domingo, 28 de abril de 2013

Álvarez Ortega (I)


No último dia


No último dia, se ainda fores viva, não quero que o meu corpo em sua quietude seja

rodeado de velas e objectos mortuários, benzido por aspersórios  e latins,

quero de par em par abertas as janelas que dão para o campo: talvez escute

os assobios do pastor que passa ao entardecer pelo caminho que dá para fonte,

os pássaros que vêm dizer o dia nos ramos da buganvília,

os raios de sol que ao entardecer tingem de rosa o recanto dos livros.



A minha palidez será para aqueles que em silêncio me amaram: os meus quadros, os meus papéis.

Podes dizer alguma oração, se é que ainda te lembras dessas coisas.

Se não, deixa que o vento diga o seu cálido salmo nas árvores do jardim.



Mas quando estiver já na outra terra, comprazido na estação eterna,

então, oh sim, queria que nalguma tarde, como esta de primavera,

sobre a pedra, se acaso a tiver, deixasses um punhado de flores

dos nossos campos: no seu aroma crer-me-ia de novo contigo

caminhando pelas veredas verdes que descem da Serra, o meu braço

enlaçado à tua cintura, recordando o que nunca foi um amor perdido.



Álvarez Ortega, La Huella de las cosas [1941-1948]
- trad. minha

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Claudio Rodríguez (III)

Noche abierta

Bienvenida la noche para quien va seguro
y con los ojos claros mira sereno el campo,
y con la vida limpia mira con paz el cielo,
su ciudad y su casa, su familia y su obra.

Pero a quien anda a tientas y ve sombra, ve el duro
ceño del cielo y vive la condena de su tierra
y la malevolencia de sus seres queridos,
enemiga es la noche y su piedad acoso.

Y aún más en este páramo de la alta Rioja
donde se abre con tanta claridad que deslumbra,
palpita tan cerca que sobrecoge, y muy
en el alma se entra, y la remueve a fondo.

Porque la noche siempre, como el fuego, revela,
refina, pule el tiempo, la oración y el sollozo,
da tersura al pecado, limpidez al recuerdo,
castigando y salvando toda una vida entera.

Bienvenida la noche con su peligro hermoso.


§

Noite aberta

Bem-vinda a noite para quem vai seguro
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa contempla em paz o céu,
o seu cuidado e a sua casa, a sua família e a sua obra.

Mas para quem anda às apalpadelas e vê sombra, vê o duro
cenho do céu e vive a condenação da sua terra
e a maldade dos seus entes queridos,
inimiga é a noite e a sua piedade molesta.

E mais ainda este páramo da alta Rioja
onde se abre com tanta claridade que deslumbra,
palpita tão próxima que sobressalta, e muito
na alma se adentra, e a remove a fundo.

Porque a noite, como o fogo, sempre revela,
refina, pule o tempo, a oração e o soluço,
da lisura ao pecado, da limpidez à recordação,
castigando e salvando uma vida inteira.

Bem-vinda a noite com seu perigo belo.


Claudio Rodríguez, Alianza y Condena
- trad. minha