segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

felonia/agma, de Jorge Melícias

[Sairá por estes dias o novo livro de Jorge Melícias, felonia/agma, um volume que inclui os 14 textos de agma e os 14 textos inéditos que deram origem a felonia. Com a chancela da Cosmorama, o livro conta ainda com prefácios meu, a felonia, e do Fernando de Castro Branco, a agma.]



Teologia Invertida ou a Culpa como Redenção
(sobre felonia, de Jorge Melícias)

Quando tivermos aniquilado o mundo e nos descobrirmos sós,
orgulhosos da nossa façanha, Deus, rival do Nada,
aparecerá como uma última tentação.
Emil Cioran

Quando abordamos um livro de um poeta que ao lon­go de um percurso que se quis irrevogável, marcado por uma progressiva intransigência a ditames de índole esté­tica ou feudal, soube estancar os afluentes e obstinada­mente expurgar a torrente de atritos até que se tornasse límpida e inequívoca, sabemos que estamos na presença de uma obra da maturidade do seu autor. felonia, de Jorge Melícias, é um desses casos em que quase nenhum ho­rizonte de expectativas, fundado em códigos de leitura ou desenvoltura cultural, intervém nas potencialidades hermenêuticas do texto. Qualquer leitor, estou em crer, desde que minimamente receptivo, pode aceder ao sig­nificado imediato do poema, uma vez que nesta poesia não se esboçam linhas de fuga ou se dissimulam entreli­nhas que afaguem com mesuras a inteligência do leitor. Ao contrário do que eu próprio já afirmei noutros lugares e muitos dos críticos atestam, a poesia de Jorge Melícias não é difícil. Com efeito, dificilmente se encontra poesia mais cristalina, quer nos recursos de enunciação quer na parafernália alegórica, do que a do poeta que nos ocupa. A dificuldade existe – não há como fugir a isso –, mas ela está na vida, não propriamente nos poemas enquan­to produção oficinal. Para lá do quotidiano dos afectos e das volições, e da estrita aderência à exterioridade em que nos extravasamos em ordem à subsistência, existe o domínio em que as condições da própria vida, os alicer­ces desconhecidos a partir dos quais se propaga, se pa­tenteiam em toda a sua violência e volubilidade. Acordar um homem subitamente e encontrar-se nesse domínio é inaugurar no mundo a dificuldade. Dizer pois que a poesia de Jorge Melícias é difícil é uma falácia com que se escusam os que escolheram o primado da exterioridade (e a psicologia também é, ou ainda é, uma exterioridade) em detrimento daquilo que por não ter resposta, nem por isso é menos evidente. É fácil a poesia de Jorge Melí­cias, o que não invalida que seja de difícil adesão.
Em felonia a impermeabilidade do universo pessoal de Jorge Melícias é cabal. Estamos na presença de um poe­ta que soube fundar a sua própria língua para um dizer mais chegado a uma verdade que se fez indefectível ao mesmo tempo que inapelável. O mundo que inaugurou traz o cunho de uma individualidade que não pode ser imitada sob a pena de trair a sua origem. Pode-se falar com a língua de outro, mas então é o outro que fala por nós. Não me recordo de nenhum fenómeno de individua­ção tão acentuado na poesia portuguesa recente, na qual prolifera uma uniformização temática e tonal a todos os títulos confrangedora.
Poetas há cujo labor assenta na transposição estética de uma experiência real ou ficcional. Esses são os mais facilmente antologiáveis. Em tais casos, cada poema pro­porciona uma visão, necessariamente parcial, do aconte­cer humano. A poesia de Jorge Melícias exime-se a esses pressupostos. Nada evoca uma experiência, nada repro­duz uma vivência concreta ou concretizável; ali cada lan­ce é definitivo, o ser joga-se de uma vez para testar os seus limites. Não há sobras com que entreter uma vida. Tudo se resolve para sempre na adesão a situações-limite, termo cunhado pelo filósofo existencialista Karl Jaspers, em que o ser se identifica plenamente consigo próprio e com o intervalo que o separa do que é ainda ser, mas é já outro Ser. O domínio desta poesia é, pois, o da pura abs­tracção em que o homem se põe defronte da sua consci­ência para perceber que o único frémito que a atravessa é o do conflito que opõe uma vontade a uma necessidade irreconciliáveis (Ricoeur), isto é, uma liberdade constitu­tiva a uma autoridade, seja ela dever moral ou impulso fisiológico, também ela constitutiva e que lhe exige su­jeição. O domínio em que estes conflitos se resolvem ou se expandem é o domínio da religião. Estamos pois indu­bitavelmente diante de uma poesia de cariz religioso.
Se é quase lugar-comum dizer que toda a poesia é uma interpelação a Deus, caso em que claramente se toma a parte pelo todo, no que toca à poesia de Jorge Melícias estou em crer que nenhuma definição pode ser tão con­clusiva, embora, como veremos e como não podia deixar de ser, o sentido dessa interpelação tenha sofrido uma actualização muito pessoal. Senão vejamos o que o pró­prio autor declarava em entrevista a valter hugo mãe, em 2007: “só pela reiteração do horror algum tipo de comutação da culpa [é] possível” (Cosmorama 07: 2007, 8). Se por um lado não há sentimento mais religioso que a culpa, por outro, a concepção proposta por Melícias de penitência deixa antever um propósito que de maneira nenhuma se coaduna com a escatologia cristã. Aqui a salvação não procede mais do retorno ao seio redentor de um deus que acolhe a sua criação depois da penitên­cia terrena sob o jugo da culpa, em que a culpa, como antecipação e consequente interiorização do castigo, vai comutando a pena e preparando os corações para a digni­dade de deus. Na poesia de Jorge Melícias, pelo contrário, a remição da culpa procede de uma adesão incondicional ao crime, através da qual este, por reiteração convicta, se torna insensível a conteúdos morais que possam ser imputados ao acto, e se afirma em total independência na mera inscrição dos processos mecânicos que consti­tuem o crime. “Tudo o mais deverá ser imputado a quem vê:// a rapina/ de uma campo de batalha// ou os mastins/ cruzando a ternura da devastação.” (p. 26). Quem assiste à carnificina, nós, leitores, é que decidimos ou não das implicações morais do cenário que se nos apresenta; o cenário, ele mesmo, e o actor (não confundir com autor) que nele labora, esses há muito que se colocaram para lá da possibilidade de identificação com o humano. A nós a significação – vemos o horror da chacina, ou vemos a be­leza nos olhos dos mastins que se saciam com a vianda? –, a eles a sua vocação. Não se trata aqui da constatação dostoievskiana de que se Deus não existe tudo é permi­tido, mas antes da assunção cabal do crime como últi­ma escatologia. Não é porque a testemunha se ausentou que se pratica o mal (não é a impunidade do mal que se procura nesta poesia); pratica-se o mal para que nada além dele possa vir intrometer-se como contraponto a esse procedimento, pratica-se o mal para se assumir a culpa tão inteiramente que não se chegue a amar nada além dela. Haverá redenção mais doce do que aquela que procede do amor?
De todos os livros de Jorge Melícias, felonia é aquele que mais explicitamente coloca em evidência as implica­ções teológicas e escatológicas desta poesia. Se há uma clara continuidade evolutiva e como que uma unidade temática na obra do autor, creio também poder afirmar que felonia apresenta uma revolução no que diz respeito à focalização temática desta poética. agma [2009], como de resto Fernando de Castro Branco muito bem apontou, parece ser o culminar de um percurso que acaba de se fechar sobre si mesmo e ao longo do qual o humano foi cedendo lugar ao desumano, até que um corpo inorgâ­nico, osso desvitalizado ou vara sincopada, se erguesse como monumento à brutalidade. Lenho a lenho o bisturi foi abrindo caminho através na massa orgânica, até que os poemas se apresentassem unânimes numa paisagem intrínseca, isentos de qualquer sedimento que sugerisse a possibilidade de uma revitalização. O projecto enun­ciado em incubus [2004] – mas já antes – parece ter-se esgotado, isto é, consumado em agma, de tal forma que já em felonia o poeta pode dizer: “eu a encimar o luto/ ponho grinaldas.” (p. 21), auto-ironia que vem acentu­ar o êxito do actor no seu propósito de desafetação do mundo através da assepsia do horror.
Consumada que estava a perfeição do crime, que assu­mido como vocação não carecia já de justificação e, por­tanto, valoração, restava a Jorge Melícias duas opções: reiterar o propósito até que o silêncio lhe sobreviesse, ou, ainda que sem transigir à vocação tão rigorosamen­te adestrada, efectuar uma deriva focal que permitisse aprofundar, já não a mecânica do crime, mas a ontologia do criminoso. Sabiamente, ou apenas naturalmente, o poeta decidiu-se por esta segunda via. A inversão a que esta deriva dá lugar é desde logo evidenciada no título, felonia [revolta do escravo contra o seu Senhor], em que a acção reputada, a revolta, pressupõe relações biunívo­cas entre o escravo e o seu Senhor, mas também, e prin­cipalmente, o escravo e o seu crime. Daí que neste livro o léxico de semantizações confinantes com a descrição desafectada de uma mecânica do horror que predomina­va noutros livros desse lugar à predominância do léxico de pendor axiológico, como se o criminoso se pusesse a tirar conclusões sobre o seu crime e para isso se visse obrigado a abrir mão das restrições lexicais que se im­punha para incorporar a uma nova luz, isto é, com novo significado, os significantes que antes tinha rasurado da sua língua. É assim, por exemplo, que o poeta pode di­zer, sem abdicação do rigor semântico e formal que o caracteriza, que “(…) as ferramentas da penitência/ não encontrarão no meu corpo/ ângulo para a dor.” (p. 19), ou que “As pás do remorso não porfiam/ quando todo o gesto/ rasura a compaixão” (p. 21). Estamos na pre­sença de um criminoso transfigurado pelo seu crime, ou direi antes, de um criminoso em total identificação com o seu crime, tanto que é impossível distingui-los, dado que nenhum espaço, por ínfimo que fosse, foi deixado à compaixão, sentimento que aparece aqui como referente meramente indicativo e nunca actuante.
Como acabámos de ver, este aprofundamento de foco, do crime (exterioridade) para o criminoso (interiorida­de), na poesia de Jorge Melícias não representa nenhu­ma regressão em relação ao propósito estabelecido nos livros anteriores. Não é pelo facto de o criminoso se pôr a reflectir sobre o seu crime que ele chega a conclusões opostas às premissas de que partiu. Por mais que o cri­minoso aprofunde o sentido do seu crime, nenhuma duplicidade moral vem causar atrito às suas convicções, nenhuma hesitação, nenhum temor, nenhuma ambigui­dade ética vem obscurecer o espelho em que o sujeito se projecta cristalino na plenitude dos seus desígnios. Se o poeta sabe que “(…) é a culpa que [o] define/ mais que o crime.” (p. 19), também é verdade que ele viu “(…) a [sua] mão em tudo o/ que se demarca da piedade (…)”, e só então se “comoveu” (p. 20), como se a comoção se tivesse eximido a qualquer valoração afectiva ou moral. Eis aquilo a que ouso chamar “axiologia exangue”. A liça está deserta, regada de sangue coalhado e povoada de corpos desfigurados. Um homem novo – ou não será já um homem? – deambula pelo lugar, contempla o seu feito. Sabe que se pode fundir com a paisagem e abraçar a sua obra como quem abraça um membro amputado. Uma e outro são a mesma carne nua apodrecendo, e se o sangue ainda corre dentro, não é já o coração, mas êm­bolos que o impulsionam; e se inadvertidamente verte ainda uma gota, nenhum alimento desce à terra estéril. Eis que regressa ao útero – afinal, o horror era a sua úni­ca vocação.
Dificilmente se pode conceber poesia mais desfasada da dimensão histórica da realidade. Estamos no estrito âmbito do mito, esse portal aberto entre o humano e o divino. Cada poema de felonia percorre com um látego esse portal, e no extremo em que estala, deus é fustigado com a fúria do anátema no paroxismo da negatividade em que a negação começa a ser já exaltação, furor beato, ou ainda, arrisco, santificação: “A sedição é o meu único preito.” (p. 23), ou “O horror era então a sua própria li­turgia.” (p. 24). Cada poema é a formulação de uma dá­diva, ou melhor, a negação de uma dádiva, uma prece invertida que consiga “engendrar deus/ como uma ideia acuada/ até à capitulação.” (p. 30), e na qual “A rarefac­ção de deus/ era então uma ideia/ que eu trabalhava com afinco.” (p. 28). A mesma abnegação dos santos, o mes­mo propósito redentor. Nega-se a deus para o reencon­trar no fim, ainda que em pura negatividade: “Acalento a promessa da felonia/ como se domiciliasse/ a própria graça.” (p. 19). Todos os ingredientes de uma teologia se reúnem na poesia de Jorge Melícias em torno de um mito fundador que lhe estrutura o sentido. Assim, da mesma forma que os crentes se comovem com os descrentes que ainda não escutaram a palavra do Senhor, também o su­jeito poético de felonia se condói pelo que “ficou por cal­cinar”: “Não me comove a extensão da atrocidade.// (…) // É o que ficou por calcinar/ que me move.” (p. 27). Que melhor divisa para um santo do que a comoção pelos pecadores? Num caso como no outro, só o que ainda não foi redimido é susceptível de piedade. O santo positivo e o santo negativo identificam-se, pois, num ponto: tanto um como o outro foram já inocentados.
O fim que aqui se persegue não é diferente do de ne­nhuma religião: a redenção, a conquista do horizonte em que nos sentimos justificados e identificados com a existência, transposto que esteja o abismo que nos sepa­ra daquilo que algum dia chegaremos a ser, o horizonte sempre adiado que apenas antevemos. Tão-só, no caso da poesia de Jorge Melícias, esse horizonte não precisa mais de ser adiado: o dia do Juízo Final já chegou, é ele, aliás, que se nos apresenta em toda a sua glória e mons­truosidade. A chacina foi feita, o escolhido foi identifica­do: aquele que fez da chacina a sua morada, isto é, aque­le que requisitou ao remorso o seu próprio bem-estar.
A assunção da amoralidade, tanto quanto ela é defini­tiva em Jorge Melícias, representa pois, na minha leitura, uma verdadeira conquista do Paraíso depois da remissão integral da culpa. Não porque deus tenha comutado os pecados (aqui deus remete-se à sua insignificância), mas porque onde não há moral não há culpa, e onde não há culpa já se operou a redenção – que a corrupção não é precedida por nenhum estado de inocência, como já sa­bemos da teologia Cristã e do mito do Pecado Original. Somos, desde o princípio, a nossa própria culpa. Somos, em toda a extensão do nosso corpo, o nosso próprio pe­cado. Aí o nosso lar, aí o nosso deus. Eis porque “(…) há muito que a penúria/ desertou desta paisagem:/ aqui já nem o desespero faz fé.” (p. 31). Aqui, quanto muito, che­ga-se à fé pela defecção, ao amor pela desafectação, à pie­dade pela reverberação do horror. E a redenção, porque ela é sempre o único fim, será a “última traição” (p. 30). “Tudo o mais”, digamo-lo ainda pela última vez, “deverá ser imputado a quem vê” (p. 26), se ainda quiser ver.

João Moita

Sem comentários: