domingo, 28 de abril de 2013

Álvarez Ortega (I)


No último dia


No último dia, se ainda fores viva, não quero que o meu corpo em sua quietude seja

rodeado de velas e objectos mortuários, benzido por aspersórios  e latins,

quero de par em par abertas as janelas que dão para o campo: talvez escute

os assobios do pastor que passa ao entardecer pelo caminho que dá para fonte,

os pássaros que vêm dizer o dia nos ramos da buganvília,

os raios de sol que ao entardecer tingem de rosa o recanto dos livros.



A minha palidez será para aqueles que em silêncio me amaram: os meus quadros, os meus papéis.

Podes dizer alguma oração, se é que ainda te lembras dessas coisas.

Se não, deixa que o vento diga o seu cálido salmo nas árvores do jardim.



Mas quando estiver já na outra terra, comprazido na estação eterna,

então, oh sim, queria que nalguma tarde, como esta de primavera,

sobre a pedra, se acaso a tiver, deixasses um punhado de flores

dos nossos campos: no seu aroma crer-me-ia de novo contigo

caminhando pelas veredas verdes que descem da Serra, o meu braço

enlaçado à tua cintura, recordando o que nunca foi um amor perdido.



Álvarez Ortega, La Huella de las cosas [1941-1948]
- trad. minha

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