quarta-feira, 13 de julho de 2011

Édipo ou da poesia cega

Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes,
e ressuscitar sempre,
com uma acrescentada ciência estéril.
Herberto Helder

Ao vencer a Esfinge, Édipo despoleta inadvertidamente a cadeia de acontecimentos que o levariam da glória recém-conquistada, e afinal apenas aparente, à cegueira e ao exílio a que se vota: em Édipo a cegueira vê. O triunfo do homem face às forças ocultas da natureza representadas pela esfinge está na origem dos acontecimentos catastróficos que se lhe seguem. Domada a natureza, ela riposta com a aniquilação do indivíduo que a submeteu. Estas duas forças, a da razão e a da natureza, a dos homens e a dos oráculos, a da luz e a das trevas, estão em combate perpétuo na tragédia de Sófocles. De um lado, o livre-arbítrio, a autonomia individual, o desejo de ampliar o diâmetro da luminosidade da razão; do outro, a imersão no todo, a necessidade cega, o trans-individual, o ambíguo e o indefinido. A Édipo um oráculo o condena: matará o pai, casará com a mãe. Porque não se deixa entregar ao destino, porque pretende ainda afirmar a sua liberdade essencial, porque julga poder criar o seu fado dentro dos limites da sua finitude, Édipo foge daqueles que julgava serem os seus progenitores. É então que Édipo inicia o combate ao destino que lhe estava reservado e que, sem saber, o conduzirá de volta aos seus fados: a natureza afirma sempre as suas primícias, e o que é seu, ao seu seio retorna.
Que crédito tem um oráculo? Fugindo-lhe, Édipo fez cumprir o oráculo. E nada garante que, tendo ficado, o oráculo se cumprisse. Por outro lado, o oráculo saberia o que despoletaria, fazendo-se cumprir porque se deu a conhecer. Em todo o caso, Édipo não descobriria que o oráculo se tinha cumprido se não tivesse decidido ir até ao fim na sua inquirição, ousadia que pagou caro. Em nenhum momento Édipo cedeu: a sua vontade era inquebrantável: o véu do real teria de cair para que Édipo conhecesse a realidade. Aceitaria todas as consequências, desde que pudesse saber. Quem é Édipo? Édipo quis ser quem se tornasse por suas próprias obras, escapando ao destino que os deuses lhe reservavam: é este um existencialismo avant la lettre, Édipo queria que a existência precedesse a essência. No entanto, em Sófocles, a força inexorável do oráculo está sempre presente num segundo plano, encaminhando os acontecimentos para o fim que predestinou. Está pois em causa a autonomia da acção humana. Será que verdadeiramente podemos conhecer alguma coisa, isto é, forçar a luminosidade que trazemos a um objecto obscurecido, ou estaremos condenados a viver iludidos pelo véu de realidade que os deuses nos tecem, vendo só o que querem que vejamos? O destino ditado pelos deuses cruza-se aqui com a faculdade do ser humano para responder a esse destino. Um oráculo tem pois o crédito que lhe dermos, pois que os deuses não obrigam, eles apenas predizem. E assim a liberdade que nos concedem, em vez de libertação, é a nossa condenação. A tragédia de Édipo é a tragédia do conhecimento, que para os humanos é sempre parcial e equívoco, fundado na contingência da nossa mortalidade. Édipo equivoca-se constantemente porque tem um conhecimento parcial dos factos. Da mesma forma, o homem só pode adquirir um conhecimento parcial do mundo e com esse conhecimento agir sobre ele. E assim o nosso erro é tantas vezes um erro trágico. Porque nós somos a luz e a treva. E quando jogamos com a nossa luz, deslocamos também a nossa treva. E assim Nietzsche pôde dizer que “Quem, pela sua ciência precipitar a natureza no abismo do não ser, há-de também experimentar os efeitos dessa desintegração - «a lança da sabedoria volta-se contra o sábio: a sabedoria é um crime contra a natureza».” (Origem da tragédia). E assim o nosso amor pela natureza, a nossa boa consciência ecológica, é a nossa maneira de sermos ignorantes. A poesia, o amor de recordar, não é deste mundo.

2 comentários:

Olinda P. Gil © disse...

No Rei Édipo fica a dualidade entre o destino e o livre arbítrio: porque se Édito tivesse feito outra escolha não se teria cumprido o oráculo. E talvez isso também servisse para o seu pai.

Beatriz disse...

Aqui caída por acaso, obrigado pela partilha do texto, que apreciei logo pela manhã.