segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Saint-John Perse (I)

Canto para um Equinócio

Certa noite trovejou, e sobre a terra junto aos túmulos eu ouvi ressoar
uma réplica ao homem, que foi breve, e nada foi além do estrondo.

Amigo, a enxurrada do céu esteve connosco, a noite de Deus foi a nossa intempérie,
e o amor, em todos os lugares, regressou às suas fontes.

Eu sei, eu vi: a vida regressa às suas fontes, o relâmpago recolhe as suas engrenagens nas calhas desertas,
o pólen fulvo dos pinheiros acumula-se nos ângulos das varandas,

e a semente de Deus vai reunir-se ao mar com as toalhas malvas do plâncton.
Deus esparso reconduz-nos à diversidade.

*

Senhor, Mestre do solo, vede como neva, e o céu é sem dor, a terra franca de todo o fardo:
terra de Seth e de Saul, de Che Houang-ti e de Quéops.

A voz dos homens está dentro dos homens, a voz do bronze dentro do bronze, e onde quer que no mundo
o céu não tenha voz e o século for sem custódia,

vem ao mundo uma criança da qual ninguém conhece a raça ou o título,
e o génio bate com golpes certeiros nas faces de um rosto puro.

Ó Terra, nossa Mãe, não tenhas necessidade desta súcia: o século está pronto, o século está povoado, e a vida segue o seu curso.
Um canto se ergue em nós que não conheceu a sua fonte e que não terá estuário na morte:

equinócio de uma hora entre a Terra e o homem.


1971.

Saint-John Perse, Chant pour un Équinoxe
- trad. minha

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