segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Antonio Gamoneda (V)

A beleza
não proporciona sonhos doces; derrama-se
na insónia azul do gelo
e na matéria do relâmpago.

Em cal viva, em
lâminas queimadas,
gira sem descanso; a sua
perfeição é a vertigem.

A beleza não é
um lugar onde os
cobardes vão parar.

Viva em sua luz
o meu pensamento. Quero
morrer em liberdade.

Antonio Gamoneda, Sublevación inmóvil, 1953-59 e 2003.
- tradução minha -

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Francis Bacon, 3 Studies for Crucifixion #3, 1962.


Procuro o lugar exacto onde conceber a mácula. E então hesito entre o amor e a ciência da putrefacção, e espero que Deus venha ver como a culpa cresce dentro do sono, despertando-me, e como concebo a mácula junto às suas anuências e seus desígnios. Já não se extasiam as suas vítimas, já não ergue a sua cólera. Então pergunto: porque estou eu desavindo. E respondo: para que a alegria, a tremenda alegria se despenhe.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Crítica de H. G. Cancela a "Miasmas"

[O autor do blogue Contra Mundum, H. G. Cancela, dedicou um apontamento crítico a Miasmas com o título "o ritualismo". Em baixo reproduzo o texto com o devido agradecimento.]
o ritualismo
de forma persistente, e contrariando o prosaísmo contemporâneo, mantém-se em alguns autores a reivindicação da poesia como território ritualista e profanamente sacralizado. é uma postura que entende a poesia como alguma coisa anterior à escrita, alguma coisa que não cabe na própria língua e que só a custo se corporiza enquanto texto. é uma poesia que voluntariamente se instala naquilo que entende como a margem dos valores ou das expectativas.
o livro miasmas 1, de João Moita, é um bom exemplo de uma poesia de temática metafísica: vive da ideia do sagrado, mesmo quando supõe ou opera pela transgressão do religioso. a figura do poeta maldito, capaz de congregar num mesmo movimento a luz e a sombra, o horror e a beleza, surge como sujeito privilegiado desta escrita:

«Deus e Deus sabem que me agarro furiosamente,
que amo o fogo e o fogo atado à solidão. (…)»
2

o ritualismo do imaginário e do léxico suporta aqui uma intensidade semântica e um investimento subjectivo que não é muito comum. ao longo do livro vamos reencontrando uma poesia que tematica e semanticamente se situa no interior deste imaginário e vocabulário sobrecarregados. e no entanto, talvez os melhores momentos do livro sejam aqueles em que o autor opta por formulações que assumem a secura como retórica poética:

«XXXII

Confio-me às minhas transgressões.
Sempre que me afasto dos seus desígnios
a situação fica oh tão frágil.»
3

é uma poesia rigorosa, mas que ganharia em se libertar de algum imagismo e da sobrecarga retórica que a torna reconhecível. tem o mérito de afirmar a diferença face ao prosaísmo contemporâneo, mas não o de se afirmar como verdadeira alternativa.

1. João Moita, miasmas,
Cosmorama Edições, 2010.
2.
idem, 18.
3. idem, 40.
Texto pulicado no blogue Contra Mundum de H. G. Cancela.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ensaio de Luís Costa sobre "Miasmas"

[O poeta Luís Costa dedicou um breve ensaio à minha poesia que foi agora publicado na revista digital brasileira TriploV.]




JOÃO MOITA OU DA POÉTICA DESESPERADA E TRANSGRESSORA

Por Luís Costa


Um dos livros de poesia mais interessantes que li nos últimos tempos traz o título miasmas, de João Moita (publicado pela Cosmorama edições em 2010), que o próprio poeta teve a amabilidade de me fazer chegar.
Ao longo da leitura deste livro reparamos, imediatamente, que João Moita é um esmerado trabalhador da palavra poética, um senhor do seu ofício cantante, um poeta que sabe da sabedoria do exercício da linguagem.
Poesia da palavra rigorosa (poemas na sua maior parte curtos, de linguagem concisa) o seu discurso é visceral, acutilante e violento (Eu pronuncio-me apenas sobre o que é do domínio da agressão) de uma beleza convulsiva (A beleza é uma hemorragia que bebo / amargamente). Fala com uma voz de veias acutilantes ; que é alimentada a seringas/ do alto da contrição. É uma poética nascida do sangue. Vejamos:

A palavra com sangue
a palavra sangue
dita
atirada com sangue e espasmos
como coração exangue
com o sangue sufocando a voz
e a voz encantando ainda já sem voz
onde eu estou como a descoberto para cantar por baixo.

Todo este livro é percorrido igualmente por uma fabulosa negatividade abissal onde Tânato está presente: Posso começar pela minha morte ; [ ... ] entoo um canto fúnebre. Regresso de todos os açougues onde testemunhei / o aço refulgente ; [ ... ] possuo a beleza como a um feto roxo ; a coroa é um nervo apodrecido na cabeça [ ... ] . E aqui transcrevemos na íntegra o poema XXIV:

É o começo do mero jogo da morte,
o jogo do esforço.
Torção do caos ao rés da espinha.
Esta é uma ferida que sutura pelo excesso de sangue,
esta é a abertura para o excesso de zelo.
A virilha do mundo expeliu o seu filho.
Se me calo,
ouço o ferro,
a pulsação vibrando.
Um único vocábulo líquido
distribui a morte e o seu hálito
a jasmim.

Estes 32 poemas lembram uma caminhada pelas escarpas dos limites, sempre sob o perigo da queda, lugar onde se respiram os miasmas (emanações mitificas ou provenientes de uma doença contagiosa) e onde vamos encontrando imagens, versos e vocábulos desesperados de uma violência lancinante e pulsante, mas fabulosos.

Podemos dizer que há nesta poesia uma descrição do desamparo e da fragilidade existenciais e que há nela, igualmente, um desejo implícito de re – ligação, ou seja, de integração no cosmos e no mundo. Há nela de facto uma forte religiosidade, porquanto exprime (implicitamente), como acontece nos versos 1, 11, 15 do poema X, o desejo saudoso de re – ligação. No entanto a impossibilidade de se atingir essa integração é evidente e traz consigo um sentimento de exílio e vazio existenciais, a expulsão do paraíso uterino ( A virilha do mundo expeliu o seu filho ). O medo é uma constante. O eu lírico encontra-se em permanente fuga: A teoria do medo enuncia-se de boca açulada [ ... ] ; o medo, definitivo, instigando-me sempre. E Em nome de nada./ Do êxtase recolho a nova moral. / De tudo fujo [ ... ]. Ou ainda Os dedos inclinam as suas sondas / para os trilhos do medo.

Pela voz deste eu lírico vislumbramos a imagem de um anjo caído, ou um Édipo, abandonado a si mesmo (nado morto vivo da orfandade), rumando de terra em terra, um desesperado, um culpado sem culpa. Incapaz de se reconciliar com o mundo, de se integrar no mundo, ou seja, penetrar no grande silêncio que é Deus, ele reconhece que Deus não receberia o meu amor em holocausto
[ ... ]; Deus não saberia alentar o meu esquecimento. Isto porque a consciência do homem abre um rasgo, uma dicotomia entre ele e o mundo, entre ele e Deus: a crença não é possível.
A consciência que o homem tem do mundo e por sua vez do tempo não lhe permite comungar da unidade do mundo (nem de Deus que se encontra fora do tempo) como por exemplo o animal. O animal, não tendo consciência do mundo nem do tempo, está dentro do mundo e do tempo, é puro, encontra-se em comunhão com Deus. O animal desconhece a dicotomia, ou seja, o resultado da consciencialização: sujeito/objecto.

O amor que é o ponto mais alto do humano, porque unificador, seria uma das possibilidades de o eu lírico re - encontrar um lugar onde estivesse em casa, uma guarida, mas também o amor é volúvel e precário pois mesmo o amor / às vezes / se põe ao redor, sofre as flutuações do espaço e do tempo, é só um instante nesse espaço/tempo, ou seja, também ele é só um ponto de passagem, um anjo que o tempo torna um cadáver, precário tal como a vida (nascer é começar a morrer):

A vida está aqui de passagem
e mesmo o amor
às vezes
se põe ao redor.

Um anjo é um cadáver sensível.


Consciente da incapacidade de se reconciliar com o mundo, de atingir aquele aberto de que Rilke fala na 8 elegia de Duino, o eu lírico toma contacto com a realidade por meio da transgressão (podemos dizer que a consciência que o homem tem da sua própria existência é uma transgressão, porquanto essa consciência separa-o de Deus, do animal e da natureza).
Toda a linguagem deste livro é transgressora, dado que vem dos limites humanos, das margens, que neste caso são o centro. A sua luz irrompe das profundezas obscuras, das primeiras pulsões irracionais,do ímpeto dionisíaco onde a língua sangra pois: À face do poema chegam irrigadas de sangue: / o furor do mundo em um edema / e erupção; As sombras do meu ventre são relíquias do tempo [ ... ]; O açougue é um lugar de produção; É onde a língua sangra. / Esta é a força que conduz o canto. Ou ainda: Para que o sangue não arrefeça na clausura das veias: / firo-me. / Ínvias são as primícias da transgressão.

É nesta força transgressora (embora ínvia, pois que tal como a própria vida não é por si mesma explicável, nem leva a lugar algum) que o poeta encontra, por meio do cântico à beira dos limites, sempre pulsante, uma possibilidade, um caminho para a libertação, uma promessa, a confiança reencontrada para avançar ao longo das escarpas abissais, para, como Sísifo, voltar sempre e sempre a carregar a pedra pela encosta acima. E assim o poeta diz : Venho para anunciar que tudo contribui / para a hipóstase do recomeço. Deste modo a negatividade assume um tonos positivo.
A transgressão de que falamos é inerente a esta poética, acreditamos tratar-se mesmo de uma necessidade. Pois sem esse impulso transgressor, ela perderia a sua potência e por sua vez a situação ficaria frágil:

Confio-me às minhas transgressões.
Sempre que me afasto dos seus desígnios
a situação oh fica tão frágil.

Podemos ver neste curto poema uma súmula do livro, o canto transgressor em nome do nada, a súmula da viagem que é feita através desta poesia, uma viagem em confronto com a perda irreparável que acontece a cada passo da existência (pois nada permanece, tudo se esvai: (panta
rhei), rumo à morte (posso começar pela minha morte), como já dissemos, sempre à beira dos abismos, uma viagem desesperada que coloca diante dos nossos olhos a fragilidade e o vazio da existência humana, os miasmas que se libertam da fragilidade da existência e nos levam a presenciar o mistério horrível, que nos envolve, bem como a incapacidade de nos podermos situar dentro do mundo, a ferida aberta (A ferida põe o corpo em perspectiva) que só a transgressão poética permite agrafar. A transgressão que é o cântico poético, ele mesmo. Pois este cântico vem da transgressão que se apoia naquele desdeus disse. / E eu venho apoiar-me à sua quietude muda.
A voz do silêncio. A revelação do irrevelável. Transcendência vazia que o cântico transforma em presença habitável.
Até certo ponto este livro segue as pegadas do discurso da poesia baudelairiana e rimbaldiana porquanto há nele a potência transgressora do exercício do cântico revolto ( à margem ) corrosivo e abissal:

O cântico-livor embrutece,
sobe do fundo desvitalizado,
prepara as sevícias:
só a cegueira desnuda.
Ainda aqui estou para dizer que o taumaturgo opera
nas estrias do pneuma com o seu estilete.
Vê-lo é segurar o punhal embotado da beleza.
Ainda aqui estou para dizer que o cântico-livor se levanta
implacável de tudo isto,
mergulha e emerge de toda a destruição,
estende ainda alto e longe e espaçosamente e internamente
e cristãmente e merdosamente
a flor-de- lis.

Poesia do desespero, das tensões nocturnas, ctónica, violenta e destrutiva (tudo procede da violência) transgressora, a voz taumaturga que habita este livro irrompe da noite visceral, é uma luz prodigiosa, uma luz que ilumina as profundidades irracionais, uma luz que de tanto brilho cega, uma luz que não deixa o leitor incólume, que o marca com o seu sangue espúrio, com a lâmina do punhal embotado de beleza, com o contágio da sua combustão lírica, a obscura-luz da própria matéria.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Antonio Gamoneda (IV)

Prometeu na fronteira

I

Talvez passemos pelo mesmo tormento.
Um deus caído na dor equivale
à dor se esta supera o pranto
e se levanta contra o firmamento.

Um deus imóvel é um deus sedento
e a mim cobrem-me com o mesmo manto.
Eu tenho sede e o que levanto
é a impotência de levantamento.

Oh que dura, feroz é a fronteira
da beleza e da dor; nem um Deus
pode cruzá-la com seu corpo puro.

Ambos estamos de igual maneira
a ferro e sede da solidão; os dois
acorrentados contra o mesmo muro.

II

E este dom de morrer, esta potência
degoladora da dor, de onde
nos vem? Em que deus se esconde
esta forma sinistra de clemência?

Uma única divina descendência
a esta zona de sombra corresponde.
Se falas a um deus, quando responde,
vem a morte por correspondência.

Se não fosse cobarde, se, mais forte,
num raio pudesse pela boca
expulsar este medo da morte,

como este imortal acorrentado
seria puro na dor. Oh, rocha,
meu mundo de sede, esquecido mundo!


Antonio Gamoneda, Sublevación inmóvil, 1953-59 e 2003.
- tradução minha -

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Toulouse-Lautrec, Lassitude, 1896.

A noite cai onde ponho a mão: dentro é uma lua que gela. Então procuro o ponto exacto onde conceber a mácula e amar a culpa. Cinco são as luas do meu regresso. Uma a uma, circularmente. O ácido que por vezes levo à boca é a minha sabedoria. Se então me escorre pelos lábios, saberei que delírio me toma? Que ciência descubro? Que inaudita beleza irrompe de mim? Eu sou a minha própria conclusão, a minha destinação. Se me rasgo, desvelo os astros que me espiam. E tantas vezes tropeço numa álgida alegria.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Duas notas estenografadas sobre poesia

§ A poesia é uma construção antropológica*, a actualização pela linguagem de mundos em potência mas ainda não concretizados. A poesia propõe assim um mundo-outro, construído pelo homem à imagem de Deus, inscrevendo na vida realizações que antes apenas se intuíam no ilimitado dos enunciados da linguagem humana. O ilimitado é de Deus, a inscrição é do homem.

§ A inscrição de novos mundos de linguagem no mundo não visa tanto corrigir o que existe, mas violentá-lo. A poesia enquanto construção antropológica não pode aspirar, da mesma forma que a ciência não o pode fazer, à rectificação das regras que subsumem o mundo, uma vez que sobra sempre uma zona de obscuridade na qual nenhuma correcção pode ser expectável. Quanto muito, a ciência pode descobri por aproximação as leis mais ou menos imutáveis e aprender humildemente a manipulá-las, nunca a corrigi-las. A violência que a poesia exerceria no devir do mundo seria portanto da ordem da ofensa e não da transformação. Seria a lucidez possível de um juízo permanente cuja tensão se não deixasse afrouxar. Cuspir na cara do mundo não o muda, mas castiga-o. É essa talvez a única forma de nos mantermos frente a frente com ele. Pouca coisa, já se sabe, mas mais do que isso não se pode, e menos não vale a pena.
*fui buscar esta noção, bem como o dínamo para estas reflexões a Manuel Gusmão (cf. Tatuagem e Palimpsesto, Assírio & Alvim, 2010.)