quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Jorge Melícias entre a poesia do excesso e a economia do horror: para além do interdito





















Construí a minha força com aplicação,

metodicamente.

Vergílio Ferreira

É a beleza do que é estranho, desarmónico – penso – para se recuperar a harmonia que se perdeu.

Vergílio Ferreira



Saiu recentemente nesse Brasil que por tradição se mostra tão relutante em receber os poetas portugueses um estudo de um investigador brasileiro, Daniel de Oliveira Gome, dedicado à poesia de Jorge Melícias, seguido de selecção de poemas. Não direi que uma edição deste género se impunha em Portugal; não quero a polícia à perna. O livro leva o título de A poesia do excesso – Rumo às Vísceras de Jorge Melícias, e chancela da TodaPalavra Editora. É muito significativo que alguém que não tenha acompanhado a evolução da poética de Melícias e, portanto, alguém que acabou de tomar contacto com esta poesia (conforme explica na Introdução), tenha encontrado imediatamente matéria e estímulo para um ensaio tão longo. E é tanto mais significativo quanto a leitura desta poesia é tarefa exigente, particularidade que tenderá à rejeição espontânea do leitor mais distraído ou menos preparado. Assim se explica que alguns leitores, desconcertados por uma linguagem tão pessoal e inesperada, a enjeitem como corpo morto – porque assim arrumam a questão, ao colocarem esta poesia na linhagem de outra que repelem, e evitam o confronto e o desconforto que provoca esta voz singularíssima no contexto da poesia portuguesa contemporânea.

A poesia do horror que Jorge Melícias pratica impressiona, diz o autor do estudo que apresentei, pela sua «desafetação», termo dificilmente usado no português europeu. Esta «desafetação», esta ausência de afectos tem, segundo me parece, duas possibilidades de leitura. Se por um lado podemos reconhecer que a ausência dos afectos remete para um estado primordial, pré-civilizacional, no qual as pulsões violentas do homem emergiam da união com a natureza caótica (Bataille), por outro, o início do período histórico, com a interdição dos impulsos naturais instaurada pela ordem do trabalho que veio impor o modo de vida civilizacional (outra vez Bataille), veio metamorfosear esta violência do estado selvagem em crueldade, característica especificamente humana. De facto, só o homem poderá transformar num fim em si aquilo que nos outros animais se apresenta como instrumento ao serviço dos instintos básicos de sobrevivência. Oliveira Gomes destaca a primeira destas leituras, ao mesmo tempo que só muito ligeiramente aponta para a segunda quando reconhece que a poesia de Jorge Melícias se inscreve na “discursividade pós-utópica do mundo em estamos”[1].

Com efeito, afirmamos que a crueldade em Jorge Melícias não deve ser entendida no quadro da sua inscrição no tempo histórico, se o enunciarmos, na sequência de Bataille, como a progressiva separação do homem em relação à natureza pelo investimento de interditos que canalizem a sua energia deletéria em energia produtiva. Neste sentido, só poderemos entender esta poesia como eco de um tempo pós-histórico. Poderíamos facilmente ser conduzidos para um equívoco se pressupusemos que a crueldade em Jorge Melícias radica na falência dos valores na Modernidade, momento histórico que na poesia configurou a figura do poeta maldito. A progressiva afirmação do Mal como contra-valor decorre da progressiva neutralização do Bem (e, no caso, do Belo) como valor. A falência dos Valores Aglutinadores que autenticavam a presença do ser humano no mundo e em referência aos quais se instituía a gradação dos valores (Deus, a Razão, o Comunismo, etc.) deixou a arte sem referente externo a si própria, pelo que não lhe restou alternativa senão virar-se para dentro e ver o que era. A luz que reflectia não era dela, e o que ficou foi um abismo imperscrutável. Então pôde ver-se que o poema não era mais que uma construção linguística capaz de exprimir o homem. Poesia como conhecimento.

Ora, se, como diz o autor, “o que temos são (…) poemas como fetos mortos expelidos de um corpo funcional"[2], ou se “em Melícias não temos nenhum segredo do corpo [isto é, a alma], mas o corpo ele mesmo como um enigma maior, corpo oculto [isto é, cadáver] ”[3], se então o que temos em Jorge Melícias são representações de um horror com «esquadria»[4], sem excesso para onde extravase nem segredo que oculte, se a alma não qualifica as percepções do corpo, a crueldade de Jorge Melícias não se pode opor a nenhum valor do qual desesperássemos, como os românticos malditos, não se afirma como contra-valor que certifique o valor que nega (como Diabo certifica Deus). Esta crueldade é ímpia não por obstinação, mas por vocação, não por subversão, mas devido à naturalização que sofreu após o que será, na narrativa de Melícias, o final da história, coincidindo com a inibição ou ineficácia do interdito que separava e fazia a ponte entre o mundo profano e o mundo sagrado, o cá e o lá onde nos reflectíamos, a terra e o céu. Não há nenhuma espécie de duplicidade moral, ou ambiguidade ética, não há um espelho invertido no qual se reflicta por oposição ao que a nega. Perdoem-me portanto a desfeita os detractores desta poesia como devedora de uma concepção moribunda do fazer poético, segundo a qual o poema acreditaria no seu poder re-ligioso. Só assim entendemos que o poeta afirme que trabalha «a crueldade / pelo lado da exuberância»[5], ou que, sendo «A chacina (é) uma indução / à espera do seu tempo», a instância enunciadora se estabeleça «unívoca» «sobre esse propósito». Não há duplicidade, é univocamente que se estabelece no propósito que persegue: nenhum temor, nenhuma hesitação. Transcrevo em baixo na íntegra o poema que ilustra perfeitamente a ideia que pretendo veicular:


«As pás do remorso não porfiam

quando todo o gesto

rasura a compaixão.


É essa a minha arte: fixar sobre a paisagem

o despojamento

que o horror persegue.


E que nenhum indulto ofusque o meu triunfo:

eu a encimar o luto

ponho grinaldas.»


O campo de batalha está deserto, regado de sangue e povoado de cadáveres e corpos desmembrados. Um homem novo, ou não será já homem?, deambula pelo lugar. Aquela é a paisagem da sua formação, ali escreverá, se escrever, o seu bildungsroman. Estamos no tempo depois de Depois de Cristo, no qual se dissolveu a dissociação entre o bem e o mal. Não são novos valores que se criam – estamos longe da transmutação de valores nietzscheana (embora estejamos mais longe ainda de tudo o resto) –, nem valores antigos que se rebatem: é, como vimos, a ausência de todos os valores, mesmo do primeiro de todos, que é a própria ideia de valor. Axiologia exangue. É aqui que tenho de me separar do autor do estudo sobre Jorge Melícias. Oliveira Gomes parece remeter a crueldade de Melícias para o plano da transgressão, movimento que, ainda segundo Bataille, resgataria a distância entre o terreno e o interditado e o inscreveria na ordem do sagrado. Diz ele: “É assim, neste pacto quase de colecionador de imagens reiteradas, onde a probabilidade de compaixão está previamente rasurada, como um homem possuído (…) [por] «um amor profundo pela impiedade», que Melícias cunha uma dimensão sagrada para aquilo que, usualmente, é posto no reino do profano”[6]. Mas se assim fosse Melícias teria de mostrar temer[7] o interdito, isto é, senti-lo como resistência a ser ultrapassada. Parece-me contudo que o que temos essencialmente é um horror despojado e desinteressado (o verso «uma amor profundo pela impiedade» deve pois ser interpretado não como a assunção de uma adesão, como o amor por uma pessoa ou por uma ideologia, mas como a mera rendição a uma tendência natural, e por isso, sem valoração implícita. Como se ama uma mãe. Outro dos poemas mais recentes, do conjunto agma que abre disrupção, postula o desespero como «forma de beatitude»:


«Vi os campos inçados pela improbidade.


Os justos como plainas alucinadas

sobre a incontrição

das esquírolas.



E o desespero

era uma forma de beatitude.»


Esta beatitude não se projecta como o estado de graça cristão. Não é a beatitude dos absolvidos, mas a dos inocentes, dos que nunca chegaram a pecar: noção que Melícias parece não contemplar nos seus poemas, pelo menos nos mais recentes, que são os que mais agudamente reflectem a maturação quer oficinal, quer conceptual de Jorge Melícias. Não obstante, já a reunião de poemas anterior a agma apontava, logo pelo título, para este paradigma: a longa blasfémia pode ser lido como a implantação permanente da blasfémia, expediente que acaba por atenuar e eliminar a sua compleição transgressora.

Uma poesia assim não se expõe para usufruto. Não celebra nem representa: apresenta-se. Esta é a carne nua apodrecendo; o sangue que corre dentro é mera mecânica, e quando verte uma gota, nenhum alimento desce para a terra estéril. Diz muito acertadamente Oliveira Gomes: “Não podemos mais celebrar o fruto, apenas o limite, a própria interdição do belo, como conceito tradicional, bem como de qualquer forma de superioridade, qualquer elemento que, sentimentalmente, se ponha como soberba, elevação ou acesso”[8]. Procedeu-se à rasura dos afectos e o que agora se ergue é um nervo que se expande e contrai em múltiplas disrupções. Nada mais. Desta forma, a poesia que se apresenta não será mais um poesia lírica, no sentido da captação da subjectividade de um eu autoral, dado que o sujeito poético, na sua concepção tradicional, está praticamente ausente da enunciação, e acaba por ser sempre o leitor que ao ler se reflecte num caco aguçado de espelho, mesmo que a imagem refractada não seja a de si próprio mas a de um seu monstro, ainda que seja monstro apenas aos seus olhos, nunca dentro da dinâmica do poema.

Resta perguntar-nos de que forma é que esta poesia nos pode ainda comover. Inscrita num tempo que considerei pós-histórico, ela afecta-nos na medida em que esse tempo, o tempo da nossa morte, é ainda o nosso tempo, isto é, o tempo dos homens, único que existe. Assim ele assusta-nos pelo que nos dá a ver e comove-nos por nos dar a ver o que, enquanto homens, nos assusta:


«Ergo-me da refrega


e tomo posse sobre o excídio.


Eu vi a minha mão em tudo o

que se demarca da piedade. E comovi-me.»


Se não gostamos do que vemos, não podemos deixar de gostar da oportunidade que nos é dada de ver. Será esta, ou não?, a nossa última dignidade?


REFERÊNCIAS


Bataille, George, O erotismo (3ª ed.), Lisboa, Antígona, 1988.

Gomes, Daniel de Oliveira, A poesia do excesso: Rumo às vísceras de Jorge Melícias, Ponta Grossa, PR, TODAPALAVRA, 2011.



[1] Gomes: 25.

[2] Gomes: 19.

[3]Gomes: 21.

[4]“Gostava que cada poema fosse uma dádiva de pura violência. Mas uma violência velada pela esquadria, como se só angularmente fosse possível escorçar o horror. Uma carnificina sem sangue, uma ablação tão exacta que nada extravasasse.” Jorge Melícias, apud Gomes: 34.

[5]Todas as citações de poemas de Jorge Melícias foram retiradas, por comodismo, da selecção de poemas do livro de Oliveira Gomes.

[6] Gomes: 29.

[7] “É a sensibilidade religiosa que une sempre estreitamente o desejo e o terror, o prazer intenso e a angústia” cf. Bataille: 32.

[8] Gomes: 47.


1 comentário:

errol garner disse...

João Moita, muito prazer, estimado poeta, eu gostaria de discordar em alguns breves e pontuais momentos de interpretação de passagens extraídas de meu livro. Inegavelmente que seu ensaio dialoga comigo, demonstrando coerente compreensão, sobretudo literária, das principais estratégias de leitura que usei para imaginar um rumo às vísceras do poeta. Ainda no Brasil, confesso, não tive nenhum retorno crítico, quiçá por essa tal tradição tão relutante de que falou, acerca do hoje poético português. Nisso fica um grande “valeu!”, aliás, pelos pontos em que ressalta o valor teórico-filosófico do livro; e, aqui, igualmente, gostaria de desdobrar a chance de me redimir de alguns tons quase severos, os mais brilhantes, de seu artigo. Lá vou eu, basicamente, pondere que o risco maior ao escrever sobre o poeta é justamente o deste nada-a-se-dizer sobre aquilo que simplesmente se apresenta (diz você), e, neste caso, as vísceras estão na direção buscada da superfície. Escavar Melícias, eis o impossível, eis, assim, o gesto paradoxal em si mesmo que enfrentei, como “nado para fora”. Ou seja, gostaria que entendesse sempre o perigo essencial em descontextualizarmos algumas palavras de um projeto maior, e com ele, outro perigo, o de simplesmente recairmos em certos conceitos, quando no fim falamos da mesma coisa, chegamos nos mesmos nós filosóficos, apenas em lados diferentes da corda onde se enforcam certas referências francesas. Acredito contigo, obviamente, que a velha “novidade” em Melícias não está na falência do moderno. O livro diz isso sempre. Entretanto, ainda há rastros de um discurso maldito sim; é o que eu dizia sobre uma outra poesia que não aparece como corpus, quando o que temos ali são as excrescências de um abandono. Se tivéssemos abandono puro, teríamos ausência (como quer afirmar). Há transgressão no horror no sentido em que aquilo que a provoca demanda justamente da atração do horror. Fantasma do moderno revelado pelos restos que lemos. Melícias relê Whitman? Poe? Maiakóviski? Respondo que sim. Mas, em outro estranho espelhamento. Há subversividade? Difícil. Ainda sim, já não. “Duplicidade moral”? Não. “Ambiguidade ética”? Sim. Sobrevive um certo Nietzsche ali, quem sabe, sim (como potência) e não (como ruptura). Acho que enfim sobre Melícias lemos o mesmo, mas, de repente, lemos Bataille diferentemente. Quando leio Bataille lado a lado com alguns versos, diz que eu estaria a “remeter a crueldade de Melícias para o plano da transgressão”, e aqui discordo, no sentido mais categórico do termo “transgressão”. Bataille que associei ali tampouco está no reflexo com o espelho e sim no paradoxo do choque que é encontro, horror que é amor, veja o último capítulo do meu livro. A transgressão é pós-utópica, neste caso. Espero ter esclarecido (e,sobretudo, complicado) um pouco mais. Risos. Mais uma vez, parabéns pelo artigo, de fina e brilhante interlocução. Obrigado. Daniel de Oliveira Gomes. setepratas@hotmail.com