quinta-feira, 9 de junho de 2011

Salomé: o Eros como tensão entre o Sagrado e o Profano



só Deus fica longe e acima da sua vontade:
então ele ama-o com o seu alto ódio
por esta inacessibilidade.

Rainer Maria Rilke


No capítulo Elogio da profanação, do livro Profanações, Agamben define os conceitos de sagrado e profano segundo o direito romano. Para os romanos, o sagrado era a qualidade daquilo que pertencia aos deuses, retirado por isso do comércio dos homens. Nenhum objecto sagrado podia entrar na esfera da posse e das transacções entre os seres humanos. Um objecto consagrado é um objecto indisponível. Por oposição, a profanação visava restituir aos homens o que antes era do domínio dos deuses, e assim dar livre curso na terra a um objecto que por definição se lhe exime. Consagrar significa oferecer aos deuses, enquanto profanar significa roubar aos deuses. Na passagem de um estado a outro (do consagrado ao profanado e do profanado ao consagrado), perde o objecto a qualidade que o definia: se perseguimos um objecto porque ele é sagrado, e o alcançamos, deixa de ser sagrado, e então deixa de nos valer; se o queremos consagrar porque nos agrada, perdemos o objecto porque deixa de nos poder servir. Qualquer dos desejos (de consagração ou profanação) esbarra sempre com a impossibilidade de se concretizar, porquanto a sua concretização representaria a anulação do objecto do desejo e, logo, do desejo. Um desejo desta ordem sobrevive se irrealizado, ou, na melhor das hipóteses, vive apenas do momento de se anular, isto é, no momento em que a tensão entre a impossibilidade de se concretizar e a necessidade de se realizar está no seu paroxismo. O erotismo encontra-se pois na intersecção destas duas forças opostas: erotismo é tensão. É por isso que Vergílio Ferreira pode dizer: “todo o amor é a irrealização dele. Se se realiza, já não serve.”[1] E é por isso também que Sthendal afirma que “o pudor empresta ao amor o recurso à imaginação, dando-lhe vida”[2], isto é, o amor, ou o eros, é o trabalho da imaginação para suplantar o interdito que reconhece no objecto desejado. O prazer é esse trabalho, esse rodeio, esse ir desvelando.
Salomé assume, em Oscar Wilde, um papel duplo no que toca ao jogo do desvelamento. Por um lado ela representa o feminino perverso, que Paula Morão define como “mitificado na exibição do corpo, na sedução castradora ou mesmo mortífera para os homens, que, uma vez caídos no seu domínio, não têm salvação.”
[3] Desta perspectiva ela representa o objecto consagrado, pura fonte de desejo e sedução. O sagrado está apartado, distanciado, e por isso fascina. Este fascínio perverso está bem patente no drama de Wilde; Salomé é-nos apresentada com uma aura de sedução que atinge todos os que a vêem. Por isso é regra tácita que não se deve olhar para ela a fim de que não se caia sob o seu domínio feroz: o soldado não pára de avisar o Jovem Sírio para que não olhe para ela, o mesmo faz Herodias, sua mãe, com respeito a Herodes. Salomé apresenta-se-nos assim como uma divindade pérfida, mas irredutível, cuja sagração não só a retira do âmbito dos homens, como lhe confere o poder especial de destruir quem caia nas suas teias. É que Salomé não é profanável, e o efeito desta impossibilidade é tanto mais devastador quanto o desejo não pode morrer. Salomé sabe-se mortífera, conquanto não se entregue. Salomé, enquanto efígie do perverso feminino, representa o poder que sabe que a tensão erótica só se desfaz de duas formas: ou realizando-se (e já vimos que realizando-se desfaz-se), ou não se realizando, e então é o fim porque não parando de se agudizar, o desejo acaba por aniquilar o indivíduo desejante. Eis o poder do amor não correspondido. Eis o poder de Salomé que só pode ser vencido de uma forma –
O outro papel que coube a Salomé no drama de Oscar Wilde opõe-se, na proporção inversa, a este primeiro. De domadora, Salomé passa a dominada. Para conseguir este efeito numa personagem que encarna de forma tão decisiva a erotização do objecto consagrado que desperta fascínio e terror, Wilde teve de recorrer a uma personagem que literalmente encarnasse o sagrado e assim se colocasse numa posição ainda mais inalcançável, ao ponto de fascinar o Eros. Iokanaan é o profeta, o asceta a quem Deus fala directamente. Este contacto com Deus coloca-o na ordem dos objectos sagrados: pertencendo a Deus, escapa aos homens. É por isso que Herodes o teme. E é por isso também que Salomé o ama. A caçadora virou presa, mas Iokanaan, que está noutro plano, nem é caçador nem presa, está fora dessa economia. Para o conquistar, Salomé usa o seu poder (“Ah, porque não olhaste para mim Iokanaan?”
[4]), mas este esbarra sempre na indiferença do profeta. Salomé está vencida.
O encontro de Édipo com a Esfinge iniciou o lance trágico. Da mesma forma que em Rei Édipo, Édipo vence a esfinge porque não a teme, mas essa vitória custa-lhe a vida, também aqui a vitória de Iokanaan sobre Salomé lhe vai custar a vida. Não é impunemente que se joga com forças que se escapam ao nosso controlo. Não é impunemente que se ludibria Eros, companheiro inseparável de Thanatos. Eros vencido serve a sua vingança. Para tal alia-se, seduzindo-os, aos poderes seculares. Estendendo assim o seu poder à força das armas, Eros está finalmente em posição de vencer o Divino que Iokanaan representa. Tão-só essa vitória é falsa: no lugar do desejado está agora uma cabeça inerte, o amado divino evolou-se. Eros revela-se agora o monstruoso que preside às nossas pulsões mais subterrâneas. Diante de espectáculo tão mórbido, Herodes manda matar Salomé. O representante das forças seculares percebe enfim que o interdito assim deve permanecer sob pena da desordem que a libertação das pulsões subterrâneas e naturais no homem provocaria. É Bataille quem vê nas interdições a oposição que o ser humano opõe ao esbanjamento de energia vital frente à natureza, evitando que o homem se dissipe numa orgia da destruição, que seria natural no homem. As interdições ao homicídio, exumação e outras práticas relacionados com a morte, e as interdições às práticas sexuais (caso do incesto) identificam-se nessa tendência natural do homem para a dessacralização, para o sacrilégio como livre circulação das forças instintivas. Salomé pagou o preço da ousadia da imersão na natureza, duplamente perdida entre o aniquilamento frente ao abismo da natureza e as forças seculares que visam estrangular esse abismo.

[1] Ferreira, p. 26.
[2] Sthendal, p. 93.
[3] Morão, p. 13.
[4] Wilde, p. 88.


REFERÊNCIAS


Agamben, Giorgio, Profanações, Lisboa, Cotovia, 2006.
Bataille, George, O erotismo (3ª ed.), Lisboa, Antíogona, 1988.
Ferreira, Vergílio, Escrever (ed. Helder Godinho), Lisboa, Bertrand, 2001.
Morão, Paula, Salomé e outros mitos: o feminino perverso em poetas portugueses entre o fim-de-século e Orpheu, Lisboa, Edições Cosmos, 2001.
Stendhal, Do amor, Lisboa, Pergaminho, 1999.
Wilde, Oscar, Salomé, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011.

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