Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Rembrandt, Tobias e a sua mulher, 1659


Sentado ao fogo, junto de minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Já então a cegueira alastrava como luz que se afasta. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade, e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Tudo foi consumpção. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam. Onde uma folha caía no Outono, erguíamos um templo de sedução. Eram os dias dos suicídios e do amor. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com Deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.

1 comentários:

Luís Costa disse...

Gostei de ler. Belo texto em prosa poética.