segunda-feira, 28 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Saint-John Perse (IV)

4

Tu t'en venais, rire des eaux, jusqu'à ces aîtres du terrien.
Au loin l'averse traversée d'iris et de faucilles lumineuses s'ouvrait la charité des plaines; les porcs sauvages fouillaient la terre aux masques d'or; les vieillards attaquaient au bâton les vergers; et par-dessus les vallons bleus peuplés d'abois, la corne brève du messier rejoignait dans le soir la conque du mareyeur. Des hommes avaient un bruant jaune dans une cage d'osier vert.
Ah qu'un plus large mouvement des choses à leur rive, de toutes choses à leur rive et comme en d'autres mains, nous aliénât enfin l'antique Magicienne: la terre et ses glands fauves, la lourde tresse circéenne, et les rousseurs du soir en marche dans nos prunelles domestiques!
Une heure avide s'empourprait dans les lavandes maritimes. Des astres s'éveillèrent dans la couleur des menthes du désert. Et le Soleil du pâtre, à son déclin, sous les huées d'abeilles, beau comme un forcené dans les débris de temples, descendit aux chantiers vers les bassins de carénage.
Là s'avinaient, parmi les hommes de labour et les forgerons de mer, les étrangers vainqueurs d'énigmes de la route. Là s'échauffait, avant la nuit, l'odeur de vulve des eaux basses. Les feux d'asile rougeoyaient dans leurs paniers de fer. L'aveugle décelait le crabe des tombeaux. Et la lune au quartier des pythonisses noires
Se grisait d'aigres flûtes et de clameurs d'étain: «Tourment des hommes, feu du soir! Cent dieux muets sur leurs tables de pierre! Mais la mer à jamais derrière vos tables de famille, et tout ce parfum d'algue de la femme, moins fade que le pain des prêtres... Ton cœur d'homme, ô passant, campera ce soir avec les gens du port, comme un chaudron de flammes rouges sur la proue étrangère.»
Avis au Maître d'astres et de navigation.


*

4

Daí vinhas, riso das águas, até às dependências do latifundiário.
Ao longe o aguaceiro atravessado de lírios e de foices luminosas abria para si a caridade das planícies; os porcos selvagens remexiam a terra com máscaras de ouro; os velhos assaltavam à bengalada os pomares; e por cima dos vales azuis povoados de latidos, o corno breve do vigieiro reunia-se ao anoitecer à vasta concha do peixeiro… Os homens tinham um verdelhão amarelo numa gaiola de vime verde.
Ah! que um mais amplo movimento das coisas na sua margem, de todas as coisas na sua margem e como vindo de outras mãos, nos alheasse por fim da antiga Maga: a Terra e as suas bolotas fulvas, a pesada trança de Circe e as sardas da tarde em marcha nos abrunhos domésticos!
Uma hora ávida ruborizava-se nas lavandas marítimas. Os astros despertavam na cor das hortelãs do deserto. E o Sol do pastor, no seu declínio, sob os apupos das abelhas, belo como um encolerizado nas ruínas dos templos, descia aos estaleiros em direcção aos tanques da querenagem.
Lá se avinhavam, entre os homens de trabalho e os ferreiros do mar, os estrangeiros vencedores de enigmas da estrada. Lá se excitava, antes do anoitecer, o odor a vulva das marés baixas. Os fogos de asílido enrubesciam nos seus cabazes de ferro. O cego descobria o caranguejo dos sepulcros. E a lua no covil das pitonisas negras
Embevecia-se com amargas flautas e com clamores de estanho: «Tormento dos homens, fogo da noite! Cem deuses mudos sobre suas mesas de pedra! Mas o mar para sempre atrás das vossas mesas de família, e todo o seu perfume de alga da mulher, menos insonso que o pão dos sacerdotes… Teu coração de homem, ó transeunte, acampará esta noite com as gentes do porto, como um caldeirão de chamas rubras sobre a proa estrangeira.»
Advertência ao Mestre de astros e de navegação.


Saint-John Perse, Amers, Strophe I-4
- trad. minha

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Gamoneda (X)

A tua solidão é ávida. A tua palidez brota de ti e divide-se em longas medulas. À tua volta não vês mais do que a ti mesmo.

Como o animal que mastigou a sua placenta e como as galinhas que o rodeiam com olhos giratórios, de ambas as formas estás sujo em ti e ao teu redor.

Porque cospes dentro da tua alma? Mentes no depoimento. Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Se o teu coração pesasse nas suas insígnias, se a tua riqueza fosse o teu cansaço, aceitarias respirar, descansarias de ti mesmo.

Eu, nos manjares que antecedem a morte, encontro a minha lucidez. Não são mais lascivos que as tuas lágrimas.

Sinto a minha qualidade nua no seu interior. É líquida e hei-de fechar os olhos.

A aversão vagueia como um cão amarelo mas a minha nudez trabalha na piedade

e sobrevém como leite fervido.

Tu expandes fluxo de outra forma: cheiras a tua enfermidade noutros corpos. Ninguém virá com uma luz sobre as tuas chagas.

As tuas unhas são azuis sobre a mesma madeira que outros – os mais cansados – pulem cada crepúsculo, quando se lavam mortos nos pátios e se recebe a serenidade.

A minha nudez é líquida até reflectir os rostos dos suicidas e os mendigos dormem longos sonos com os seus ouvidos postos no meu ventre e porventura escutam a ira das suas mães mas dormem.

Eu no teu lugar mentiria mais docemente.

Antonio Gamoneda, Descripción de la mentira
- trad. minha

domingo, 13 de outubro de 2013

Felonia (Jorge Melícias/Miguel Fernandes)

Felonia - poemas e leitura: Jorge Melícias / música: Miguel Fernandes

sábado, 12 de outubro de 2013

Traições (Georg Trakl, Antonio Gamoneda, João Moita)

GESANG DES ABGESCHIEDENEN

An Karl Borromäus Heinrich

Voll Harmonien ist der Flug der Vögel. Es haben die grünen Wälder
Am Abend sich zu stilleren Hütten versammelt;
Die kristallenen Weiden des Rehs.
Dunkles besänftigt des Plätschern des Bachs, die feuchten Schatten

Und die Blumen des Sommers, die schön in Winde läuten.
Schon dämmert die Stirne dem sinnenden Menschen.  

Und es leuchtet ein Lämpchen, das Gute, in seinem Herzen
Und der Frieden des Mahls; denn geheiligt ist Brot und Wein
Von Gottes Händen, und es schaut aus nächtigen Augen
Stille dich der Bruder an, daß er ruhe von dorniger Wanderschaft.
O das Wohnen in der beseelten Bläue der Nacht.

Liebend auch umfängt das Schweigen im Zimmer die Schatten der Alten,
Die purpurnen Martern, Klage eines großen Geschlechts,
Das fromm nun hingeht im einsamen Enkel.

Denn strahlender immer erwacht aus schwarzen Minuten des Wahnsinns
Der Duldende an versteinerter Schwelle
Und es umfängt ihn gewaltig die kühle Bläue und die leuchtende Neige des Herbstes,

Das stille Haus und die Sagen des Waldes,
Maß und Gesetz und die mondenen Pfade der Abgeschiedenen.



Georg Trakl

*

Canción del solitario

Cargado de armonía está el vuelo de los pájaros. En las praderas cristalinas de los ciervos, los verdes bosques se reúnen al atardecer en torno a cabañas silenciosas.

La oscuridad hace más tenue el murmullo de las aguas. Vienen húmedas sombras

y, melodiosas en el viento, vienen también las flores del verano.

Ya anochece en la frente de hombre pensativo y una llama de bondad arde en su corazón.

Es la paz de la cena: el pan y el vino están benditos por las manos de Dios

y, en silencio, con sus ojos nocturnos, tu hermano te mira y descansa de los caminos espinosos.

Ah vivir en el azul y en el espíritu de la noche.

En las habitaciones, el silencio rodea con amor las sombras de los antepasados,

los martirios purpúreos, el lamento de una estirpe

que, piadosa, se extingue en el descendiente solitario.

En el umbral de piedra el enfermo despierta de los negros instantes de la locura

y le rodean la frescura azul, el luminoso final del otoño,

el sosiego de la casa y las leyendas del bosque.

Ésta es la medida y la costumbre, así son los caminos lunares

de quienes se retiran a las cercanías de la muerte.



Antonio Gamoneda

*

Canção do solitário

Oculto na harmonia é o voo das aves. Ao crepúsculo, em cristalinos prados violados pela corça, sobem glaucos bosques às cabanas silenciosas.

Débil na escuridão é o rumor das águas. E as sombras húmidas

e as flores do verão são tangidas pelo vento.

Esplende na noite a cabeça do homem pensativo e a chama ténue do decoro arde no seu coração.

Serenidade da ceia; porque o pão e o vinho estão sobre a mesa às mãos de Deus

e o teu irmão contempla-te do silêncio nocturno dos seus olhos, descansando das aflições do caminho.

Oh, era uma morada celeste na medula da noite.

Nos quartos, engolidos pelo silêncio em haustos de ternura, a sombra dos antepassados, os martírios fulvos,

o lamento piedoso de uma estirpe que se extingue com o seu último descendente.

Das negras horas da loucura, em umbrais de pedra, desperta mais radioso aquele que sofre,
e é cercado com força pelo azul do orvalho, pelo resplandecente declinar do outono,

pelo sossego da casa e pelas lendas do bosque.

Eis a medida e o preceito, assim se ocultam os caminhos

daqueles que se afastam na desmesurada paixão da morte.


João Moita
- traição à traição de Antonio Gamoneda a Georg Trakl

sábado, 5 de outubro de 2013

Saint-John Perse (III)


IV

Com este louvor serás tu cingido, ó Mar, por um louvor sem ofensa.
Com este convite serás o hóspede do qual convém silenciar os méritos.
E do Mar, ele mesmo, não se falará, mas do seu reinado no coração dos homens:
Como está certo, na petição ao Príncipe, interpor o marfim ou até o jade
Entre a face suserana e o louvor cortesão.

Eu, inclinando-me em vossa honra numa inclinação sem baixeza,
Esgotarei a minha reverência e o balanço do corpo;
E o fumo do prazer esfumará a cabeça do fervoroso,
E a delícia do melhor dito engendrará a graça do sorriso…

E com tal saudação serás saudado, ó Mar, que dela nos lembraremos por muito tempo como de um folguedo do coração.

Saint-John Perse, Amers
- trad. João Moita