quarta-feira, 27 de março de 2013

Claudio Rodríguez (I)

À respiração na planície

Deixai de respirar e que vos respire
a terra, que vos incendeies em seus pulmões
maravilhosos! Quem quer
 que olhe não verá nas estações
um rasto como que de ar que se alenta?
Aqui seria natural a morte.
Não se teria em conta
a luz, não se teria em conta o espaço, a Morte
por apenas se respirar! Fosse dia
agora e eu ficaria sem sentido
nestes campos, e respiraria
fundo como estas árvores, sem ruído.
Por isso a manhã ainda é um voo
crescente e alto sobre
os montes, e um impulso rente ao chão
que antes de se derramar e tomar
forma já é sulco para semente nova.
Oh, meu aposento. Grande irrigação da alma
com que dou a minha vida e ganho
tantas vidas belas. Tenham calma
vós que respirais, homens e coisas.
Sou vosso. Vocês também são meus.
Como ampliam as rosas
a sua juventude ao entregarem-se. Dêem-se
a tudo! O feno explode na primavera,
o pinheiro dá saúde com o seu cheiro forte.
Que tristeza a do alento, que maneira
de criar, que oficina clara de morte!
Não sei como vivi
até agora nem em que corpo senti
mas algo me ergue para o dia puro,
me comunica um coração imenso,
como o dos planaltos, e o meu feitiço
é o do ar, distendido
pela respiração do campo que se dilata
muito perto da minha alma no momento
em que ponho a vida
no passo voraz de um qualquer alento.


Claudio Rodríguez, Conjuros
- trad. minha

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