segunda-feira, 23 de maio de 2011

Agenda [actualizado]

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Os Daughters of Lot vão apresentar-se ao vivo nas seguintes datas:

02 Junho - Rock Café, Coimbra
04 Junho - 6º Concurso Nacional de Bandas, Entroncamento
10 Junho - Festival Avantinho, Ansião

sexta-feira, 20 de maio de 2011

XXX

Aqui sou o que respiga o sangue.
É um estímulo nocturno,
a ínvia música nocturna dos meus dedos,
a água música nocturna do meu sangue.
Está uma paisagem deslumbrante retorcida pela água,
o rosto em chaga,
as mãos entradas na contenção.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
XXVI

Batam-me pelo meio com o sangue:
às formas que se abrem.
Filho probo – menstruado com a boca.
Anda uma possibilidade com a articulação ao contrário.
A minha vontade de poder é instituída por uma lei
de uma inconstância terrível.
Este é o teorema da desregulação.
Eu ouço cantar por baixo da pilhagem
com as bocas menstruais:
são as formas da probidade.
Batam-me até eu ser o apostema da derivação.
Ou posso bater um mundo como procedimento sumário.
Nado vivo morto da orfandade.
E ainda me crio onde abandonei a carnagem.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
XIX

A minha veia poética é alimentada a seringas
do alto da contrição.
Excita-me o que me definha.
O meu coração encolhe se usado como símbolo:
esta é a parábola da compensação.
O sujeito lírico afila-se em sua índole jazente,
verte uma veia,
aguarda do alto o alimento,
ergue-se nas patas –
estamos no domínio da moralidade.
Eu pronuncio-me apenas sobre o que é do domínio da agressão,
da beleza escorchada,
do bafo intravenoso.
Venho para anunciar que tudo contribui
para a hipóstase do recomeço.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
XVI

O cântico-livor embrutece,
sobe do fundo desvitalizado,
prepara as sevícias:
só a cegueira desnuda.
Ainda aqui estou para dizer que o taumaturgo opera
nas estrias do pneuma com o seu estilete.
Vê-lo é segurar o punhal embotado da beleza.
Ainda aqui estou para dizer que o cântico-livor se levanta
implacável de tudo isto,
mergulha e emerge de toda a destruição,
estende ainda alto e longe e espaçosamente e internamente e
cristãmente e merdosamente a
flor-de-lis.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
XIII

desdeus disse.
E eu venho apoiar-me à sua quietude muda.

de Miasmas, Cosmorama, 2010.
XII

Mulher fecundada pela solidão:
– extremar o abcesso,
o nervo filial.
Obedecer a uma pulsão incestuosa.
Não permitirei outro contorno que o de uma estaca.
Porque convenhamos: trata-se de uma violação,
uma potência.
Se uma faísca se soltar
não será pelo mediúnico primor do exercício,
mas porque arde:
prole nímia.
A cegueira cresce.
Exponho o segredo pelo lado da ocultação.
Mutilação disponível a uma hermenêutica atroz:
aqui vêm beber sangue,
tanger a morte.
Isto é um entusiasmo,
uma tradição.
Detalhe: está o corpo como estaca levantada,
com o nervo latejando incestuosamente sobre a carne.
É uma pulsão unívoca extremando o canto:
– mulher consagrada à escuridão.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
X

Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão.
Olho o mundo com os globos sob os cascos maduros.
Hoje sou uma revelação metódica:
traio a disciplina.
Canto com o bafo de todas as disposições.
Vi sobre as córneas a besta erguida:
as garras infectadas na pele de Deus,
o caldo rutilando.
Ambos sabiam:
era a Grande Obra.
E eu atava-me aos elementos.
Sublimava-me.
Era na terra uma ocultação.
Deus e Deus amavam-me furiosamente
e eu sabia que me agarrava ao fogo e ao fogo de passagem.
Os pés com que corro são cascos que florescem
sobre os olhos.
A beleza é uma hemorragia que bebo
amargamente.
Hoje canto com uma disposição muda.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
VII

Esta violação é da ordem das catedrais:
pura opacidade.
Aqui o altar é um coágulo.
Para que se decifre na treva a directriz das execuções,
para que a hóstia abra no estômago uma úlcera
de vertigem.
Aqui exumam-se crimes.
Ainda fui a tempo de ver o sangue secar
sobre as tuas chagas:
agora a minha sede é deletéria.
Se abjuro torno-me discernível.
Se professo sou o elo de uma pavorosa dissonância.
Esta é a écfrase da reencarnação:
a coroa destila a sífilis
e a cruz é uma ramificação nas veias.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
III

Abrem-se as searas ao sopro quente da minha boca.
Onde alcanço a vida inteira
entoo um canto fúnebre.
Regresso de todos os açougues onde testemunhei
o aço refulgente.
Regresso de todos os teares onde me tingi
da própria linfa.
O medo, definitivo,
instigando-me sempre.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.
II

Posso começar pela minha morte,
ou posso procurar uma flor para alimentar a terra.
Sei das imagens um modo de transgredir
e sei da casa os ventos da destemperança.
Posso abrir caminho para a minha própria lição.


de Miasmas, Cosmorama, 2010.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Antonio Gamoneda (VII)

Depois de assistires à execução das cotovias desceste ainda até divisares teu rosto dividido entre a água e a profundidade.

Debruças-te sobre a tua própria beleza e com teus dedos ágeis acaricias a pele da mentira:

ah tempestade de ouro nos teus ouvidos, mastros na tua alma, profecias…

Mas as formigas aproximam-se das tuas chagas e ali procriam sem descanso

e há enxofre nos cálices onde devia fermentar a misericórdia.


É esbelta a sombra, belo o abismo:

tem cuidado, meu filho, com certas asas que roçam o teu coração.


Antonio Gamoneda, Lápidas, 1977-86 e 2003.
- tradução minha -