quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Mito Corrompido - Sobre "Caminharei pelo vale da sombra" de José Agostinho Baptista



“Nunca fomos deste mundo, dir-lhe-ei por fim, ao fechar / a última porta.” (213): assim termina a longa elegia de Caminharei pelo vale da sombra, último livro de José Agostinho Baptista. Este desacerto com o mundo apresenta, no trabalho mais recente do autor, uma estrutura mítica que, ao mesmo tempo, se desdobra espectralmente sobre a realidade contemporânea. Se o mito pressupõe a cristalização de uma angústia numa significação que, não a resolvendo, a dá por inteiro em tangibilidade, isto é, se o mito é o duplo não referencial da realidade, nos últimos dois trabalhos de JAB (o outro tem o título O pai, a mãe e o silêncio dos irmãos), há um segundo movimento da realidade em direcção ao mito que o tinge dos vestígios referenciais de onde parte. Entramos pois no domínio da alegoria. Mas não é esta uma alegoria com vista à tipificação do real ou à sua correcção. Porque para tal seria necessário que o autor acreditasse que a poesia pode comunicar com a realidade que a exclui dos seus processos, que a linguagem poética pode ainda sacrificar na grande pira a carne humana, que é o preço mínimo que um valor exige. Não, este é o mundo em que, de tanto soar, o alarme perdeu a capacidade de alarmar, e em que todos os símbolos perderam a sua eficácia ao identificarem-se com a agonia geral do significado:

“Ao chegar ao vale da sombra,
que diremos,
que diremos ao ouvido dos que não ouvem?” (135)

Ecoa portanto num tempo mítico, a-histórico, o descalabro da nossa era. A contaminação que adere ao mito dá-nos o sinal da dimensão da corrupção a que votámos a nossa vida, ao mesmo tempo que o tempo mítico em que transcorre esta poesia apela ainda à nostalgia de uma outra vida que perdemos ou nunca tivemos. Mas é esse um apelo desesperado (e, por isso, não conformado, que é a atitude que caracteriza muita da actual poesia que recusa a capacidade de a linguagem moldar um saber que não está na realidade imediata). Esse apelo surge veladamente, é certo, ressuma dos escombros, existe como tom mais do que como enunciação, está fora do tempo pré-diluviano em que decorre a escrita, porque mesmo o tempo edénico está corrompido. A outra vida só pode estar, pois, no fim, do outro lado do poema, no silêncio que se lhe segue:

“Por isso regressa, coração frio,
à tua campa,
cala o murmúrio das cidades de areia.” (95)

Ou ainda:

“E se fui príncipe outrora,
se fui o adorador do sol,
se fui o mago e o encantador de serpentes, sou,
por fim,
aquele que caminha para o vale da sombra,
e tenho medo.” (146)

Ao tempo do poema é convocado, pois, o desastre da nossa civilização que condena o poeta à marginalidade e ao exílio de que o autor dá conta nos dois últimos versos já citados do longo poema. É o paraíso assaltado pela nossa ambiciosa depravação, pela nossa descrença auto-complacente, a nossa arrogância despudorada, a nossa desacreditação do temor com que desvendamos o mundo e ele se nos revela:

“Templo dos templos,
sagrado e profano, onde Deus venera as pálpebras
roxas de uma longa insónia.” (68)

O venerando venera, eis que se invertem os vectores da divindade e nós a reclamamos para ingenuamente a destruirmos e conhecermos o estigma da nossa orfandade.
Assim, duplamente órfão na dimensão vertical dos Valores e na dimensão horizontal da fraternidade, ao poeta resta assumir e viver a sua solidão, afirmá-la como um sinal, um aviso que permaneça ou se esfume, pouco importa, desde que viva:

“estar só,
cada vez mais só,
pagando o preço de escrever em silêncio,
como um cargueiro irrompendo da névoa, sem um
farol nos cabos do medo.
O país da infâmia tudo te roubou, mãe.
A crença, a dança, a euforia” (207)

A mãe, tal como o cão e a amada, simbolizam os elos ausentes da ligação do poeta ao mundo. É porque existem em potência na memória do poeta que o poema pode ser escrito e evadir-se ao silêncio que se imporia estivesse ele irremediavelmente só no seu esquecimento; eles são a polarização da escrita, a fantasmagorização que rompe a incomunicabilidade do mundo e aligeira a condenação do tempo que nos calhou:

“Se hoje pudesse,
ao cortar a romã das terras frias,
faria para ti uma grinalda de sangue vivo,
e devagar,
quase em surdina, dir-te-ia ao ouvido: tu és a senhora
deste reino” (17)

Mas eles não existem mais, os portos são lúgubres e nevoentos e os faróis apagaram-se. Nenhum ponto de referência o assiste na viagem. Resta-lhe pois “conceber, sem mapa nem astrolábio, a viagem para / as flores alucinadas” (84). É um trabalho megalómano e impossível. Não há que esperar encontrá-las, mas antes desesperar. Então, no meio do desespero, ascenderá a música:

“E então,
talvez a música seja isto,
um martelo nos tímpanos,
um país distante onde alisam as penas dois albatrozes,
indecisos, perplexos,
sem outra razão que não seja um veloz esvoaçar,
rasgando a nuvem,
para que Deus saiba quanto é íngreme a sua obra.” (116)

Talvez Ele já saiba. Chegaremos nós a sabê-lo?

1 comentário:

benjamim machado disse...

bela recensão.

grande abraço e, como já passa da meia-noite, parabéns!