quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A posteridade

A posteridade é o início do mundo. Por exemplo, uma fotografia capta o inessencial de um momento. Estão os dois homens esperando o tempo e o que se fixa não é bem a fracção de segundo que houve, mas o que houve nessa fracção: o mundo reproduziu-se dentro de si. A imagem que perdura não se lhe escapa, não se evade para, fora do mundo, ser a memória dele: a imagem é ainda uma sua realidade. Não um espelhamento para ver de fora, não uma alusão. É o próprio mundo incorporando-se em si. O seu outro é ele mesmo diverso, isto é, a sua transformação ou a sua revelação (toda a revelação é uma transformação, se não no que se revela, pelo menos no que acede à revelação). A arte visa pois a criação da realidade, e não a sua representação, quer dizer, a sua preservação. Porque a arte não é a consciência exterior do mundo (só o seria se a fotografia captasse a fracção de segundo que houve), mas é o mundo em si mesmo, o mundo actuando. Desta forma, a arte nunca pode equivaler a um conhecimento: ela equivalerá, quanto muito, a um acometimento. A arte acrescenta mundo ao mundo. Um dia saberemos que criámos a terra. Já sabíamos que tínhamos criado os deuses. Criaremos um dia o paraíso. E então o abismo será maior.

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