quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Considerações avulsas acerca da poesia de Saint-John Perse, com incidência em 'Eloges'


Saint-John Perse raramente falou do seu mister poético. O pouco que sabemos das suas concepções teóricas acerca da poesia podemos encontrá-lo nalgumas cartas dirigidas a amigos e no discurso de aceitação do Prémio Nobel. Este documento torna-se assim um elemento fundamental no estudo que vamos desenvolver.
Nesse documento o poeta salienta de forma categórica o carácter relativista da ciência actual. Quando a verdade factual passa a ser uma questão de perspectiva, a imaginação adquire uma importância que até aqui lhe era concedida apenas pela criação artística. A razão cartesiana é agora posta em causa e sobre ela opera a intuição. A poesia vem assim em auxílio da ciência para fundamentar uma verdade: a verdade é tudo o que criar uma “equivalence between modes of sensibility and intellect” (todos as citações em inglês sem outra referência reportam-se ao
discurso do Nobel), a verdade é agora da ordem do mistério, da obscuridade que se revela a si própria. Estamos longe da fé na razão como veículo para Deus, estamos longe do homem do Iluminismo que legitimou com a crença arrogante nas suas capacidades as atrocidades do colonialismo. O pensamento poético de Saint-John Perse não é devedor de Descartes: “through the grace of a language into which the very rhythm of Being has been translated, the poet invests himself with a surreality that cannot be that of science” . A poesia denota o ritmo do Ser, mas esse ritmo não é o de uma marcha militar, a cadência não é a da progressão indefinida: o ritmo do Ser é um poliritmo, a sua lógica a do contratempo que instiga dinâmicas. A função do poeta, diz-nos o nosso autor, é a exploração do mistério do homem, fazer cintilar a sua obscuridade, tirar “à nos chantiers (…) d’immortelles carénes!” (1992:28).
A poesia, na visão que dela tem Saint-John Perse, “clasps both past and future in the present, the human with the superhuman planetary space with universal space”, isto é, também ela evoca o tempo mítico, no qual nem o passado nem o futuro assestam a sua referencialidade, retirando-lhe por isso duração. “The obscurity for which it is reproached pertains not to its own nature, which is to illuminate, but to the night which it explores, the night of the soul and the mystery in which human existence is shrouded”, isto é, a poesia não traz à luz a verdade unívoca de que derivamos, mas mergulha fundo na obscuridade rizomática em que o nosso caos se expande, arrancando inadvertidamente às nossas profundezas pedaços de luz que repetem outros pedaços de luz no refluxo da nossa existência: “- Sinon l’enfance, qu’y avait-il alors qu’il n’y a plus? / (…) / Et tout n’était que règnes et confins de lueurs. Et l’ombre et la lumière alors étaient plus prés d’être une même chose…” (2002:31).
Em Éloges , os poemas-fragmento falham a possibilidade de uma organização diacrónica, escapando às premissas da narratividade tradicional cujo nexo se sustenta na obediência a uma linha contínua de disposição, seja ela temporal ou genealógica. Os fragmentos que constituem os poemas deste livro, plasmados num tempo e espaço fora do tempo e do espaço, cortam os liames do tempo histórico e inauguram o tempo mítico. O que se evidencia nesta poesia não são as casas que os homens constroem, mas os santuários que os deuses habitam em forma de linguagem para ensinar aos homens a fé que a razão construtora ignora: “La terre / alors souhaita d’être plus sourde, et le ciel plus profond, où dês arbres trop grands, las d’un obscur dessein, nouaient un pacte inextricable…” (2002:27). Os adjectivos presentes neste trecho (secreta, profundo, obscuro, inextricável) apontam para a opacidade das catedrais, para o fundo da terra onde, inexoráveis, os rizomas se expandem e irradiam, urdindo nas suas malhas a pureza mestiça. A pureza é aqui entendida como a inocência que preside aos processos e não como uma exclusividade da brancura imaculada com transmissão vertical de pai para filho, criador para criação. A inocência que preside aos processos é prévia à introdução no mundo dessa eugenia hereditária que circunscreve de forma asfixiante as possibilidades de actualização das oportunidades, trata-se da pureza da relação sem leis que a organizem, a pureza da transgressão. Desta forma, “opaqueness is a positive value to be opposed to any pseudohumanist attempt to reduce us to the scale of some universal model” (1989:162), tal como reclama Edouard Glissant no seu Discurso Caribenho.
No ensaio que António Ramos Rosa dedica à genealogia de certa tendência da poesia moderna intitulado “De Vitor Hugo a Saint-John Perse”, o poeta português releva bem a tendência da poesia moderna para “pulverizar um mundo em que a unidade e a síntese se procuram num grau de iluminação e obscuridade cada vez mais longe de esquemas e quadros da razão [cartesiana] e da consciência social” (1986:147). Em Saint-John Perse essa tendência é a única que pode garantir a “permanência e a unidade do Ser”: “For him [o poeta] the entire world of things is governed by a single law of harmony”, e essa única lei de harmonia é, se quisermos, a lei da imaginação, faculdade humana que não pode ser corrompida porque nela as estruturas de poder são estilhaçadas pela inconstância dos seus processos, nela todas as representações que o homem se impõe na esfera social são deturpadas, amalgamadas para criar novas possibilidades no tempo em que nenhuma se concretizou e, por isso, todas se podem concretizar. É o tempo mítico das ilhas, ressumando à garganta de um Deus: “Vraiment j’habite le gorge d’un dieu” (2002:50). No tumulto do mundo contemporâneo, é na força poética das ilhas das Caraíbas tal como as pintou Saint-John Perse, sua paisagem e sua teia humana, que vive a força subterrânea que construirá novos futuros para um presente murado pelas ruínas das catástrofes que desencadeou, sejam elas a guerra ou o esgotamento dos recursos naturais a nível planetário.
Na sequência de poemas “Images à Crusué” do primeiro livro de Saint-John Perse, Éloges, existe uma forte oposição entre estes dois tempos, o mítico sem duração e o tempo linear das resoluções dos homens que atingem resultados desastrosos. Nestes poemas é-nos dado a experimentar a angústia de um homem arrancado à sua ilha paradisíaca – onde tinha encontrado a simbiose entre os ritmos da vida e os ritmos da natureza –, e transplantado na terra dos homens onde a civilização obliterou todos os elos de ligação do ser humano às forças cósmicas que o moldaram: “tu pleurais, j’imagine, quand des tours de l’Abbaye, comme un flux, s’épanchait le sanglot de clothes sur la Ville” (2002:13). Saint-John Perse, então com 17 anos, inspira-se no final do romance de Defoe, altura em que o herói é resgatado por um navio à ilha em que naufragara e reposto à civilização. É então, diz-nos Roger Little, que Saint-John Perse “shifts the center of attention from Crusoe’s activities and adventures on the island to his recollection of its splendors and recognition by contrast of the meanness and squalor of city life” (1973:12). Este é o velho tema do exílio, mas com sinal contrário. O sujeito poético, Robinson Crusué, é um exilado entre os homens suspirando pela solidão na ilha onde podia construir as suas próprias referencialidades e significações: “C’est le miel fauve des fourmis dans les galeries de l’arbre mort” (2002:14).
Em Twilight, Dereck Walcott escreveu que “For every poet it is always morning in the world. History a forgotten, insomniac night” (apud. 2007:83). Este contraste entre o tempo histórico e o tempo mítico é o que está em jogo em “Images à Crusué”. A cidade, ao contrário da ilha, é apresentada em imagens que reflectem a corrupção a que foi votada: “La ville par le fleuve coule à la mer comme un abcés…” (2002:13). Nela se eleva o edema para onde as aparas da história são lançadas apodrecendo. Quando lancetado, o edema deita o seu pus e os seus miasmas espalham a peste pelo mundo. Na cidade, não há distinção entre dia e noite, ambos se confundem no “fumée des hommes” que se eleva da sua actividade corruptiva. Esta confusão tem o seu paralelo nas ilhas na indistinção das estações do ano: “The one and only season, for instance, this rhythmic plain-song, which denies us the pattern of seasonal change, that Western cultures benefict from but which allows us to live not only another rhythm but another notion of time” (1989:161). Mas ao contrário da cidade, em que a indistinção resultava da actividade do homem, expediente que abre o tempo histórico, na ilha a indinstinção resulta da natural vivência do tempo mítico, que, como vimos, não tem duração e, logo, distinção. O tempo mítico é também o da comunhão com a paisagem. Segundo Valérie Loichot, Dereck Walcott estava bem avisado desta característica da poesia de Perse: “Walcott even goes so far as to state that the Caribbean palm trees ‘recite’ Saint-John Perse, pushing the symbiosis between writing and natural space to an extreme” (2007:83). Assim, vemos que Sexta-Feira, o nativo amigo de Crusué, se liga à terra como se fosse uma extensão desta: “Vendredi! que la feuille était verte, et ton ombre nouvelle, les mains si longues vers la terre (…)” (2002:17). Enquanto na ilha as mãos se inclinam na direcção da terra, na cidade nada germina, tudo está envolto num véu de sujidade e infertilidade:

LA GRAINE

Dans un pot tu l’as enfouie, la graine pourpre demeurée à ton habit de chèvre.
Elle n’a point germé. (2002:22)


É então que o poeta, assumindo a voz de Robinson Crusué, solta o seu lamento invertendo as premissas do sentimento de nostalgia: “…Ne me laisserez-vous que cette confusion du soir – après que vous m’ayez, un si long jour, nourri du sel de votre solitude” (2002:23). Ao contrário da Odisseia, este não é um poema da dor do nostos, a menos que tomemos nostos não pela comunidade dos homens em forma de família e lar, mas como atestando a nossa presença diante de nós mesmos no lugar onde não podemos ser estrangeiros por ser lugar onde se respira o âmnio. Este Crusué almeja regressar à sua solidão, à sua ilha pré-diluviana, não à sua pátria, não ao conforto do lar e ao calor da sua mulher. Este Ulisses pretende permanecer entre os lotófagos, provando a folha da amnésia, para que as novas construções não ecoem as antigas, para que os novos homens a haver sejam de facto novos, isto é, de uma nova cepa, isto é, procedendo da hibridação e mestiçagem dos caules únicos:

(…)
alors, ouvrant le Livre,
tu promenais un doigt usé entre les prophéties, puis le regard fixé au large, tu attendais l’instant du départ, le lever du grand vent qui te descellerait d’un coup, comme un thyphon, divisant les nuées devant l’attente de tes yeux. (2002:23)


O tom de Éloges é o do exílio, da saudade e da evocação do Paraíso Perdido. Na sequência de poemas “Pour fêter une infance”, o Paraíso confunde-se com a infância e o tempo vivido em Guadalupe: “Mais la terre se courbait dans nos jeux comme fait la servante (…)” (2002:29). Era o tempo da alegria e da exaltação dos sentidos: “Aux lisières le fruit / pouvait choir / sans que le joie pourrît au rebord de nos lèvres” (2002:31). O espaço era inscrito sob o signo da exuberância, a infância “se gorgeait de fruits d’or, de poissons violets et d’oiseaux” (2002:35). Estamos no domínio do mito. Mas o que o poeta deseja será mesmo um impossível regresso no espaço e no tempo, ou quererá, antes de tudo, criar o espaço perdido através da linguagem e por ela chegar a ele? As saudades que terá serão de um tempo que passou, seja ele colonial, pré-colonial ou pós-colonial, ou serão, pelo contrário, do tempo que nunca foi e que só será enquanto for escrito? O que sabemos afinal é que “Ce navire est à nous et mon enfance n’a sa fin” (2002:48), e nem acabará enquanto a escrita durar, porque dentro dela o tempo é sem duração e o espaço é uma gleba aberta a todas as oportunidades perdidas. A poesia de Saint-John Perse opera uma alquimia que busca uma pureza iniciática, mesmo que não inicial. O que se procura é a transmutação do que é naquilo que nunca foi. Tal como na alquimia, os elementos usados são precários e conspurcados, e a pureza resulta da sua fusão em quantidades ainda não experimentadas. Como diz Roger Little na obra supra citada: “It is pagan and timeless, an archetype creating its own mithology” (1973:21). De facto, a identificação do homem com a Natureza afasta Saint-John Perse das concepções cristãs ocidentais onde a clivagem entre o espírito e a matéria, uma com sentido positivo e outra com sentido negativo, impedem uma comunhão criadora com a terra, vista como prisão que urge superar para chegar ao Espírito.
Em Anabase, livro de outra fase de maturação, o poeta autoriza ao seu Crusué a peregrinação que o poderá ajudar a reconciliar-se com os homens. Fugindo da cidade opressora e iniciando o seu périplo pelo deserto, o Estrangeiro pode finalmente reencontra-se com a humanidade, ainda que com uma humanidade primitiva e, por isso, aberta às possibilidades do devir: “Et voici qu’il est bruit d’autres provinces à mon gré... (…) et l’Étranger à ses façons par les chemins de toute la terre” (1992:21). Nesta primeira canção, Saint-John Perse estabelece o tom de todo o poema: em local indeterminado um cavalo nasce, enquanto ajudam ao parto os locais recebem a visita do Estrangeiro; não podem deixar de se maravilhar com a sua figura, a sua aura misteriosa de quem correu muitos caminhos e guarda o segredo de muitas coisas. Que coisa são essas? São coisas a haver, os poemas, que por natureza se furtam a qualquer fechamento, qualquer interpretação e qualquer erosão. Como os rizomas, eles também se prestam a qualquer ligação, qualquer contacto, qualquer abertura e descentralização.


Referências:

1973
Little, Roger, Saint-John Perse, The Athole Press University of London.

1986
Ramos Rosa, António, Poesia Liberdade Livre, Lisboa, Ulmeiro.

1989
Glissant, Edouard, Caribbean Discourse, University of Virginia Press.

1992
Perse, Saint-John, Anabase (trad. José Daniel Ribeiro), Lisboa, Relógio D’Água.

2002
Perse, Saint-John, Elogios (trad. Jorge Melícias), Vila Nova de Familicão, Edições Quasi,.


2007
Loichot, Valérie, Orphan Narratives – The postplantation literature of Faulkner, Glissant, Morrison and Saint-John Perse, University of Virginia Press.


Sem comentários: