ver nunca,
esse saber em doce temor
de que levar um tiro também
é uma maneira de viver?
De Oscuras razones, 1988.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Tempo e Poesia
A maior
abstracção da realidade é o ritmo, subjectivação da duração. Com o ritmo, a
palavra demarca-se das referências inertes do tempo linear e converge para o
âmbito das dotações subjectivas, a partir das quais o tempo se destaca sobre
uma consciência que o cerca e dele se apropria. Daí que nenhuma das formas
artísticas mediadas pelo ritmo, a música e a poesia, possa dar a medida do
real.
*
Nessa
medida, a poesia é, verdadeiramente e em sentido bíblico, criação. Acrescenta
realidade à realidade. E o seu consolo vem-nos da posse desse real excedente
que criámos e que oferecemos. Os deuses não desdenham os sacrifícios, mas são
as preces o que mais lhes alegra o coração. Ninguém se compraz quando se lhe
devolve o presente que ofereceu. Deus dá o cordeiro, mas quem reza é que lhe
sopra pelo ouvido dentro o vendaval que o enlouquece.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Antonio Gamoneda (XIII)
Sobre a máquina do pranto
Uma
tira de aço enlouquecido entra em si mesma e sai de si mesma. Fende os
esqueletos, dispersa os resíduos, rói as varas, inflama os chicotes, decapita
os bronzes. Desce às células do óxido. Regressa aos anéis. Descansa. Pesa o
silêncio. Não. Nada é verdade. A não ser, unicamente, talvez, o furor das tiras,
mas
a realidade anuncia a sua mentira. O que
é uma mentira nas
entranhas do aço?
Descem
cabelos desprendidos da ira.
Desce
a incandescência vulcânica.
Quem verte chamas e cabelos sobre a sede das serpentes?
O que é este nó, esta
mecânica arterial, esta
tortura silvestre? Não
há salvação. Não há
clemência, não há
frutos nem sombras na
selva do aço.
Ai dos nós, ai das serpentes!
Um
ser sem pensamento induz o delírio das tiras. Quem? É esta a paixão inversa que
se deduz da impossibilidade? É apenas uma inclemência digital? Não sei. Não me
respondas. Não há nada a dizer nem a compreender. Ver, apenas ver, esta beleza
cruel. As suas vísceras, a sua dentadura cónica, a sua vertigem.
Ainda e sempre, só a mentira é verdade. Fecho
os olhos.
Antonio Gamoneda
(poema inédito publicado no número da revista Zurgai de Dezembro
de 2015)
*
Sobre la máquina del llanto
Una
cinta de acero enloquecido entra en sí misma y sale de sí misma. Hiende las
osamentas, dispersa los residuos, roe las pértigas, enardece los látigos,
decapita los bronces. Baja a las celdas del óxido. Regresa a los anillos.
Descansa. Pesa el silencio. No. Nada es verdad. A no ser, únicamente, acaso, el
furor de las cintas, pero
la realidad anuncia su mentira. ¿Qué
es una mentira en
las entrañas del acero?
Descienden
cabellos desprendidos de la ira.
Desciende
la incandescencia volcánica.
¿Quién vierte llamas y cabellos sobre la sed de las serpientes?
¿Qué es este nudo, esta
mecánica arterial, esta
tortura silvestre? No
hay salvación, no hay
frutos ni sombras en
la selva de acero.
¡Ah de los nudos, ah de las serpientes!
Un
ser sin pensamiento induce el delirio de las cintas. ¿Quién? ¿Es ésta la pasión
inversa que se deduce de la imposibilidad? ¿Es apenas una inclemencia digital?
No sé. No me contestes. No hay nada que decir ni comprender. Ver, sólo ver,
esta belleza cruel. Su víscera, su dentadura cónica, su vértigo.
Aún y para siempre, sólo la mentira es verdad. Cierro
mis
ojos.
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