quinta-feira, 9 de junho de 2011

Netherland: a razia dos valores




Netherland é, segundo o autor, um romance pós-americano. Joseph O’Neill fundamenta esta afirmação na constatação, para si óbvia, de que a globalização retirou aos Estados Unidos o seu estatuto de nação-excepção destinada a garantir na terra a plenitude do céu: “I increansingly think that the integrity of the United States, the idea of the US as this special, sealed-off zone of opportunity and freedom, is anachronistic. Globalization has undermined the exclusiveness of the American experience.”[1] O American Dream teria deixado de se confinar aos limites do território estado-unidense ou teria perecido ou hibernado, tendo deixado no seu lugar um vazio de valores que condena os indivíduos a um real insubstancial. Acontece que o autor parece partir do princípio de que a globalização afecta os Estados Unidos da mesma forma que o resto do mundo, e não que a globalização é uma agência ao serviço desse país, cuja inextricável rede económica se estende pelo mundo na esperança de assegurar o seu status quo, fazendo equivaler e incorporando na sua lógica de produção-consumo as diversas escalas de valores. Esta é, pelo menos, a convicção do filósofo francês Jean Baudrillard quando afirma que “the mission of the West (…) is to subject the many different cultures, by any means available, to the unforgiving law of equivalence. A culture that has lost its values can only take its revenge on the values of others.”[2] Ao abarcar todos os valores, mesmo os valores singulares da cada comunidade, a globalização anula a aspiração universalista de cada valor: um valor é exclusivista por definição. Um valor assim despojado da sua valorização é, digamos assim, um valor neutro. Seguindo Baudrillard, não podemos dizer que a globalização tenha minado a experiência americana, mas antes que a globalização é a expansão dessa experiência. O Sonho Americano, isto é, a possibilidade de realizar todas as possibilidades, é o princípio ideológico subjacente à globalização (ainda que por baixo circulem desejos subterrâneos de manter a ordem que dita que os mais ricos se mantenham mais ricos: os privilegiados querem manter os seus privilégios, regra elementar da lei da inércia). A alteridade sentida como ameaça à perseverança do Sonho Americano levou à necessidade da anulação, pela integração, da alteridade no âmbito desse Sonho Americano. A globalização é, se para ela olharmos segundo esta perspectiva, ainda que redutora, a imposição ao mundo da liberdade e da democracia esvaziada de valores, que permite que todos os valores subsistam, desde que desvalorizados, única forma de coabitarem. Para tal basta submeter toda a ordem à lógica de mercado, na qual todo o valor se torna transaccionável. A globalização visa, acima de tudo, amestrar valores. E a razão pela qual os Estados Unidos não são por ela afectados da mesma forma que o resto do mundo é que os seus valores já são amestrados. O terrorismo seria então a resposta do mundo, do restante mundo, à globalização: “it is the world, the globe itself which resists globalization”[3].
Seja como for, Netherland é de facto um romance escrito no rescaldo do fracasso do American Dream. A esperança inquebrantável deu lugar ao desalento desesperado. O sentimento generalizado que se vive nesta Nova Iorque pós-11 de Setembro é o sentimento de cansaço: “Tiredness: if there was a constant symptom of the disease in our lives at the time it was tiredness”
[4]. Parece ser esta uma qualidade de cansaço que deriva não de um exercício extremada, mas da ausência de exercício, a espécie de cansaço que nos toma quando a vontade nos abandona. Não se trata de esgotamento, mas da imobilidade que resulta da ausência de respostas para as perguntas: o quê? e para quê? O conforto e o privilégio só acentuam a sensação de desprendimento e inutilidade. Podemos experimentar todas as facilidades que a sociedade de consumo oferece, mas nada permanece depois de terminada a experiência. Em torno de todas essas experiências, de todos esses simulacros de realidade, incrusta-se o vazio. Conquistadas todas as liberdades, todas as aspirações, todos os desejos, ficou por conquistar a Liberdade, a Aspiração e o Desejo. Para que o desejo se perpetue é necessário que não se realize ou que sofra mutações, para que se possa continuar a desejar. Um desejo satisfeito não é mais um desejo; é talvez um momento de satisfação e o entorpecimento depois. Uma sociedade na qual todos os desejos se podem realizar é uma sociedade saturada. Nenhuma experiência se eleva a valor; no máximo pode aspirar a simulacro de valor. É o que acontece com o cricket, desporto sem expressão nos Estados Unidos, jogado por minorias negligenciadas de imigrantes. No livro a personagem de Chuck encarna a figura do sonhador ainda crente no American Dream, tal como este foi difundido aquando da fundação deste país. Esta personagem anacrónica sonha tornar este desporto de excluídos no desporto nacional dos americanos, algo só possível de concretizar num país como os Estados Unidos da América. O grande trunfo a favor deste desporto é, segundo Chuck, não só que tenha sido praticado no território americano desde a sua fundação, mas que o cricket seja uma lição de civilidade, isto é, o simulacro de um valor: não que o cricket seja a Civilidade, mas que no cricket se pode fazer uma ideia do que seja a civilidade. Enquanto jogo, quer dizer, simulacro, o cricket pode afirmar um valor. Mas terminado o jogo, que valor persiste? Chuck está iludido: o princípio do American Dream é que todos os sonhos se podem realizar, e isso só é possível se nenhuma dessas realizações se destacar. Eleger o cricket seria negligenciar as outras modalidades. O American Dream funciona a um outro nível: o país permite que se jogue cricket, garante essa liberdade, vai até a esse ponto a sua indulgência, mas não repara no jogo, não os vê. Se a subjectividade é formada em oposição a uma alteridade, negar o olhar do outro sobre o próprio é negar a sua subjectividade. Afirma-se pois um problema de representação e identificação. Quem somos nós, que não somos nada para ninguém? A uma escala maior vemos que esta invisibilidade é comum a todos os habitantes da cidade fantasma que é esta Nova Iorque de Joseph O’Neill. Este desenraizamento dos habitantes, esta desubstancialização da vida ("Life itself had become disembodied. My family, the spine of my days, had crumbled. I was lost in invertebrate time”[5]), opõe-se de certo modo à vida londrina, às suas regularidades e antiguidade. Em Londres todos se conhecem dentro do mesmo meio, os interesses são comuns, existe uma noção, ainda que ténue, de comunidade: há toda uma história de séculos a legitimar os laços que substancializam os indivíduos aos olhos uns dos outros. A Nova Iorque pós-11 de Setembro conhece apenas a insegurança e a desconfiança, duas formas de incerteza: nada é fixo e, como tal, reconhecível.
Em Hans, essa impossibilidade de se fixar manifesta-se desde logo ao nível da definição da sua identidade nacional: nascido na Holanda no seio de uma família desestruturada, criado na Inglaterra industrializada, tendo emigrado para os Estados Unidos com sua mulher e filho à procura de oportunidades de trabalho, Hans é bem o filho da globalização. Duplamente desenraizado no território americano (não se pode identificar com os naturais bem sucedidos, com os quais partilha a posição profissional, nem com as minorias oriundas de países expurgados, com os quais partilha o amor pelo cricket, dada a sua condição europeia), Hans encarna os conflitos que se colocam ao mundo pós-moderno da falência dos valores: tendo tudo, não se tem verdadeiramente nada, dado que tudo o que se tem é despojado de valor. É por isso que Hans pode falar com propriedade da “sadness produced when the mirroring world no longer offers a surface in which one may recognize one’s true likeness”
[6]. Esta ideia de insubstancialidade do real é várias vezes veiculada ao longo do romance: “when I peered out into the flurry and saw no sign of the Empire State Building, I was assaulted by the notion, arriving in the form of a terrifying stroke of consciousness, that substance – everything of so-called concreteness – was indistinct from its unnameable opposite”[7].
Hans vai perdendo contacto com todas as coordenadas que orientavam a sua vida: a mulher abandona-o e parte com o filho para Londres, lá encontra outro homem, a cidade desvanece-se, o mundo tal como o conhecia desmorona-se, os sonhos desfazem-se e dão lugar à apatia: “It was as if, in my inability to produce a movement in my life, I had fallen victim to the paralysis that confounds actors in dreams as they vainly try to run or talk or make love”
[8].
Netherland, terra baixa. A óbvia referência ao ground zero dos ataques do 11 de Setembro tem no romance as mesmas ressonâncias simbólicas. Esta terra rasa pode significar a oportunidade de reconstruir ou simplesmente a constatação desesperada de que a elevação está condenada à destruição. A ambiguidade não é desfeita no romance. A dada altura Chuck é encontrado morto em circunstâncias imprecisas. Tudo leva a crer que foi assassinado. Hans não estranha, é aliás o desfecho mais óbvio para o seu amigo. Chuck, representava a singularidade num mundo globalizado (para O’Neill essa singularidade manifestava-se ao nível do agora impossível American Dream, posição que não podemos aceitar, se seguirmos Baudrillard, já que, como vimos, o mundo globalizado é consequência do American Dream). A falência de valores de que a globalização é o arauto impossibilidade que as pessoas se fixem numa identidade trans-individual, relegando-as para um reduto onde podem ser livres, mas nunca inoportunas. No momento em que poderíamos afirmar-nos no mundo, conquistadas que estariam todas as liberdades, vemo-nos isolados na nossa subjectividade inconsequente. Àqueles que como Chuck pretendem impor-se na sua singularidade invisível sobram duas vias: ou a excentricidade inofensiva, e por isso tolerada, mesmo que acarretando os seus custos, ou o terrorismo. Chuck preferiu a primeira opção. Outros escolheram a segunda.

REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, Jean. 2002. The Spirit of Terrorism. London: Verso.
O'NEILL, Joseph. 2008. Netherland. New York: Harper Perennial.


[1] p. 6 of “Read exclusive”
[2] Baudrillard, p. 97-8
[3] Baudrillard, p. 10
[4] p. 27
[5] p. 37
[6] p. 151
[7] p. 125
[8] p. 130

1 comentário:

Meca disse...

Gostei João! Comentário digno de um escritor. E mais, veio mesmo a calhar para o meu exame de Temas da Civilização Ocidental:-)