sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Perseu


Perseu segurando a cabeça de Medusa
Benvenuto Cellini [1500 - 1571]


Perseu simboliza a força da visão oblíqua, do olhar que vê sem ser visto, do jogo de espelhos e circunvalações em direcção a uma prespectiva arrebatada de profundidade e lubricidade. Para aceder ao âmago é preciso desviar o olhar do olhar que nos petrefica, é preciso ver de outra maneira: cegar. Olhar de frente confronta, mas não desnuda. A realidade não se abre a quem a não acaricie com a ponta de uma adaga. É porque a realidade não se revela imediatamente que quem a confronta à luz do dia se desilude com ela: poética da desilusão, da fraqueza e da conformação: reacionarismo.

sábado, 22 de agosto de 2009

Mário Feliciano



Ao Mário Feliciano

Altos foram os ritos,

distribuindo a perda e a loucura

pelas horas de assombração.

Alta foi a miragem,

as lunações de deus,

o horto onde amadurecem

as rosa brancas

que a tua mãe plantou

antes de partires.


Tu soubeste tão depressa como só o efémero

se inscreve nessa ordem superior

dos veios da terra e dos punhais.


Alta é esta terra de blasfémia

e prolongada espera.

Assim o teu talento,

brumoso e crepuscular.


Tu sabes como são aqui os dias de chuva –

o vento pelos eucaliptos,

a barragem dilatada,

a vala,

os campos à mercê

da melancolia e da solidão.


Tu sabes que cruéis foram os ritos,

altos e cruéis.

Cruéis foram as miragens,

as lunações de deus,

os seus oráculos,

o horto que a tua mãe ainda trata,

cortando-se nos espinhos,

para que ao menos a tua ausência não doa

onde se cravam.



Há muito tempo que queria fazer esta homenagem ao meu conterrâneo Mário Feliciano, encenador que revigorou o teatro português no final da década de 70 e que morreu como aqueles que os deuses amam. Nunca tive a sorte de o conhecer, mas a sua mãe concedeu-me involuntariamente a oportunidade de assistir a uma das cenas mais enternecedoras e ao mesmo tempo lúcidas e desesperantes entre as poucas epifanias que uma vida permite. 3 anos de gaveta, este poema vê hoje a luz do dia em substituição do abraço que já não lhe vou poder dar ao voltarmos as costas a esta terra ingrata.