sábado, 29 de janeiro de 2011

Antonio Gamoneda (III)

Arranca-te a luz do olhar.
Os anjos do bem estão submersos.
Desejos de nuvens e de ninhos
são a cinza da madrugada.

Arranca-te a luz, que chegou
a hora dos céus baixos,
e rasga os teus lábios acesos,
que em baixo está a terra apaixonada.

Está em baixo a terra e, por metais,
lentos barcos de amor, esvaziam-se os mortos
e não choram: cantam, horizontais.

É a boca de Deus. Tremida,
na velha paixão dos desertos,
chama, em baixo, quente, pela tua vida.


Antonio Gamoneda, La tierra e los labios, 1947-53.
- tradução minha -

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Vincent Van Gogh, De hut, 1885.


Todos os dias, a esta mesma hora, saio de casa para caçar. Dizem-me que não é a melhor altura do dia e que em breve a noite esconderá muitos perigos. Não sei do que falam. Todos os dias, a esta mesma hora, saio de casa para caçar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Antonio Gamoneda (II)

O grande vento da noite
entra, lento, nos trigais.

Deixa a tua mão na minha
que são as nossas núpcias.

Tomo-te porque a minha pena
tem a cor dos teus olhos;

porque o meu pão é moreno
como a tua carne.


Antonio Gamoneda, La tierra e los labios, 1947-53.
- tradução minha -

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Considerações avulsas acerca da poesia de Saint-John Perse, com incidência em 'Eloges'


Saint-John Perse raramente falou do seu mister poético. O pouco que sabemos das suas concepções teóricas acerca da poesia podemos encontrá-lo nalgumas cartas dirigidas a amigos e no discurso de aceitação do Prémio Nobel. Este documento torna-se assim um elemento fundamental no estudo que vamos desenvolver.
Nesse documento o poeta salienta de forma categórica o carácter relativista da ciência actual. Quando a verdade factual passa a ser uma questão de perspectiva, a imaginação adquire uma importância que até aqui lhe era concedida apenas pela criação artística. A razão cartesiana é agora posta em causa e sobre ela opera a intuição. A poesia vem assim em auxílio da ciência para fundamentar uma verdade: a verdade é tudo o que criar uma “equivalence between modes of sensibility and intellect” (todos as citações em inglês sem outra referência reportam-se ao
discurso do Nobel), a verdade é agora da ordem do mistério, da obscuridade que se revela a si própria. Estamos longe da fé na razão como veículo para Deus, estamos longe do homem do Iluminismo que legitimou com a crença arrogante nas suas capacidades as atrocidades do colonialismo. O pensamento poético de Saint-John Perse não é devedor de Descartes: “through the grace of a language into which the very rhythm of Being has been translated, the poet invests himself with a surreality that cannot be that of science” . A poesia denota o ritmo do Ser, mas esse ritmo não é o de uma marcha militar, a cadência não é a da progressão indefinida: o ritmo do Ser é um poliritmo, a sua lógica a do contratempo que instiga dinâmicas. A função do poeta, diz-nos o nosso autor, é a exploração do mistério do homem, fazer cintilar a sua obscuridade, tirar “à nos chantiers (…) d’immortelles carénes!” (1992:28).
A poesia, na visão que dela tem Saint-John Perse, “clasps both past and future in the present, the human with the superhuman planetary space with universal space”, isto é, também ela evoca o tempo mítico, no qual nem o passado nem o futuro assestam a sua referencialidade, retirando-lhe por isso duração. “The obscurity for which it is reproached pertains not to its own nature, which is to illuminate, but to the night which it explores, the night of the soul and the mystery in which human existence is shrouded”, isto é, a poesia não traz à luz a verdade unívoca de que derivamos, mas mergulha fundo na obscuridade rizomática em que o nosso caos se expande, arrancando inadvertidamente às nossas profundezas pedaços de luz que repetem outros pedaços de luz no refluxo da nossa existência: “- Sinon l’enfance, qu’y avait-il alors qu’il n’y a plus? / (…) / Et tout n’était que règnes et confins de lueurs. Et l’ombre et la lumière alors étaient plus prés d’être une même chose…” (2002:31).
Em Éloges , os poemas-fragmento falham a possibilidade de uma organização diacrónica, escapando às premissas da narratividade tradicional cujo nexo se sustenta na obediência a uma linha contínua de disposição, seja ela temporal ou genealógica. Os fragmentos que constituem os poemas deste livro, plasmados num tempo e espaço fora do tempo e do espaço, cortam os liames do tempo histórico e inauguram o tempo mítico. O que se evidencia nesta poesia não são as casas que os homens constroem, mas os santuários que os deuses habitam em forma de linguagem para ensinar aos homens a fé que a razão construtora ignora: “La terre / alors souhaita d’être plus sourde, et le ciel plus profond, où dês arbres trop grands, las d’un obscur dessein, nouaient un pacte inextricable…” (2002:27). Os adjectivos presentes neste trecho (secreta, profundo, obscuro, inextricável) apontam para a opacidade das catedrais, para o fundo da terra onde, inexoráveis, os rizomas se expandem e irradiam, urdindo nas suas malhas a pureza mestiça. A pureza é aqui entendida como a inocência que preside aos processos e não como uma exclusividade da brancura imaculada com transmissão vertical de pai para filho, criador para criação. A inocência que preside aos processos é prévia à introdução no mundo dessa eugenia hereditária que circunscreve de forma asfixiante as possibilidades de actualização das oportunidades, trata-se da pureza da relação sem leis que a organizem, a pureza da transgressão. Desta forma, “opaqueness is a positive value to be opposed to any pseudohumanist attempt to reduce us to the scale of some universal model” (1989:162), tal como reclama Edouard Glissant no seu Discurso Caribenho.
No ensaio que António Ramos Rosa dedica à genealogia de certa tendência da poesia moderna intitulado “De Vitor Hugo a Saint-John Perse”, o poeta português releva bem a tendência da poesia moderna para “pulverizar um mundo em que a unidade e a síntese se procuram num grau de iluminação e obscuridade cada vez mais longe de esquemas e quadros da razão [cartesiana] e da consciência social” (1986:147). Em Saint-John Perse essa tendência é a única que pode garantir a “permanência e a unidade do Ser”: “For him [o poeta] the entire world of things is governed by a single law of harmony”, e essa única lei de harmonia é, se quisermos, a lei da imaginação, faculdade humana que não pode ser corrompida porque nela as estruturas de poder são estilhaçadas pela inconstância dos seus processos, nela todas as representações que o homem se impõe na esfera social são deturpadas, amalgamadas para criar novas possibilidades no tempo em que nenhuma se concretizou e, por isso, todas se podem concretizar. É o tempo mítico das ilhas, ressumando à garganta de um Deus: “Vraiment j’habite le gorge d’un dieu” (2002:50). No tumulto do mundo contemporâneo, é na força poética das ilhas das Caraíbas tal como as pintou Saint-John Perse, sua paisagem e sua teia humana, que vive a força subterrânea que construirá novos futuros para um presente murado pelas ruínas das catástrofes que desencadeou, sejam elas a guerra ou o esgotamento dos recursos naturais a nível planetário.
Na sequência de poemas “Images à Crusué” do primeiro livro de Saint-John Perse, Éloges, existe uma forte oposição entre estes dois tempos, o mítico sem duração e o tempo linear das resoluções dos homens que atingem resultados desastrosos. Nestes poemas é-nos dado a experimentar a angústia de um homem arrancado à sua ilha paradisíaca – onde tinha encontrado a simbiose entre os ritmos da vida e os ritmos da natureza –, e transplantado na terra dos homens onde a civilização obliterou todos os elos de ligação do ser humano às forças cósmicas que o moldaram: “tu pleurais, j’imagine, quand des tours de l’Abbaye, comme un flux, s’épanchait le sanglot de clothes sur la Ville” (2002:13). Saint-John Perse, então com 17 anos, inspira-se no final do romance de Defoe, altura em que o herói é resgatado por um navio à ilha em que naufragara e reposto à civilização. É então, diz-nos Roger Little, que Saint-John Perse “shifts the center of attention from Crusoe’s activities and adventures on the island to his recollection of its splendors and recognition by contrast of the meanness and squalor of city life” (1973:12). Este é o velho tema do exílio, mas com sinal contrário. O sujeito poético, Robinson Crusué, é um exilado entre os homens suspirando pela solidão na ilha onde podia construir as suas próprias referencialidades e significações: “C’est le miel fauve des fourmis dans les galeries de l’arbre mort” (2002:14).
Em Twilight, Dereck Walcott escreveu que “For every poet it is always morning in the world. History a forgotten, insomniac night” (apud. 2007:83). Este contraste entre o tempo histórico e o tempo mítico é o que está em jogo em “Images à Crusué”. A cidade, ao contrário da ilha, é apresentada em imagens que reflectem a corrupção a que foi votada: “La ville par le fleuve coule à la mer comme un abcés…” (2002:13). Nela se eleva o edema para onde as aparas da história são lançadas apodrecendo. Quando lancetado, o edema deita o seu pus e os seus miasmas espalham a peste pelo mundo. Na cidade, não há distinção entre dia e noite, ambos se confundem no “fumée des hommes” que se eleva da sua actividade corruptiva. Esta confusão tem o seu paralelo nas ilhas na indistinção das estações do ano: “The one and only season, for instance, this rhythmic plain-song, which denies us the pattern of seasonal change, that Western cultures benefict from but which allows us to live not only another rhythm but another notion of time” (1989:161). Mas ao contrário da cidade, em que a indistinção resultava da actividade do homem, expediente que abre o tempo histórico, na ilha a indinstinção resulta da natural vivência do tempo mítico, que, como vimos, não tem duração e, logo, distinção. O tempo mítico é também o da comunhão com a paisagem. Segundo Valérie Loichot, Dereck Walcott estava bem avisado desta característica da poesia de Perse: “Walcott even goes so far as to state that the Caribbean palm trees ‘recite’ Saint-John Perse, pushing the symbiosis between writing and natural space to an extreme” (2007:83). Assim, vemos que Sexta-Feira, o nativo amigo de Crusué, se liga à terra como se fosse uma extensão desta: “Vendredi! que la feuille était verte, et ton ombre nouvelle, les mains si longues vers la terre (…)” (2002:17). Enquanto na ilha as mãos se inclinam na direcção da terra, na cidade nada germina, tudo está envolto num véu de sujidade e infertilidade:

LA GRAINE

Dans un pot tu l’as enfouie, la graine pourpre demeurée à ton habit de chèvre.
Elle n’a point germé. (2002:22)


É então que o poeta, assumindo a voz de Robinson Crusué, solta o seu lamento invertendo as premissas do sentimento de nostalgia: “…Ne me laisserez-vous que cette confusion du soir – après que vous m’ayez, un si long jour, nourri du sel de votre solitude” (2002:23). Ao contrário da Odisseia, este não é um poema da dor do nostos, a menos que tomemos nostos não pela comunidade dos homens em forma de família e lar, mas como atestando a nossa presença diante de nós mesmos no lugar onde não podemos ser estrangeiros por ser lugar onde se respira o âmnio. Este Crusué almeja regressar à sua solidão, à sua ilha pré-diluviana, não à sua pátria, não ao conforto do lar e ao calor da sua mulher. Este Ulisses pretende permanecer entre os lotófagos, provando a folha da amnésia, para que as novas construções não ecoem as antigas, para que os novos homens a haver sejam de facto novos, isto é, de uma nova cepa, isto é, procedendo da hibridação e mestiçagem dos caules únicos:

(…)
alors, ouvrant le Livre,
tu promenais un doigt usé entre les prophéties, puis le regard fixé au large, tu attendais l’instant du départ, le lever du grand vent qui te descellerait d’un coup, comme un thyphon, divisant les nuées devant l’attente de tes yeux. (2002:23)


O tom de Éloges é o do exílio, da saudade e da evocação do Paraíso Perdido. Na sequência de poemas “Pour fêter une infance”, o Paraíso confunde-se com a infância e o tempo vivido em Guadalupe: “Mais la terre se courbait dans nos jeux comme fait la servante (…)” (2002:29). Era o tempo da alegria e da exaltação dos sentidos: “Aux lisières le fruit / pouvait choir / sans que le joie pourrît au rebord de nos lèvres” (2002:31). O espaço era inscrito sob o signo da exuberância, a infância “se gorgeait de fruits d’or, de poissons violets et d’oiseaux” (2002:35). Estamos no domínio do mito. Mas o que o poeta deseja será mesmo um impossível regresso no espaço e no tempo, ou quererá, antes de tudo, criar o espaço perdido através da linguagem e por ela chegar a ele? As saudades que terá serão de um tempo que passou, seja ele colonial, pré-colonial ou pós-colonial, ou serão, pelo contrário, do tempo que nunca foi e que só será enquanto for escrito? O que sabemos afinal é que “Ce navire est à nous et mon enfance n’a sa fin” (2002:48), e nem acabará enquanto a escrita durar, porque dentro dela o tempo é sem duração e o espaço é uma gleba aberta a todas as oportunidades perdidas. A poesia de Saint-John Perse opera uma alquimia que busca uma pureza iniciática, mesmo que não inicial. O que se procura é a transmutação do que é naquilo que nunca foi. Tal como na alquimia, os elementos usados são precários e conspurcados, e a pureza resulta da sua fusão em quantidades ainda não experimentadas. Como diz Roger Little na obra supra citada: “It is pagan and timeless, an archetype creating its own mithology” (1973:21). De facto, a identificação do homem com a Natureza afasta Saint-John Perse das concepções cristãs ocidentais onde a clivagem entre o espírito e a matéria, uma com sentido positivo e outra com sentido negativo, impedem uma comunhão criadora com a terra, vista como prisão que urge superar para chegar ao Espírito.
Em Anabase, livro de outra fase de maturação, o poeta autoriza ao seu Crusué a peregrinação que o poderá ajudar a reconciliar-se com os homens. Fugindo da cidade opressora e iniciando o seu périplo pelo deserto, o Estrangeiro pode finalmente reencontra-se com a humanidade, ainda que com uma humanidade primitiva e, por isso, aberta às possibilidades do devir: “Et voici qu’il est bruit d’autres provinces à mon gré... (…) et l’Étranger à ses façons par les chemins de toute la terre” (1992:21). Nesta primeira canção, Saint-John Perse estabelece o tom de todo o poema: em local indeterminado um cavalo nasce, enquanto ajudam ao parto os locais recebem a visita do Estrangeiro; não podem deixar de se maravilhar com a sua figura, a sua aura misteriosa de quem correu muitos caminhos e guarda o segredo de muitas coisas. Que coisa são essas? São coisas a haver, os poemas, que por natureza se furtam a qualquer fechamento, qualquer interpretação e qualquer erosão. Como os rizomas, eles também se prestam a qualquer ligação, qualquer contacto, qualquer abertura e descentralização.


Referências:

1973
Little, Roger, Saint-John Perse, The Athole Press University of London.

1986
Ramos Rosa, António, Poesia Liberdade Livre, Lisboa, Ulmeiro.

1989
Glissant, Edouard, Caribbean Discourse, University of Virginia Press.

1992
Perse, Saint-John, Anabase (trad. José Daniel Ribeiro), Lisboa, Relógio D’Água.

2002
Perse, Saint-John, Elogios (trad. Jorge Melícias), Vila Nova de Familicão, Edições Quasi,.


2007
Loichot, Valérie, Orphan Narratives – The postplantation literature of Faulkner, Glissant, Morrison and Saint-John Perse, University of Virginia Press.


Edouard Manet, Gare St-Lazare, 1872.

Sento-me com este livro das horas na gare de St. Lazare e espero que a manhã digira a sua luz. A minha filha escuta os seus demónios enquanto os transeuntes passam indiferentes à sua querela louca. Sei que vou encontrar a oração deste dia e sei que com ela estarei mais próxima da minha absolvição. Quando a agitação nas ruas for de natureza menos equívoca, preparo-me para regressar. Espera-me a tarde e algum ardor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Antonio Gamoneda (I)

Ninguém me ensinou uma lágrima;
não senti pulsar na minha garganta
o rouxinol sangrento da luz.

Uma vez disse: «Vem, Deus, vem aos meus lábios,
vem aos meus olhos e à minha sede.» E Deus
só era verdade no silêncio.

Antonio Gamoneda, La tierra e los labios, 1947-53.
- tradução minha -

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

António Carneiro, Ecce Homo, 1901.

Não, não é o remorso que me leva assim humilhado, nem tão-pouco foram os fados que me inculcaram este ardor. Os deuses não se interessam por mim, e o remorso não morde a quem não fede moral. Não, não é despudor nem ignomínia o que me leva assim oprimido, nem eu sou responsável por infâmia ou devassa. Não, não sou culpado: – afasto-me para que me amem.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Father's lament

Father's lament - música: Miguel Fernandes / letra: João Moita

versão rudimentar
Guilt is striking me
Ceremony had its din
Regret me
Dry and taste me
Forget and toll me
Love’s a string

Cut me into little slices
I’m your staggering puppet’s vices
Miasma’s scope is on the rising
My salty tears are women’s flavored
I am here and you’re long forgotten
Little children – Come what may

I’m a father / Shouldn’t stumble
I’ve been higher / I’m so tired
I’m a liar / Such a thief
Been so hallowed / Been so cruel
Been so loving / To my own flesh

When flesh is like a stone
Make my heart a bone
And let it bloom
Inspiring you
To the greasy moment
That’s being arranged
I’m following
Guilt is striking us
But pleasure’s deep
So hide it in me
Build our love around
A disastrous urge

domingo, 16 de janeiro de 2011

Caravaggio, O sacrifício de Isaac, 1596.


Senhor, bem vejo que favoreces o teu servo; a tua benevolência é o sinal da tua inesgotável misericórdia. Por esta exoneração, a minha boca abrir-se-á em teu louvor até ao fim dos tempos, e sempre meu coração arderá no fogo sagrado da gratidão. Mas não penses que retrocedo. Esse carneiro não é digno de ti, nem eu sou tão torpe que aceite de bom grado a troca injusta que me concedes. Pois este animal não dá a justa medida do amor que tenho por ti, Senhor, nem eu me perdoaria tão pouca coragem na hora de te agradar. Porque tu és o Deus de todas as nossas tristezas e de todas as nossa alegrias. Faça-se pois a tua vontade, e que Isaac me perdoe.

Auguste Rodin, Os burgueses de Calais [pormenores].



"Quando se não soube bordar a fio de ouro, o remédio é britar pedra."

Fiodor Dostoievski, Recordações da casa dos mortos.
Cor do texto

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Claude Monet, Poppies Blooming, 1873.
Ontem colhi papoilas. Escolhi dentre as mais vermelhas aquelas que menos gemiam ao vento da tarde e arranquei-as pelo caule. Coloquei-as numa jarra junto à janela onde o sol bate de manhã. Deixei os estores abertos e uma vela apagada. As papoilas eram o silêncio da casa quando eu cantava, e tantas vezes me dobraram sobre a página para que me desfolhasse. Às vezes penso que me vou erguer, mas é só o sangue eriçado. Toda a gente pensa que me distraio. As papoilas estão no vértice da casa à espera de Junho. Eu sou o mês do clamor. Toda a gente pensa que me baralho. A casa engole as papoilas com o sangue quando danço e nem os cepos baloiçam. Minha mãe tem um chapéu e uma sombrinha azul e anda por entre as papoilas a indagar as borboletas. Às vezes penso que me vou erguer, mas é só o seu olhar absorto em mim. Bebo água até não ter mais sede. As páginas tingem-se e nem eu amo a minha doce saliva. Toda a gente pensa que me arrepio quando me estendo na erva e o vento da tarde resfria a terra. Minha mãe não sabe que fico transido e que me ergo sob o sangue que me despenha. Ontem colhi papoilas. Hoje penso que vou morrer.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Miasmas (III)

XIX

A minha veia poética é alimentada a seringas
do alto da contrição.
Excita-me o que me definha.
O meu coração encolhe se usado como símbolo:
esta é a parábola da compensação.
O sujeito lírico afila-se em sua índole jazente,
verte uma veia,
aguarda do alto o alimento,
ergue-se nas patas –
estamos no domínio da moralidade.
Eu pronuncio-me apenas sobre o que é do domínio da agressão,
da beleza escorchada,
do bafo intravenoso.
Venho para anunciar que tudo contribui
para a hipóstase do recomeço.


João Moita, Miasmas, Cosmorama, 2010.